O GLOBO 31.08.97 OPINIÃO DE O GLOBO Em bloco O Governo se prepara para um desafio ainda maior do que a venda da Vale do Rio Doce: a privatização de Furnas e Eletrosul no ano que vem.A venda dessas empresas integra …

O GLOBO 31.08.97




OPINIÃO DE O GLOBO

Em bloco



O Governo se prepara para um desafio ainda maior do que a venda da Vale do Rio Doce: a

privatização de Furnas e Eletrosul no ano que vem.

A venda dessas empresas integralmente é a mais adequada para ambas, pois assim terão

condições de alavancar recursos e investir pesadamente na ampliação do parque gerador de

energia elétrica. Se picotadas, dificilmente se envolveriam na construção de uma grande

hidrelétrica no futuro. E o Brasil terá de promover investimentos maciços nessa área para

que a falta de eletricidade não venha a estancar o crescimento econômico.

É exatamente essa capacidade de multiplicar os negócios que pode atrair fortes grupos de

investidores para os leilões de privatização, propiciando uma boa arrecadação aos cofres

públicos. Estima-se que o controle acionário de Furnas possa ser alienado por uma quantia

superior ao da Vale do Rio Doce. Somando-se as participações minoritárias, o Tesouro

Nacional arrecadaria quase 50% a mais do que deverá receber ao fim da privatização da

Vale. A Eletrosul também teria tal valorização.

O óbice à privatização das duas companhias integralmente seria a questão do sistema

nacional de transmissão de energia. O Governo pretendia que esse sistema se

transformasse em uma espécie de via pública para que produtores independentes de

diferentes regiões do país pudessem transitar com sua energia.

Ora, pelo estudo encomendado pelo Ministério das Minas e Energia a uma renomada

empresa de consultoria, ficou claro que esse sistema pode ser montado com empresas

privadas. Para tanto, as concessionárias serão obrigadas, de agora em diante, a separarem

em sua contabilidade os custos de geração, transmissão e distribuição de eletricidade. Com

base nesse levantamento, a futura agência reguladora do setor, a Aneel, terá perfeitas

condições de estipular regras e tarifas remuneradoras pelas quais as companhias privadas

sejam obrigadas a permitir a transmissão de energia de terceiros por suas linhas. Não

existiria assim necessidade de o sistema ser estatal.

No caso de Furnas, como a empresa tem sua sede no Rio de Janeiro, o desmembramento

da empresa significaria dispersar um corpo gerencial e técnico de primeira linha, com sérios

prejuízos à economia do município e do estado.




OUTRA OPINIÃO

Desverticalizar Furnas



ADILSON DE OLIVEIRA

Estruturados sob a forma de monopólios verticalizados, os mercados elétricos estão sendo

reorganizados para permitir a introdução da concorrência. Mudança tão radical suscita

ceticismo e dúvidas, particularmente entre os conservadores, sempre avessos a mudanças.

Mas, boas razões técnicas (interconexão dos mercados elétricos) e econômicas (redução

dos custos de transação) indicam a existência de condições para a introdução da

concorrência. A experiência de outros países sugere que esta mudança trará substanciais

reduções nos custos operacionais e de investimento das empresas elétricas.

Os críticos argumentam, com razão, que os consumidores foram pouco beneficiados por esta

mudança, tendo as empresas elétricas se apropriado da maior parte das reduções de custos

para engordar seus lucros. Este argumento apenas reforça a necessidade de um órgão

regulador capacitado para efetivar a justa distribuição das reduções de custos com os

consumidores.

Mas a cadeia de produção de energia é complexa, compondo-se de etapas nas quais é

possível estabelecer a concorrência (geração e comercialização) e outras nas quais o

monopólio continua sendo a forma mais eficiente de organização industrial (transmissão e

distribuição). Para introduzir a concorrência nas duas pontas da cadeia é indispensável

assegurar o princípio da neutralidade, visando a evitar o uso do eventual controle sobre

qualquer parcela da rede de transmissão para práticas anticompetitivas. Em outras palavras,

a desverticalização das empresas e a operação independente da rede de transmissão é

condição sine qua non para que a concorrência seja introduzida no setor.

Duas formulações básicas têm sido adotadas para equacionar o problema. A primeira,

solução ideal, é a constituição de uma empresa de transmissão monopolista, independente,

preferencialmente estatal, impedida de gerar ou comercializar energia, com tarifas reguladas

para garantir o acesso equânime de todos os agentes do mercado à rede. Por razões legais,

esta solução é de difícil implementação em situações como a brasileira, em que diversas

empresas possuem ativos de transmissão. Nestes casos, adota-se a segunda formulação, a

desverticalização contábil e a criação de um novo organismo (o operador independente do

sistema – OIS), que assume a gestão e os direitos de comercialização dos serviços

prestados pela rede. É importante notar que há fortes razões para crer que, ao abdicarem

efetivamente dos direitos de comercialização dos serviços prestados por seus ativos, as

empresas geradoras com o tempo venham a se desinteressar pela atividade de transmissão.

Desta forma, as duas formulações tendem a convergir para a constituição da empresa

independente de transmissão.

Do ponto de vista da concorrência, as duas soluções são equivalentes. Entretanto, os

geradores independentes se sentem mais confortáveis em entrar no mercado elétrico quando

a primeira formulação é adotada, pois fica afastado o risco, sempre presente na segunda

hipótese, de o proprietário dos ativos de transmissão vir a falsear a neutralidade do OIS. No

caso de Furnas, a sua privatização verticalizada sinalizaria para os potenciais produtores

independentes que terão que competir com um formidável gerador privado, possuidor de uma

parte considerável da rede de transmissão da região sul-sudeste-centro-este. Não seria um

bom começo.

ADILSON DE OLIVEIRA é professor do Instituto de Economia da UFRJ.




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