Nesta notícia pode-se observar "ao vivo" mais uma prova da morte do planejamento no país. Tantas termelétricas, que diga-se de passagem, só serão viabilizadas com o aumento brutal do preço da geração de energia, serão um monumento de ignorância. Como essas unidades, por serem à gás, não complementam (take or pay) a energia hidráulica barata e abundante em certas épocas do ano, estaremos queimando gás (leia-se US$) e vertendo água nos reservatórios. Brilhante!!!! Alem disso conseguiram bagunçar com o setor petróleo de forma análoga ao setor elétrico. No afã do privatizar a qualquer custo as distribuidoras de eletricidade concederam um aumento de margem de tal ordem que agora não sabem como viabilizar a transmissão, que com certeza continuará com a viúva, espremida entre geração e distribuição privadas com lucro garantido. Parecido com o setor petróleo, cujas distribuidoras, recém privatizadas, não abrem mão do "filé mignon" do transporte do gás. Com certeza estaremos recebendo a mais uma conta da viúva para viabilizar mais essa demonstração de incompetência.
JB 18/4/99
Prioridade a termelétricas
Governo vai brigar para reduzir margem de lucro das distribuidoras na venda de gás
MÔNICA TAVARES
BRASÍLIA – O governo decidiu apostar na implantação das usinas termelétricas no país. Para isso, está disposto até a
recorrer à Justiça para questionar a cobrança da margem de comercialização pelo fornecimento do combustível às termelétricas, feita pelas distribuidoras estaduais de gás, que têm o monopólio do fornecimento do produto. O ministro de Minas e Energia, Rodolpho Tourinho, considera excessivo o valor que as distribuidoras pretendem receber das termelétricas pelo direito de passagem do gás.
"Precisamos da energia térmica, se for preciso vamos questionar juridicamente a questão do serviço de distribuição de gás local", enfatizou. Ele está tentando negociar com as distribuidoras estaduais de gás uma tarifa que viabilize o fucionamento das termelétricas.
O ministro se reuniu na última quinta-feira com o presidente da Associação Brasileira das Empresas Distribuidoras de Gás Canalizado (Abegas), Cícero Ernesto Leite de Sousa, e da Companhia Distribuidora de Gás do Rio de Janeiro (CEG) e da Riogás, Féliz Ibáñez de Carlos, para tratar do preço cobrado pelas empresas. Tourinho ressaltou, durante o encontro, que não pode haver atraso ou cancelamento de instalação de usinas termelétricas por intransigência na fixação do preço do combustível. Para ele, "se não houver um comportamento aceitável das distribuidoras de gás, perdem os consumidores, perdem as empresas e perde o país".
Tarifa especial – A proposta do ministro, segundo o diretor-geral da Agência Nacional do Petróleo (ANP), David
Zylbersztajn, é de que as empresas cobrem uma tarifa de passagem de US$ 0,15 por milhão de BTU. "O que está acontecendo agora é encontrar um ponto de equilíbrio que possa se pagar as distribuidoras e não inviabilize a geração termelétrica", disse ele.
"Quem quiser cobrar US$ 0,60 vai ter zero, porque inviabiliza o processo", condenou o diretor. "Por outro lado, os US$
0,15 que o ministro está propondo viabiliza a termelétrica e é um dinheiro praticamente gratuito para as concessionárias,
porque elas são meras atravessadoras".
Para Zylbersztjan, o bom senso, a racionalidade, e principalmente a boa vontade em viabilizar as usinas termelétricas farão com que as concessionárias concordem com esse valor.
O diretor da ANP destacou ainda que o óleo combustível não teve aumento agora, por causa do atrelamento ao gás e por
causa da indústria nacional, "que já é relativamente penalizada com óleo caro e de qualidade não tão boa". Explicou que a
agência quer dar uma solução a estrutural para a questão do óleo em 10 ou 15 dias. "Esse é um compromisso que a gente tem com a Fazenda, porque a gente vai ter mudanças na qualidade do óleo", afirmou.
Produção maior – Até 2004, o governo pretende aumentar em 12 megawatts – equivalente a produção da usina de Itaipu – a oferta de energia elétrica no país fornecidas pelas usinas term elétricas.
Para os grandes centros urbanos, como o Rio, a construção das termelétricas é vital para dar segurança de fornecimento de energia. Deverão ser implantadas duas termelétricas no Rio, uma em Macaé e outra em Campos. A usina termelétrica de Macaé, que terá uma potência de 480 MW, deverá ser construída pela empresa norte-americana El Paso Energy International em parceria com Furnas, Eletrobrás, Petrobras e British Gas.
A Duke Energy lançou, na sexta-feira, uma oferta de US$ 3 bilhões para assumir o controle da maior geradora de energia elétrica do Chile, a Endesa. É a segunda tentativa de compra feita pela companhia americana, mas dessa vez os termos são mais agressivos: a Duke ofereceu 275 pesos por ação da empresa chilena, com a intenção de abocanhar 60% dos papéis com direito a voto – a proposta anterior era de 250 pesos por a ção, e por 51% do controle. O lance é mais um capítulo da disputa com a companhia espanhola Endesa (mera coincidência de nomes) pela geradora chilena. A empresa européia, através da holding chilena Enersis, que já detém mais de 25% da Endesa do Chile, também fez uma proposta, de valor inferior à da Duke. Agora, a expectativa é que o grupo espanhol cubra a oferta.
