O GLOBO 17.05.97
PRIVATIZADA, LIGHT OBTÉM GRANDES LUCROS
Ramona Ordoñez e Ascânio Seleme
RIO e PARIS. No exterior ela já é conhecida como cash cow – termo usado no mercado financeiro para as empresas que geram muito caixa. No Brasil, ela surpreendeu o mercado pela rapidez com que reduziu drasticamente seus custos e apresentou resultados invejáveis. É a Light, responsável por 80% da energia consumida no Estado do Rio, que completará no próximo dia 21 um ano de privatizada. Seus resultados são considerados fantásticos pelo mercado financeiro. Os analistas estimam que este ano a Light terá um lucro da ordem de R$ 430 milhões, mais que o dobro dos R$ 173 milhões do ano passado.
A empresa foi comprada pelo preço mínimo de R$ 2,2 bilhões, por um grupo formado por empresas de energia estrangeiras, a francesa Electricité de France (EDF) e as americanas Houston Industries Energy (HIE) e AES. As três, com a Companhia Siderúrgica Nacional e a BNDESPar, formam o grupo de controle.
Os resultados já obtidos basearam-se numa política agressiva de corte de custos, com redução do quadro de pessoal em cerca de quatro mil funcionários, combate às perdas de energia, renegociação de contratos e redução de estoques. Segundo o analista Marcelo Monteiro, do Banco Pactual, com o programa de demissão voluntária, a Light passou a trabalhar com um excelente indicador de eficiência: 446 consumidores atendidos por empregado.
No início da década, os investimentos médios não superavam R$ 150 milhões anuais. Agora, estão previstos investimentos totais de R$ 1,1 bilhão até o ano 2000, dos quais R$ 255 milhões só este ano. De acordo com a analista Ana Siqueira Dantas, do Banco Icatu, o volume de investimentos em distribuição e transmissão supera R$ 200 milhões anuais. De 1997 a 2000, serão investidos nessas duas áreas R$ 890 milhões.
– Isso nos surpreendeu, porque esperávamos que seria o total de investimentos – disse ela.
Mas para o consumidor, ser atendido por uma empresa privada passou a ser sinônimo de tarifa elevada. Desde que foi privatizada, a Light teve dois reajustes autorizados: 8,03%, em novembro, e 4%, na semana passada. O Governo fixou uma tarifa para as distribuidoras de energia privatizadas (Light, Cerj e Escelsa) que garante a sua rentabilidade. No caso da Light, durante os oito primeiros anos de privatizada, a empresa tem garantido o reajuste anual com base no IGP-M. Além disso, qualquer despesa em que a empresa não tenha ingerência, como aumento de preço da energia fornecida por Furnas e Itaipu, tem repasse garantido. Foi o que ocorreu semana passada, quando foi autorizado o reajuste para cobrir o aumento de 13% da energia vendida por Furnas à Light (que compra cerca de 80% de toda a energia que fornece). E em agosto as tarifas subirão mais 5,86%.
– Para fornecer serviço de boa qualidade, temos de investir. E precisamos de uma tarifa que nos proporcione recursos para esses investimentos – diz o presidente da Light, Michel Gaillard.
– Com a tarifa boa e a redução de custos, o caixa deve melhorar cada vez mais. E os consumidores serão beneficiados com um serviço de boa qualidade – observou Maria Amália Coutrim, diretora do Opportunity Asset Management.
A Light adotou um programa de recadastramento que tem como um dos objetivos principais reduzir as perdas de energia, que são 15,8% do faturamento. Desse total, 6,6% são perdas técnicas que podem ser reduzidas com investimentos; as não-técnicas – roubos, desvios e "gatos" – respondem por 9,2%. A meta para este ano é de uma redução de 2,1%. A Light calcula investir R$ 9,5 milhões para cada 1% de perda recuperada, mas com um retorno de R$ 25,5 milhões. Somente em 97, o ganho nessa área, diz Ana Siqueira, será de R$ 33,6 milhões.
Com um patrimônio de R$ 5 bilhões e um faturamento de R$ 1,5 bilhão, o endividamento da Light é pequeno: R$ 305 milhões. A lucratividade sobre o patrimônio líquido, este ano, deverá pular dos 7,4% de 96 para 18%.
De acordo com Gaillard, a Light também está investindo na capacitação de pessoal, e os primeiros resultados já começam a ser observados internamente.
– No que se refere à qualidade dos serviços oferecidos aos clientes, posso dizer que ao longo de 1998 a melhoria será percebida claramente. Na verdade, no início do próximo ano já haverá melhoria. Mas daqui a dois anos, aí sim, o perfil da empresa e de seus serviços será completamente diferente – prometeu Gaillard.
O consumidor vai perceber a diferença, segundo ele, na redução do número de cortes de energia e na duração menor desses cortes. Também vai melhorar a "qualidade da fatura" que o cliente recebe em casa e o atendimento nas agências, disse Gaillard:
– Muita coisa vai mudar quando o pessoal estiver mais bem capacitado e a empresa plenamente informatizada.
Os analistas acreditam que em dois ou três anos, os controladores começarão a investir em outras áreas – segundo Ana Siqueira, porque o mercado atendido pela concessionária tem perspectiva de expansão de não mais de 3,6% ao ano. Acredita-se que a Light participará das privatizações de geradoras e distribuidoras de energia, como a CEG.