O Ilumina recebeu e divulga o pronunciamento do Senador Arlindo Porto contra o processo de privatização de FURNAS. Pronunciamento do Senador Arlindo Porto (PTB-MG), ex-Ministro da Agricultura e ex-vice-govern …



O Ilumina recebeu e divulga o pronunciamento do Senador Arlindo Porto contra o processo de privatização de FURNAS.




Pronunciamento do Senador Arlindo Porto (PTB-MG), ex-Ministro da

Agricultura e ex-vice-governador de Minas


Senhor Presidente,


Senhoras Senadoras e Senhores Senadores,


É grande, hoje, nossa preocupação com o processo de cisão da Furnas

Hidrelétricas em duas empresas geradoras e uma de transmissão de energia,

com vistas à privatização.


Tenho, ao longo da minha vida pública, defendido o fortalecimento do Estado

em suas funções fundamentais e intransferíveis de assegurar saúde, educação,

segurança e acesso de todos à Justiça.


Ao Estado cabe garantir a livre empresa, o direito dos trabalhadores e

propiciar as condições para o progresso da Nação. Para isso, o Estado tem

que ser forte nas suas atribuições.


É o que justifica minha posição favorável ao Programa Nacional de

Privatização.


Registro que, entre os primeiros pareceres que lavrei nesta Casa, estava o

encaminhamento favorável da lei que abriu o setor de construção e operação

de geradoras de energia à iniciativa privada.


Agora, no entanto, questiono a oportunidade e conveniência da cisão da

empresa Furnas Centrais Hidroelétricas, seguindo o modelo adotado após a

reestruturação do setor elétrico, que já está sendo transferido à iniciativa

privada.


O "apagão" que assistimos no último dia 11 de março, com enormes prejuízos

para a indústria, o comércio e à população em geral, que chegou a ficar sem

atendimento em hospitais, mostrou que o setor enfrenta problemas estruturais

graves – já denunciados por especialistas que apontam o setor de

transmissão, pela falta de investimentos, como causa principal, ao lado de

falhas na gerência.


É conveniente lembrar que Furnas era a principal responsável pelo

intercâmbio de energia entre as demais empresas regionais, até que a

operação do sistema passou à gerência da empresa privada ONS (Operador

Nacional do Sistema).


Demonstrou, também, que a Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) ainda

não está devidamente estruturada para fiscalização e controle das unidades

geradoras e transmissoras privatizadas. Talvez pela pressa do processo de

privatização, que quase antecedeu à montagem das agências nacionais de

regulação e controle dos setores estratégicos privatizados.


É o que se percebe na área de telefonia, onde as empresas privadas, até pela

novidade da operação, não estão conseguindo atender corretamente aos

usuários ou mesmo cumprir integralmente os contratos de concessão e outorga

com que se beneficiaram. As empresas de telefonia são as recordistas de

reclamações junto aos órgãos de defesa do consumidor.


Este é um dos aspectos que justificam a preocupação da sociedade brasileira

com o processo de privatização de Furnas.


Afinal, a área de atuação de Furnas se estende por Rio de Janeiro, São

Paulo, Minas Gerais, Espírito Santo, Tocantins, Goiás e Distrito Federal. É

a região que concentra 65% do PIB nacional e 55% dos consumidores

brasileiros.


Furnas gera 60% da energia consumida no Sudeste e Centro-Oeste, ou 40% do

consumo nacional. Responde por 95% do consumo do Distrito Federal, 88% do

consumo do Rio de Janeiro, 82% do Espírito Santo, 45% de Minas Gerais, o

mesmo percentual de São Paulo e 38% de Goiás.


Furnas opera 16.244 km de linhas de transmissão, além de suas 11 usinas,

sendo 9 hidroelétricas e 2 termelétricas, com potência instalada de 9.100

MW.


É sistema que funciona muito bem, graças, em grande parte, à facilidade de

integração por uma gerência unificada que lhe dá escala e racionalidade

técnica e operacional.


Outro aspecto fundamental dessa preocupação é a inexistência, hoje, de uma

integração efetiva entre os vários interesses que cercam uma grande

hidrelétrica.


Não há, ainda, uma agenda de entendimento e de definição de interesses dos

agentes envolvidos: a Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel); o

Sistema Nacional de Gerenciamento Hídrico, responsável pela preservação e

compartilhamento dos recursos hídricos; o Ministério da Agricultura que se

preocupa com a irrigação e a piscicultura; o setor de turismo – uma vez que

os grandes lagos formados impulsionam efetivamente a atividade de hotelaria

e lazer, interiorizando o desenvolvimento e diversificando a economia desses

locais.