Setor energético volta suas baterias para o gás
MAURÍCIO PALHARES
Agência JB
SÃO PAULO – O gigantesco suprimento de gás natural dos vizinhos Bolívia e Argentina deverá chegar ao país nos
próximos anos e poderá tornar o combustível a parte mais importante da matriz energética do país. A venda da Companhia de Gás de São Paulo (Comgás), ocorrida na quarta-feira, mostra que esse potencial já foi identificado pelos gigantes mundiais do setor. O consórcio formado pela British Gas e pela Shell do Brasil pagou R$ 1,652 bilhão pela companhia – um ágio de 119%, recorde no setor energético.
O lance parece absurdo se lembrarmos que a Comgás tem um faturamento anual da ordem de R$ 300 milhões. O analista do setor do Banco Brascan, Nami Neneas, mostra que o raciocínio não é tão simples. "O que eles compraram foi um mercado com gigantesco potencial de crescimento e não uma empresa", diz o analista, que acredita que o faturamento pode ser quintuplicado em alguns anos.
Embora a área de concessão da Comgás seja região relativamente pequena (apenas 17 municípios), é a mais desenvolvida do país. Nela estão a Grande São Paulo, a Baixada Santista, o Vale do Paraíba e a região de Campinas. Neneas estima que 15% do Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro venha desta região que, apesar de sua industrialização, tem uma modesta utilização do gás. Um dos exemplos destacados pelo analista é que poucos prédios de São Paulo possuem rede de gás encanado e a maior parte do consumo doméstico vem dos dos botijões que, volta e meia, causam sérios acidentes. "Cada ligação será uma conta a mais para a empresa cobrar. A intenção dos investidores é que a rede seja expandida o mais rapidamente possível."
O interesse de gigantes como a British e a Shell vem do fato que o Brasil é um dos países com maior potencial de
crescimento no setor. Além da expansão das redes nos estados onde a distribuição está com a iniciativa privada, como São Paulo e Rio, outras novidades poderão chegar ao país em breve. "Hoje existe tecnologia para que cada prédio tenha seu próprio gerador de energia elétrica movido a gás. Há shoppings centers que produzem com o gás toda energia elétrica que consomem", destaca Neneas.
Migração – A produção de energia elétrica deverá rumar rapidamente em busca do gás. Inúmeros fatores, como o preço e a poluição, deverão acelerar a caminhada neste sentido. Porém, o mais importante é que alguns estados, como São Paulo, não possuem capacidade para aumentar sua geração por meio de hidrelétricas. "Com a construção da Usina de Porto Primavera, encerrada no início deste ano, não há mais rios que possibilitem a construção de usinas", conta o secretário de Energia do Estado de São Paulo, Mauro Arce.
Segundo o secretário, outra área do Estado, localizada a oeste do gasoduto, deverá ir a leilão ainda este ano. Apesar de não possuir sequer um metro de rede, ela deverá causar uma grande disputa. A região, onde estão Ribeirão Preto, Barretos e São José do Rio Preto, é produtora de boa parte do PIB do Estado e destino de muitas das empresas que deixaram as proximidades da capital. "É outra localidade com grande potencial de crescimento", diz Arce.
Do zero – O diretor da área de energia da consultoria AT Kearney, Athur Ramos, destaca outro aspecto que poderá tornar a região mais cobiçada do que foi a Comgás antes de sua privatização. "Às vezes, é melhor comprar a concessão para explorar um serviço e construir tudo do que comprar uma empresa já pronta. Quem compra uma companhia nunca sabe quantos pepinos encontrará", analisa.
A migração das indústrias para o interior e a necessidade de energia apressarão a utilização do gás como fonte de energia
elétrica. Suprimento não deve faltar. Além da produção das bacias de Campos e Santos (cerca de três milhões de metros
cúbicos diários), o país receberá diariamente 16 milhões de metros cúbicos do combustível a partir de 2003, quando o
gasoduto Brasil-Bolívia alcançará sua capacidade máxima. Além desse suprimento, poderá haver ainda mais oferta.
Quando presidente da Comgás, a hoje vice-presidente da Panamerican Energy, Ieda Correa, dizia que a Argentina poderá contar com uma produção de 15 milhões a 20 milhões de metros cúbicos por dia a partir do segundo semestre do ano que vem. Parte do suprimento poderia ser enviado às regiões Sul e Sudeste por meio de um novo gasoduto, que seguiria do sul ao centro do país encontrando-se com o Brasil-Bolívia. Ieda afirma que o encontro dos dois dutos garantiria uma oferta de gás que viabilizaria a construção de ramais rumo a regiões pouco desenvolvidas, como o interior do Norte e Nordeste.
Porém, o custo estimado para elevar a produção de gás na Argentina seria da ordem de US$ 15 milhões e os investimentos só serão realizados quando for identificada uma demanda semelhante à oferta de gás.
Segundo Ieda, isso não está longe de ocorrer. Os projetos de termelétricas que estão em estudo no país atualmente poderiam gerar demanda de 21 milhões de metros cúbicos de gás por dia. Os estados e muitas empresas, como a fábrica de motores para aviões da Rolls-Royce instalada no ABC paulista, já identificaram no gás uma alternativa para a geração de energia elétrica.
Para Arthur Ramos, a oferta será muito grande. Ele avalia que o consumo dos 16 milhões de metros cúbicos que chegarão pelo Brasil-Bolívia a partir de 2003 só acontecerá com a construção maciça de termelétricas. Caso contrário, sobraria combustível e os investimentos na Argentina não aconteceriam.