O GLOBO 03.02.98
Estudo aponta demissões como a causa da crise
Ramona Ordoñez
Devido à piora gradativa desde o fim do ano passado dos serviços de energia elétrica prestados pela Light e a Cerj no Estado do Rio de Janeiro, diversos representantes da sociedade civil decidiram criar um organismo independente de fiscalização, a Agência de Fiscalização Independente de Serviços Públicos (Afisp). Na primeira reunião realizada ontem com o objetivo de criação da Afisp, o que deverá ocorrer dentro de dois a três meses, foi apresentado um estudo realizado pelo grupo de assessoramento técnico da comissão que organiza a criação da agência. O estudo, elaborado pelo professor Luiz Pinguelli Rosa, da Coppe-UFRJ, e pelo engenheiro eletricista Carlos Augusto Hoffmann, da organização não governamental Ilumina, destaca como algumas das causas dos problemas as demissões indiscriminadas e a falta de uma transição adequada dos padrões tecnológicos antigos para os mais modernos, entre outros.
Fazem parte do grupo de criação da Afisp o Conselho Regional de Engenharia e Arquitetura (Crea), o Clube de Engenharia, a Coppe, o Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor (Idec), o Sindicato dos Urbanitários do Rio e a ONG Ilumina, entre outros.
O estudo elaborado por Pinguelli e Hoffmann mostra que os índices que medem a qualidade dos serviços de empresas de energia elétrica – o DEC (duração das interrupções) e o FEC (freqüência das interrupções) – aumentaram depois de as duas empresas terem sido privatizadas. O DEC da Light passou de 19,59 em 93 para 24,32 em 96. Nesse ano, a média do DEC na região Sudeste foi de 18,08. O DEC da Cerj passou de 34,07 em 93 para 40,93 em 96. Os dois especialistas argumentam que falta uma mesma metodologia para levantamento desses índices entre as concessionárias e a Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel), órgão fiscalizador. Pelos dados da Aneel, que está usando os técnicos e a estrutura do antigo Departamento Nacional de Águas e Energia Elétrica, o DEC da Light em 96 é de 24,32, contra 14,54 divulgados pela empresa.
Por sua vez o índice de freqüência de interrupções, o FEC, da Light foi de 16,58 em 96, enquanto que o da Cerj foi de 35,79. Porém a Light informa que o FEC em 96 foi de 10,12. Dentre as várias causas das interrupções freqüentes, o estudo aponta como uma das principais o corte de pessoal indiscriminado feito pelas duas companhias. Segundo Hoffmann, houve uma perda da memória técnica das companhias com as demissões de pessoal feitas sem maiores cuidados com a necessidade de manutenção de um sistema já sobrecarregado e com problemas localizados.
Pinguelli disse que os controladores da Light e da Cerj, que são estrangeiros (franceses, americanos, espanhóis e chilenos), acreditaram que a maioria dos funcionários demitidos seria absorvida pelas empresas prestadoras de serviços que foram contratadas para os serviços de emergência e manutenção. Mas isso não aconteceu, segundo Pinguelli.
– O sistema é muito antigo e exige um conhecimento, uma vivência que as empresas contratadas não têm – disse Pinguelli.
Outra questão importante destacada pelos dois especialistas é a falta de uma transição nas mudanças de padrão tecnológico.
– É possível que uma das causas do agravamento das interrupções sejam as mudanças de padrões tecnológicos feitas sem a devida programação da transição – destaca Hoffmann.
Segundo os especialistas, a Light está colocando transformadores modernos autoprotegidos em linhas e redes antigas. Hoffmann explicou que nesse tipo de transformador, quando há sobrecarga, ele desliga automaticamente todos os consumidores que atende. Já nos transformadores antigos, só desligava o sistema com problemas (monofásico, bifásico ou trifásico).
Pinguelli por sua vez disse que a explicação da Light é totalmente coerente. Segundo ele, com o verão extremamente quente, aumentou o consumo de energia, principalmente à noite, no período das 19h às 21h. Ele explicou que a demanda de energia foi estimulada pelo consumo de eletrodomésticos. O verão foi muito mais intenso do que o do ano passado. Segundo Pinguelli, a utilização muito maior de aparelhos de ar refrigerado provoca grandes picos de consumo.
