ODia 11/05/99 Uma CPI para o BNDES Reinaldo Gonçalves O BNDES envolve-se em mais um escândalo, pouco tempo depois da demissão do seu presidente, cujas conversas telefônicas colocam sérias suspeit …


ODia 11/05/99

Uma CPI para o BNDES

Reinaldo Gonçalves


O BNDES envolve-se em mais um escândalo, pouco tempo depois da demissão do seu presidente, cujas conversas telefônicas colocam sérias suspeitas sobre o processo de privatização. Dessa vez montaram uma operação para resgatar dívidas privadas. Grupos brasileiros aproveitaram-se da abertura econômica para se endividarem em dólar no exterior. Enquanto o povo pagava taxas de juros absurdas, esses grupos pegavam dinheiro barato no exterior para comprar as empresas estatais. Assim foi com as Organizações Globo, que compraram empresas de telecomunicações, e com o grupo Steinbruch, que comprou a CSN e a Vale do Rio Doce.


Só que deram azar. A crise cambial do início deste ano pegou Roberto Marinho, Benjamin Steinbruch e outros de calças curtas. O fato de eles serem os "donos do poder" no governo FHC não representa nada para os seus credores internacionais. Pegou dólar emprestado em Nova Iorque, tem que pagar em dólar. Acontece que a incompetência do governo FHC provocou uma grave crise cambial, que resultou na maxidesvalorização do real. O resultado é que, de um dia para o outro, as dívidas dos Marinhos e Steinbruchs da vida aumentaram pelo menos cinqüenta por cento. Azar o deles!


O que o povo brasileiro tem a ver com isso? Aparentemente nada. Empresários aceitam riscos, se apropriam dos lucros e se responsabilizam pelos prejuízos. Mas a história não é bem essa durante o governo FHC. Desde o Proer em 1995, quando o presidente criou um programa para resgatar bancos falidos, administrados por banqueiros corruptos e incompetentes, ficou clara a ligação de FHC com grandes grupos, principalmente aqueles que freqüentam o Palácio do Planalto. Com o Proer foram transferidos bilhões de reais para os banqueiros. Dessa vez, trata-se de salvar grupos industriais e comerciais. Essa operação de resgate (conhecida como BLT) foi montada pelo BNDES para trocar as dívidas em dólares de grandes grupos econômicos por títulos garantidos pelo Governo federal. Socializa-se, uma vez mais, os prejuízos. O povo paga a conta quando grandes grupos privados, que apóiam FHC, cometem erros.


A revelação do escândalo pela imprensa não comprometida com esses grandes grupos, bem como as pressões que surgiram na sociedade, levaram o Governo, por meio do ministro do Desenvolvimento, Indústria e Comércio, a declarar que a operação de resgate não deve sair. Temerosa de que esse escândalo aumente ainda mais as dúvidas sobre a sua saúde financeira, as Organizações Globo emitiram um comunicado solicitando ao Governo que não inclua seu nome na provável lista de beneficiários desse esquema, que pode se transformar em mais

um escândalo do governo FHC.


A degradação institucional do BNDES iniciou-se quando foi transformado em uma máquina de propaganda do Governo e de apoio aos grandes grupos econômicos, ao sabor de interesses circunstanciais. Essa degradação agravou-se quando o BNDES envolveu-se no processo de privatização durante o governo FHC. Não se esqueçam de que a capacidade de mobilização de recursos do BNDES é muito superior à do Banco Central, cuja degradação institucional tem sido evidenciada na CPI do sistema financeiro. Quem sabe, não é hora de se fazer uma radiografia do BNDES durante o governo FHC? Ou melhor, dizendo: que tal uma devassa no BNDES? Pode-se começar com uma CPI.



Reinaldo Gonçalves é vice-presidente do Conselho Regional de Economia


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