O AUTO DA PUSILANIMIDADE I
O AUTO DA PUSILANIMIDADE II
" O país assiste abestalhado" (as aspas colocadas pois essa frase já foi dita outras vezes ) a chatíssima apresentação do Auto da Pusilanimidade. São infindáveis atos, sem intervalos ou baixar de cortinas, a não ser as que encobrem com pouca sutileza qualquer possibilidade de boas intenções. Um especialista em teatro francês do século XVII, perguntado, não ousou fazer qualquer comparação técnica. Ressalvou entretanto o fato de ambos serem muito chatos, colaborando aqui para o eterno tédio nacional, tendo lá já colaborado para o inesperado (inesperado só para alguns historiadores) vazio cultural da Gália .
O Presidente da República confessou (Será verdade ? Glauber Rocha não está vivo para testemunhar ) que poderia ter sido ator de cinema. Poucos riram em volta. A atriz, esposa de famoso ganhador do recente Gramy, apareceu no jornal televisivo, ao lado do presidente quase-ator, com um rosto um tanto sem sorriso. Engano do presidente. No Auto da Pusilanimidade já é ator consagrado. Não de cinema é claro, apesar dos infindáveis atos, que passaram nas mãos de diretores de todas as tendências ( tal como times de futebol que já tiveram um sem número de técnicos na mesma temporada), especialistas no uso teatral de recursos da sétima arte.
Um dos diversos atos simultâneos, que azucrinam os bestificados espectadores, mostra o melodrama surrealista-fisiológico do setor elétrico brasileiro. O Ministro Tápias em cena quase aberta ( o diretor teve a idéia brilhante de encená-la com meia cortina fechada ) apareceu apregoando que o novo (oh! tão novo !!) modelo de controle pulverizado ou, em linguagem usual do Auto, controle democratizado. Contudo, depois viriam os "capitalistas" em coro comprar todas as ações da patuléia ( agradecimentos ao Elio Gaspari ).
Agora, Tápias, em costume medieval da Galícia, combinado com o Earl Gros, fantasiado de Alexander Hamilton, deixa a cena para Tourinho que acena aos bestificados com idéias que isoladas parecem trazer novidades. Contudo, como já apareceram muitas vezes nos textos dos críticos teatrais de oposição, que insistem numa encenação sempre controlada pelo PÚBLICO (com P maiúsculo !), podem vir até a enganar a uma boa parte da patuléia : o estabelecimento de critérios que evitem que os trabalhadores vendam as ações nos dias seguintes da compra. Mordendo e soprando, bem orientado por um diretor que aparece velado em sombras no fundo do palco, Tourinho, grita conceitos utópico-libertários. Não convence. Convence mais quando afirma que só fatia das ações será pulverizada. Entram, ao seu chamamento, depois de piruetas pouco cômicas, o coro dos investidores estratégicos.
Olavo Cabral Ramos Filho
Março de 2000
Em artigo publicado no Jornal do Clube de Engenharia em setembro de 1993 com o título "A Grande Homenagem a Samuel Insull" é encontrado a seguinte trecho:
" No drama brasileiro tal avanço seria viável a curto prazo ? Haja visto o tipo de personagens hoje no poder ou disputando o poder nas empresas elétricas a serem privatizadas, qualquer avanço ético ou democrático é improvável."
O "tal avanço" referia-se, comparativamente, à fatos da história do setor elétrico nos E.U.A. onde ocorreram avanços éticos e de controle público consideráveis em relação aos primórdios da ação das primeiras agências reguladoras estaduais, ainda na primeira década do século XX, sob controle dos plutocratas do grande capital liderados pelo notório Samuel Insull.
Assim, não só não aconteceram quaisquer avanços quer na ética quer nos mecanismos de controle público, como um grupo mafioso tomou monoliticamente o palco cênico. A arrogância dessa patota iniciou seu pique desde a posse do governo Collor, perdeu ligeiramente a face no episódio do "impeachment", mas logo recobrou forças ainda no governo Itamar, alcançando níveis inéditos a partir de 1994 , mesmo quando comparada com a risível arrogância da ditadura militar .
Mas o pior e mais chocante último ato do Auto da Pusilanimidade ocorre nesse primeiro ano do segundo milênio, nessas semanas de abril, maio e junho. Benvinda cronologia emblemática quando, confirmado o fracasso do modelo, pela necessidade de racionamento radical, ficam confirmados ao paroxismo o fisiologismo sem remédio, o oportunismo acanalhado, a mediocridade gigantesca, a falta de imaginação patológica e a ética escassíssima da patota no executivo, no parlamento, no grande banco nacional de fomento e nos postos dirigentes das empresas elétricas privatizadas ou não.
O "país assiste abestalhado" ( já ouvimos isso antes!) a permanência da arrogância, agora temperada com a inverdade (que sinônimo delicado!) a cada instante como ingrediente adicional.
Olavo Cabral Ramos Filho
11 de maio de 2001