– O que impressiona é que a empresa não tenha se preparado para isso. A empresa tinha que estar pronta para enfrentar esse aumento da demanda. Não era um fato imprevisível. Era um planejamento de curto prazo que não foi feito. Isso é obrigação da empresa. Eles têm que conhecer a realidade de onde estão trabalhando – disse Pinguelli.
Segundo ele, os governos federal e estadual são os maiores culpados da situação porque privatizaram as empresas antes de criarem o órgão fiscalizador.
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Nem mesmo a residência do prefeito Luiz Paulo Conde, no Itanhangá, escapou da falta de luz que atingiu vários pontos da cidade na noite passada. Foram dois cortes de energia. O primeiro ocorreu às 22h30m, durou cerca de 30 minutos e surpreendeu o prefeito no momento em que ele via televisão. Segundo Conde, a energia faltou de novo por volta das 6h30m da manhã e dessa vez sua residência ficou sem luz por quase uma hora e meia.
– Com o calor que tem feito e sem ar condicionado ou ventilador, o jeito foi levantar e procurar o lugar mais fresco da casa até a energia voltar. Na verdade, é comum faltar luz no Itanhangá. Imagino que o problema se agrave devido ao aumento do consumo por causa do verão – declarou o prefeito.
A atriz Vera Fischer também vem sofrendo com a falta de luz onde mora, no Alto Leblon. A cada apagão, ela perde contato com o mundo. Segundo a amiga Liège Monteiro, a central telefônica da casa da atriz sai do ar e isso prejudica os contatos profissionais. O músico Paulo Martins, morador da Gávea, também está amargando seus dias de trevas.
– Sem luz não posso compor, já que uso o computador. Nem os instrumentos eletrônicos funcionam. É um absurdo! Falta luz quase todo dia. Já reclamei na Light, mas não adiantou nada- disse Paulo Martins.
FH censura declarações de Sérgio Motta
BRASÍLIA. O presidente Fernando Henrique Cardoso censurou ontem declarações feitas pelo ministro das Comunicações, Sérgio Motta, que, a exemplo do que já fizera na sexta-feira, criticou os serviços prestados pela Light e pela Cerj, classificando o processo de privatização dessas empresas como uma vergonha para o país. Embora pouco enfático, o presidente mandou um recado a Motta, por intermédio do porta-voz Sérgio Amaral, para que não interfira em questões alheias à sua pasta:
– A posição do presidente é a de que cada ministro deve limitar as suas declarações aos assuntos da sua área – afirmou Sérgio Amaral.
Quanto aos problemas surgidos na prestação de serviços após a privatização da Light e da Cerj, o presidente preferiu não fazer qualquer comentário, ressaltando que o ministro Raimundo Brito (Minas e Energia) já dera os esclarecimentos necessários. Mas lembrou que cabe à Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) conduzir a questão.
– O presidente esclarece que na nova estrutura do Estado não é um assunto mais que deva ser tratado pelo Ministério das Minas e Energia, mas pela Aneel, à qual compete fiscalizar e tomar providências, o que está sendo feito – disse Amaral.
Quem também não gostou das declarações do ministro das Comunicações foi o presidente do Senado, Antônio Carlos Magalhães (PFL-BA). Ele disse que Motta não pode falar sobre a situação de outros ministérios porque não é o primeiro-ministro do Governo. O senador disse que Motta deve cuidar apenas do seu ministério, que já tem problemas suficientes. Irritado, Antônio Carlos disse a amigos que nenhuma crítica de Motta ficará sem resposta se os ataques se repetirem. Ele gostou da reação do ministro Raimundo Britto, que chamou Motta de falastrão, mas acredita que críticas como as de Motta só geram discordância entre os partidos que apóiam Fernando Henrique.
Motta criticou a falta de ação da Aneel, vinculada ao Ministério das Minas e Energia, em relação aos serviços da Light e da Cerj. Para Antônio Carlos Magalhães, Motta interferiu numa área restrita ao presidente Fernando Henrique ao criticar um colega de Ministério.