Não há, também, a integração indispensável com o setor de transportes, uma

vez que as hidroviais são uma solução efetiva para a redução do Custo Brasil

e melhoria da competitividade nacional, principalmente no setor

agropecuário.


Não temos, também, conhecimento de como se dará continuidade ao planejamento

e execução dos programas de eletrificação rural, indispensáveis ao

desenvolvimento da agropecuária, à reforma agrária e à fixação dos pequenos

agricultores familiares em suas terras.


São, portanto, muitas as questões não resolvidas ou sequer discutidas,

afetadas pela eventual privatização de Furnas.


Dúvidas suficientes para determinar a reavaliação dos processos de

privatização da Eletronorte, da Chesf ou da CESP. Esta é uma questão

nacional, pois as bacias hidrográficas extrapolam as fronteiras estaduais e

os interesses setoriais.


É a mesma preocupação do ex-presidente Itamar Franco que, agora no Governo

do Estado de Minas, criou uma Comissão Especial de Estudos Avançados

Constitucionais e Legais, presidida pelo Dr. José de Castro Ferreira e

formada por juristas de elevado conceito, entre eles o Dr. José Murilo

Procópio de Carvalho – do Conselho Federal da OAB – e que não fazem parte

dos quadros governamentais, para que produzam um parecer isento sobre estas

e outras dúvidas. Uma avaliação imparcial sobre como ficarão nossos rios,

quem terá controle sobre as atividades turísticas que em torno dos lagos se

desenvolvem ou sobre suas águas.


É a mesma e grave preocupação dos prefeitos das 34 cidades que ficam às

margens do lago de Furnas, sete vezes maior que a Baia da Guanabara, e que

já recebe um milhão de visitantes por ano e onde estão sendo construídos 11

novos hotéis, na perspectiva de passar a receber 13 milhões de turistas/ano.



Vocalizando o que pensa a sociedade desses municípios, os prefeitos

manifestam o temor de que os futuros compradores não mantenham o respeito ao

meio ambiente, como ocorre atualmente. E se preocupam com a manutenção de

projetos sociais mantidos por Furnas na Região, como a Estação de

Hidrobiologia e Piscicultura.


A mesma preocupação é manifestada pelos municípios lindeiros da Represa de

Camargos, que se reuniram nesta quarta-feira (12/05) para debater o

problema, com a representação das cidades de Ibiturama, Itutinga, Carrancas,

Lavras, São João del Rei, São Vicente de Minas, Madre de Deus de Minas,

Tiradentes e Nazareno.


Temos, ainda, de estarmos atentos aos reclamos e preocupações semelhantes,

relativas à privatização da Companhia Hidroelétrica do São Francisco

(CHESF), que tem seu nascedouro e parte de seu curso em Minas Gerais, mas é

o único grande curso de água que atravessa a Região Nordestina.


É necessário avaliar corretamente as conseqüências da privatização das águas

do Rio São Francisco, o mitológico "Velho Chico", e as possibilidades que

restarão para uso múltiplo de suas águas, indispensáveis para o

aproveitamento do fantástico e ainda sub-explorado potencial de produção de

alimentos e frutas de toda a região ribeirinha.


Mantenho minha posição favorável à privatização. Mas insisto em que o

processo de cisão e privatização de Furnas, assim como os demais, devam ser

reavaliados.


Se mantido o modelo de cisão de Furnas, há que se resolver, em primeiro

lugar, a integração entre geração de energia, irrigação, piscicultura,

turismo, preservação do meio ambiente e transporte hidroviário.


Há que se definir, ainda, a forma de integração e parceria indispensáveis

entre União, Estados e Municípios. Embora prevista em lei, também não há

regulamentação sobre a compensação a ser dada aos municípios pelas eventuais

concessionárias privadas da geração de energia.


Há que se questionar, ainda, o modelo de privatização. Em relação a Furnas,

estamos falando de uma empresa com patrimônio de R$ 11 bilhões, com

endividamento de apenas 7,5% sobre este patrimônio, e que nos últimos três

anos investiu R$ 2,6 bilhões. Somente no ano passado, o lucro de Furnas

chegou a R$ 453 milhões. Em grande parte, é verdade, pelo aumento de tarifa

de energia elétrica concedido para remunerar as empresas de distribuição

privatizadas.


