Mudanças no setor elétrico Roberto Cordeiro BRASÍLIA O Governo federal decidiu adiar por um ano a transferência total para a iniciativa privada do Grupo Coordenador do Sistema Interligado (GCOI), que t …

Mudanças no setor elétrico

Roberto Cordeiro

BRASÍLIA


O Governo federal decidiu adiar por um ano a transferência total para a

iniciativa privada do Grupo Coordenador do Sistema Interligado (GCOI),

que tem funções de planejar e programar as operações do sistema elétrico do

país. A idéia inicial era passar o GCOI para o Operador Nacional do

Sistema Elétrico (ONS) até o dia 26 de maio de 1999. A decisão consta da

Medida Provisória 1819, publicada ontem no Diário Oficial, e está sendo

encarada como uma mudança nas diretrizes determinadas pelo presidente

Fernando Henrique Cardoso na privatização do Sistema Eletrobrás.


O Governo não admite que esteja planejando adiar o cronograma do leilão

das geradoras do sistema, mas alguns representantes do setor, tanto no

Executivo quanto na área privada, pensam o contrário.


Na mesma medida provisória publicada ontem está definido que o Governo

destinará até R$ 600 milhões da Reserva Global de Reversão (RGR) – um

fundo composto por recursos de empresas estatais e privadas do setor elétrico

– para investimentos em geração, transmissão e distribuição de energia

elétrica no país. Os projetos serão aprovados pela Eletrobrás, à qual cabe

administrar este caixa composto de 3% da receita bruta anual das

concessionárias. O objetivo, segundo o Governo, é recuperar o parque elétrico

nacional e reconquistar, junto à população, a credibilidade do sistema.


O parágrafo quarto da MP diz também que a Eletrobrás poderá conceder

financiamentos do caixa da Reserva Global de Reversão "para expansão e

melhoria dos serviços públicos de energia". Deste modo, por exemplo, a

Light, distribuidora que foi privatizada, poderia encaminhar projetos à

Eletrobrás para ampliar sua rede, quer seja na Baixada Fluminense ou na

Zona Sul do Rio. A condição para obter esse empréstimo é que o projeto se

enquadre nas determinações da estatal federal.


Também é possível obter empréstimos para programas de combate ao

desperdício de energia elétrica e compra de ações das distribuidoras

estaduais de energia, sendo que estes ativos têm que ser transferidos para o

Programa Nacional de Desestatização (PND). Neste último caso, os

governadores que ainda não venderam suas empresas podem antecipar

receitas junto à Eletrobrás com a condição de, no futuro, saldar esta dívida

com privatização.


A Eletrobrás vinha fazendo uma política semelhante no âmbito da

renegociação das dívidas dos estados para com a União. No entanto, a MP

deixa de informar os critérios que corrigirão os empréstimos. O PND ainda

tem ativos das distribuidoras dos estados de Alagoas, Piauí, Rondônia e

Acre a serem vendidos.


Com as novas medidas, especialmente a destinação de R$ 600 milhões da

Reserva Global de Reversão, o Governo muda o discurso que vinha fazendo

até a semana passada.


No episódio do último blecaute, ocorrido no dia 11 de março – que atingiu dez

estados e mais o Distrito Federal – o ministro de Minas e Energia, Rodolpho

Tourinho, afirmara que os investimentos para o setor viriam da

privatização, o que permitiria atrair recursos privados nacionais e

estrangeiros.


No caso das termelétricas, o Governo abre caminho para financiar grupos

interessados em expandir a produção de energia no setor.


De acordo com fontes do Governo, a Eletrobrás terá papel importante no

financiamento destes projetos. A preocupação está justamente no esgotamento

da capacidade de produzir energia através das usinas hidrelétricas. A idéia

é dispor de um parque térmico capaz de complementar as necessidades do

país e, para isso, o Governo – através da Eletrobrás – destinará mais recursos


para o financiamento de grupos privados interessados nos projetos


BNDES: cronograma de privatização não muda

Bernardo de la Peña e Ramona Ordoñez

O diretor de Desestatização do BNDES, José Luiz Osório, disse ontem que a

decisão do Governo de adiar por um ano a transferência do controle do

sistema interligado para o Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS)

não prejudicará o cronograma de privatização das geradoras de energia

elétrica. Segundo ele, a venda das três empresas resultantes da cisão de

Furnas Centrais Elétricas deverá ser feita entre os meses de agosto e

setembro.


– Isso não afetará a venda de Furnas. O ministro tomou a medida para

aprimorar o sistema e o efeito dela para a privatização pode ser neutro ou

positivo – afirmou.


O diretor do BNDES lembrou que o Conselho Nacional de Desestatização

(CND) decidiu, na sua última reunião, em 25 de março, continuar o processo

de venda de Furnas e deixar para abril qualquer decisão sobre a Companhia

Hidroelétrica do São Francisco (Chesf) e a Eletronorte. Osório explicou que o

único atraso na venda de Furnas ficou por conta do adiamento da assembléia

de acionistas do dia 30 de março para o próximo dia 23, na qual será feita a

cisão da empresa.


– Mas o importante é que este adiamento não causará atraso – garantiu.


No caso de Chesf e Eletronorte, por questões políticas o Governo decidiu

esperar que a proposta de privatização seja melhor assimilada para

contornar as críticas de parlamentares do Norte e do Nordeste, contrários à

venda dessas estatais. O Governo esperava arrecadar pelo menos R$ 7

bilhões em 1999 com a privatização de todas as geradoras. Um técnico ligado

ao Ministério das Minas e Energia admitiu, porém, que a decisão foi

motivada pela insatisfação do ministro Rodolpho Tourinho com o ONS.


O mercado vê a decisão de ontem com reticências. O diretor de um grupo

estrangeiro que já participou do processo de privatização do setor, consultado

ontem pelo GLOBO, considerou a medida um mal sinal para os investidores,

no momento em que o Governo tenta atrair interessados nas geradoras.


Já o vice-diretor da Coordenação dos Programas de Pós-Graduação em

Engenharia (Coppe) da UFRJ, Luiz Pinguelli Rosa, acha que a decisão do

Governo de adiar a mudança significa um reconhecimento de que as

privatizações não podem ser feitas a toque de caixa.


– Além de adiar a tranferência, o Governo deveria suspender a privatização

de Furnas – diz Pinguelli.


Ele sugere que seja revisto o modelo de venda da estatal. Para Pinguelli,

deveriam ser vendidas apenas as usinas termelétricas. Na opinião do

engenheiro, as hidrelétricas deveriam permanecer estatais.

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