Má qualidade dos serviços contrasta com bom desempenho financeiro das empresas
Flávia Oliveira
Até no escuro o consumidor carioca é capaz de enxergar o abismo que se formou entre a qualidade dos serviços e o desempenho financeiro da Light desde sua privatização, em maio de 1996. Em 1995, seu último ano como estatal, a empresa teve prejuízo de US$ 113,3 milhões. Mas apenas sete meses de gestão privada fizeram a concessionária lucrar US$ 166,7 milhões no ano seguinte. E vai melhorar: projeções do Banco Bozano,Simonsen indicam que a empresa terá lucro de US$ 272 milhões em 1997 (o balanço ainda não foi divulgado); US$ 400 milhões este ano; e US$ 461 milhões em 1999.
Outra questão que salta aos olhos quando se olha os números da Light é a distribuição dos dividendos. A empresa destina todo o seu lucro aos acionistas, comportamento que contrasta com o de outras companhias brasileiras. Ontem mesmo, a Souza Cruz divulgou seu balanço de 1997: do lucro de R$ 308 milhões, R$ 160 milhões vão para os sócios. A Lei das Sociedades Anônimas determina que as empresas destinem aos acionistas, no mínimo, 25% do lucro.
– Estão pagando dividendos demais e esquecendo dos usuários. No contrato de concessão, o Governo deveria ter condicionado a distribuição de lucros à qualidade dos serviços – diz Oscar Salomão, diretor da Máxima Corretora, especialista no setor elétrico e consumidor indignado.
Com a Cerj não é muito diferente. Vendida em novembro de 1996, a empresa contabilizou prejuízo recorde de US$ 257 milhões naquele ano. Em 1997, a expectativa é de que o resultado fique positivo em US$ 23,3 milhões. Este ano, o lucro deve chegar a US$ 59,8 milhões; e em 1999, a US$ 96 milhões.
– Tanto a Cerj quanto a Light estão tentando reduzir suas perdas de energia. Por isso, o resultado só pode melhorar – diz Sérvulo Lima, analista do Bozano.
A preocupação em reduzir as perdas e a necessidade de enxugar custos foram para Isabel Ramos, analista da Opportunity, as razões que levaram Light e Cerj a perderem o foco da qualidade dos serviços. Para se ter uma idéia, entre dezembro de 1996 e setembro de 1997, a relação entre o número de consumidores e o de empregados na Cerj subiu de 279 para 611 – foram mais de dois mil desligamentos. É o melhor desempenho do setor elétrico brasileiro e foi conquistado em menos de um ano. Na Light, a relação saiu de 251 em 1995 para 413 em 1997. Somente no ano passado, os custos com pessoal foram reduzidos em US$ 118 milhões.
A política de reajuste tarifário – que permite repasse integral de qualquer aumento de custo que fuja do controle da empresa – também contribuiu, embora em menor escala. Nos dois últimos anos, a Light corrigiu suas tarifas em 20,55% e a Cerj, em 19,2%. No mesmo período, o Índice Geral de Preços do Mercado (IGP-M) variou 17,5%.
Madrugada de calor e escuridão
Edgar Arruda e José Luiz Vilhena
Mais uma vez o carioca sofreu com o calor e a falta de luz. Durante a madrugada de ontem, diversas ruas em vários pontos da cidade ficaram sem energia. Segundo a Light, apenas 11 transformadores sofreram sobrecarga e precisaram ser substituídos, mas a própria empresa não tinha a relação completa de ruas que também foram afetadas por problemas de linhas de transmissão e por obras de manutenção. Para a Light, os problemas que ocorreram foram isolados, mas houve falta de luz da Zona Sul à Zona Norte, assim como na Zona Oeste. Ontem à noite, voltou a faltar luz no Leblon, na Gávea e em Laranjeiras. O 23ª BPM ficou às escuras.