O que se vê, no mundo todo, não é a cisão, mas sim a junção. São as

megafusões de empresas dos mais variados setores – automobilísticas,

farmacêuticas, produtoras de sementes e insumos agropecuários, de

comunicações, petrolíferas, de energia e bancos.


Ora, no mundo todo, o modelo é o de agigantamento de empresas para ganho de

escala. Então, por que não preservar Furnas e até se avaliar sua fusão com

outras empresas? Será que somente Furnas e as empresas de energia

brasileiras devem seguir o modelo de cisões, que são o oposto do que ocorre

no resto do planeta?


É bom lembrar, ainda, que nos Estados Unidos, que tem estimulado ou até

imposto o modelo de privatização, 95% das hidrelétricas são controladas pelo

Estado (Federal, Estados e Municípios). Não seria o caso de se perguntar aos

que têm defendido o alinhamento automático aos Estados Unidos se, no caso do

setor elétrico, também "o que é bom para os Estados Unidos é bom para o

Brasil?"


Argumenta-se que, dividida, Furnas será mais rapidamente vendida. Repartida,

teria colocação mais rápida e mais fácil no mercado. Mas isto é bom para a

estratégia de desenvolvimento do Brasil?


Se o modelo de Estado que, aparentemente, a sociedade brasileira escolheu é

aquele em que as atividades produtivas serão quase que integralmente

repassadas à iniciativa privada, por que não se desestatiza o setor elétrico

via pulverização das ações, reservando parte dessas ações para os

funcionários? Seria uma forma, aliás, de reduzir o elevado passivo atuarial

que a empresa tem com o fundo de pensão dos seus funcionários, o Real

Grandeza.


No modelo que se pretende, esse passivo fica quase que integralmente com o

Estado. Isto porque o provisionamento de recursos para cobrir o passivo

atuarial da Fundação Real Grandeza seria desproporcional. A geradora nº 1

provisionaria R$ 88 milhões, a geradora nº 2 outros R$ 46,6 milhões,

enquanto a empresa de transmissão, que permanecerá com a União, assume o

passivo de R$ 1,7 bilhão.


Senhor Presidente,


Senhoras Senadoras e Senhores Senadores,


Estes são os motivos pelos quais venho colocar-me contra a cisão imediata de

Furnas e contra a sua privatização açodada, antes que se resolvam as

questões expostas.


A primeira delas, relativa à efetiva integração de interesses de todos

setores, estados e municípios envolvidos, submetidos todos eles ao objetivo

maior de preservar os interesses estratégicos da Nação.


A segunda delas, diz respeito ao modelo de desestatização, que implica, sem

dúvida, um contrasenso econômico. Não se pode dividir uma empresa apenas

para facilitar a venda em pedaços, ficando a União com aquela de menor

rentabilidade, a maior carga de débitos e a maior necessidade de

investimentos.


Dividir empresas no momento em que a racionalidade econômica recomenda a

fusão de empresas é um aspecto a ser discutido e avaliado corretamente, em

defesa dos interesses nacionais.


Os condutores do modelo econômico brasileiro ainda precisam explicar

claramente suas opções.


Vende-se o patrimônio e o controle das hidroelétricas e sistemas de

transmissão e distribuição apenas para reforçar o caixa da União ou por

racionalidade econômica?


Qual a importância estratégica do setor para o desenvolvimento industrial do

país?


E mais: como ficam os consumidores, principalmente diante do fato de que as

atuais distribuidoras privadas estão cobrando as tarifas mais caras do país

e das mais altas do mundo, com diferencial de 40% a 60% do preço que pagam

pelo kw comprado às geradoras estatais?


São perguntas, Senhor Presidente, que esta Casa e a sociedade brasileira

precisam ver respondidas antes que se consume o fatiamento e venda da

geração e distribuição de energia no Brasil.


O Senado Federal não pode abdicar de chamar a si a discussão desse problema,

de caráter nacional e que afeta profundamente os interesses federativos,

tema que têm nesta Casa o seu fórum máximo.


O Senado Federal deve paralisar o processo de desestatização do setor

elétrico e reavaliar posições, mesmo as já aprovadas, ainda que em passado

recente, quando não havia surgido, ainda, tantas dúvidas e tantas

apreensões. Esta Casa deve "ouvir a voz da rua", a voz da sociedade e suas

preocupações.



Muito obrigado!

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