O GLOBO 25.09.97
Nuclen apura causas de falha na usina Angra I
Os técnicos da Nuclen e das Indústrias Nucleares do Brasil (INB) ainda estão estudando o
que causou a falha de oito varetas de elemento combustível do reator da usina nuclear
Angra I. Embora tenha havido vazamento radioativo, não há riscos de contaminação
externa, como informou Ricardo Boechat, na coluna Swann.
Os técnicos da Nuclen e da INB só devem apresentar um laudo sobre o problema dentro de
uma semana, mas o diretor da Coordenação dos Programas de Pós-Graduação em
Engenharia (Coppe) da UFRJ, o físico Luiz Pinguelli Rosa, já alertara num relatório
elaborado em maio para a juíza federal Maria Tereza Lobo que o problema das varetas de
combustível de Angra I é crônico. Segundo ele, o problema ocorre desde que o combustível
radioativo da usina deixou de ser fornecido pela Westinghouse e passou a ser fornecido
pela Siemens.
De acordo com Pinguelli, não é a primeira vez que ocorre esse tipo de vazamento e o
problema pode voltar a se repetir, causando a paralisação de Angra I:
– Não há que se estudar nada. O combustível projetado pela Siemens está sendo usado
num reator da Westinghouse. É como um Opala com pneu de Volkswagen: não está
rodando bem.
De acordo com Luiz Soares, coordenador de relações institucionais da Nuclen, a usina
estava fora de operação para a substituição de um terço dos 121 elementos de combustível
– cada um deles contém 256 varetas – quando os técnicos detectaram o vazamento. As
varetas foram substituídas e a Nuclen afirma que Angra I voltará a funcionar no dia 29 de
outubro, dentro do cronograma. Segundo Soares, o vazamento ocorreu dentro do circuito
primário da usina – onde está instalado o núcleo do reator.
No relatório apresentado à juíza Maria Tereza Lobo, em maio, Luiz Pinguelli Rosa alertara
para um problema ainda mais grave que a falha das varetas, que é a corrosão dos tubos do
gerador de vapor. O diretor da Coppe verificou que em 1993 cerca de 5% dos tubos já
tinham sido isolados por causa da corrosão. Na reunião de 1993 com técnicos de Furnas, a
solução apontada foi a recuperação dos tubos através de soldas a laser, mas também foi
consensual que seria preciso substituir o gerador caso a corrosão chegasse a 15% dos
tubos.
– Esse é o problema mais grave de Angra I. Nesse caso, a despesa ficaria entre US$ 50
milhões e US$ 100 milhões e a usina teria que ficar parada de seis meses a um ano – disse
Pinguelli.