Panorama energético (insustentável) de Pernambuco Heitor Scalambrini Costa Professor Adjunto da Universidade Federal de Pernambuco O que chama atenção ao analisar os dados apresentados no Balanço Energ …

Panorama energético (insustentável) de Pernambuco


Heitor Scalambrini Costa


Professor Adjunto da Universidade Federal de Pernambuco


O que chama atenção ao analisar os dados apresentados no Balanço Energético de Pernambuco (BENPE), referente aos anos de 1989 até 1998 (último ano disponível), é que apesar das fontes renováveis de energia (hidreletricidade, carvão vegetal, lenha, álcool e bagaço de cana) ainda contribuírem com a maior parcela na oferta total de energia; estes energéticos vêm, ano a ano, reduzindo sua contribuição na matriz energética do Estado. Por outro lado, as fontes não renováveis de energia (derivados do petróleo e gás natural), vêm a cada ano aumentando sua participação.


Com relação ao consumo de energia, em 1998 os combustíveis renováveis representavam 54,1% do total consumido, enquanto que os combustíveis de origem fóssil responderam com 45,9%. Entre os setores consumidores, o de transporte consumiu 35,6%, a indústria 28,2%, o residencial 23,9%, e os outros setores 12,3%. Considerando o consumo por fonte energética, os derivados do petróleo responderam com 41,7% do consumo energético final, seguido pela lenha e o carvão vegetal com 20,9%, o álcool e o bagaço da cana com 19,8%, a eletricidade com 13,4% e, finalmente, o gás natural com 4,2%. O setor de transporte foi responsável por 74,1% do consumo de derivados do petróleo.


A indústria pesada, particularmente a indústria química, foi responsável por 57,1% do gás natural consumido. A participação desse combustível na matriz energética ainda foi bastante pequena, equivalente a 3,8% na oferta e 4,2% no consumo. Seu consumo em 1998 foi desprezível no setor de transporte, representando somente 1,1% do total consumido. Atualmente, o uso veicular representa 5% deste total. A ampliação da oferta de gás natural faz parte da atual política governamental que aponta para uma participação crescente na matriz energética estadual ao longo dos próximos anos.


Quanto à biomassa, a lenha e o carvão vegetal representavam 20,9% do consumo energético final. A participação no setor industrial alcançou 38% do consumo, enquanto que no setor residencial foi consumido, os 62% restante, principalmente a lenha utilizada como combustível para cocção. Em relação ao álcool e ao bagaço de cana a quase totalidade do consumo foi feita pela indústria de alimentos e bebidas.


Mesmo sabendo que não existe energia limpa, e que em maior ou menor grau, todas as fontes de energia provocam danos ambientais, os combustíveis de origem fóssil, como o petróleo e seus derivados, o carvão mineral e o gás natural quando utilizados, liberam gases altamente poluentes (gás carbônico, óxidos de nitrogênio e dióxido de enxofre, entre os principais), sendo os maiores responsáveis pelos impactos ao meio ambiente, colocando em risco a própria sobrevivência da raça humana. Seus efeitos nocivos não se restringem a nível local, mas também possuem efeitos regionais e globais, como é o caso do efeito estufa. O acúmulo de dióxido de carbono (CO2) na atmosfera terrestre tem provocado o aumento da temperatura média da Terra, cujas evidências são irrefutáveis. Portanto, tomando como referência o ciclo do carbono, podemos afirmar que o uso de combustíveis fósseis é insustentável, já que as reservas destes energéticos são finitas e a capacidade do planeta de absorver os resíduos desse processo é limitada.


Considerando a evolução das emissões de dióxido de carbono como um dos indicadores de sustentabilidade energética, a última década revelou um crescimento importante do uso de combustíveis fósseis no Estado. O aumento do volume das emissões de CO2 para a atmosfera, devido principalmente ao consumo do óleo diesel e da gasolina no setor transporte, correspondeu em 1998 a 63,5% (3,6 milhões de toneladas) de todas a emissões ocorridas. A tendência verificada para os próximos anos aponta um incremento ainda maior do volume destas emissões, haja vista a fossilização da matriz energética pernambucana com a introdução do gás natural em larga escala. Levantamentos preliminares indicam que com o início de operação da termelétrica TermoPernambuco, previsto para outubro de 2003, acionada com gás natural, serão emitidas mais 1,8 milhões de toneladas/ano de CO2.


O atual modelo de uso de combustíveis fósseis e de gestão energética utiliza padrões de produção e consumo que agridem o meio ambiente, provoca a redução dos recursos naturais e a massiva extinção de espécies. A introdução do conceito de sustentabilidade energética aponta para o uso cada vez mais crescente de fontes renováveis de energia (biomassa, eólica, solar). E se elas ainda não são economicamente viáveis, deve-se ao fato que no custo dos combustíveis fósseis não está incluído os custos devastadores que o seu consumo impõe à sociedade.

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