A Light encontrou o grande vilão para explicar as constantes faltas de luz: o calor. O verão mais quente faz com que as pessoas utilizem um número bem maior de aparelhos de ar refrigerado – adquiridos graças à estabilidade trazida pelo Plano Real – que acabam gerando sobrecargas e queimam os transformadores, segundo a empresa. A Light afirma que 8.500 transformadores foram substituídos no ano passado e outros 10 mil devem ser trocados em 1998.
– Temos um problema cultural: ninguém comunica à empresa que está aumentando o número de aparelhos instalados, assim só descobrimos que o transformador está no limite da pior maneira: quando falta luz – disse Alexandre Coimbra, da Assessoria de Comunicação da Light.
Em Brasília, o diretor-geral da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel), José Mário Miranda Abdo, disse ontem que não adotará qualquer medida punitiva contra a Light enquanto não for concluída a fiscalização que vem sendo realizada na empresa privada. Segundo Abdo, antes de qualquer decisão, a agência promoverá uma audiência pública no Rio com os clientes da Light.
Quem teve que enfrentar a falta de luz, tentou driblar o calor tomando vários banhos ou dormindo nas varandas ou quintais de casa. A falta de energia por quase três horas por pouco não causa um grave problema na UTI do Hospital Maternidade-Escola, em Laranjeiras. Sem gerador, o diretor da unidade, José Leonídio Pereira, já estava providenciando a transferência de 25 crianças quando a energia voltou:
– Foi uma sorte. Estava difícil conseguir vagas em UTIs dos outros hospitais. Os aparelhos aqui só conseguem agüentar três horas sem energia. As crianças correram perigo de vida.
José Leonídio escreveu uma carta ontem ao reitor da UFRJ, Paulo Alcântara Gomes, pedindo a instalação de um gerador, já que foi informado pela Light de que o conserto realizado de madrugada foi apenas paliativo e que novos blecautes poderão voltar a ocorrer na Rua das Laranjeiras. O arquiteto aposentado Hélio Coura, que tem problemas cardíacos, só conseguiu cochilar com a mulher na varanda do apartamento, na Rua Pinheiro Machado. Ele e a mulher, Elza, ficaram sem energia das 22h30m de domingo às 10h50m de ontem.
– Mesmo na varanda, o calor estava insuportável – disse.
Além de cuidar do marido, Elza teve uma tarefa extra: preparar a festa de aniversário da neta Amanda, que ontem fez 3 anos. Como não havia energia, Elza teve que trocar a batedeira elétrica pela esforço manual para preparar o bolo.
– Me senti como no tempo de minha avó – disse ela.
A advogada Nair Alencar Matos não poupou água para driblar o forte calor. Moradora da Rua Venâncio Flores, no Leblon, ela enfrentou uma falta de luz que começou às 22h30m e só terminou no início da manhã:
– Acordava no meio da noite cheia de suor. Tomava um banho. Dormia mais um pouco e tomava outro banho.
As noites em claro deixaram de ser uma novidade para o biólogo Alexandre Pires Barbosa. Há três meses, na rua onde mora, Vice-Governador Rubens Berardo, na Gávea, a falta de luz é constante. Ontem de manhã, ele foi obrigado a subir seis andares do prédio com vela na mão por causa do blecaute.
– O pior é ficar ligando para o 196 e estar o tempo todo ocupado – disse.
A falta de luz é tão constante que a mãe de Alexandre, Rosalina Barbosa, adquiriu fobia de usar o elevador. Como ficou presa três vezes, agora ela só sobe de escada carregando uma vela.
– Da última vez, tinha um senhor cardíaco no elevador – diz Rosalina.
Das 22h30m de domingo às 14h30m de ontem, os moradores da Rua Alzira Brandão, na Tijuca, ficaram sem energia elétrica. Como o número 196 da Light estava sempre ocupado, o aposentado Luiz Goldberg juntou um grupo de vizinhos e foram de táxi até a empresa..
– Chegamos lá e um funcionário nos garantiu que a luz voltaria em breve. Como de manhã a falta de luz continuava, ligamos para lá e o atendente disse que não havia reclamação para esta rua. É um descaso total.
COLABOROU Roberto Cordeiro