"O besteirol energético imperial". Leite, Rogério Cezar de Cerqueira. São Paulo: Folha de São Paulo, 23 de julho de 2001. Em artigo publicado neste espaço (3/6), foi contestado um argumento apre …

"O besteirol energético imperial".

Leite, Rogério Cezar de Cerqueira.


São Paulo:


Folha de São Paulo, 23 de julho de 2001.


Em artigo publicado neste espaço (3/6), foi contestado um argumento apresentado por alguns bajuladores periféricos do imperador, segundo o qual, mesmo que tivesse havido investimentos em hidrelétricas, em nada seria alterada a crise de energia atual, pois esta decorre da redução de chuvas. Naquela oportunidade, foi explicado que esse argumento era tão idiota que seria adotado oficialmente pelo governo.


Pois não é que, apenas 48 horas depois, sua majestade Fernando 2º, com sua habitual eloquência, pessoalmente confirmou em rede nacional o referido argumento. Na primeira contestação foi usado um raciocínio que até economistas entenderiam; agora nossa abordagem estará num nível acessível até a sociólogos.


Consideremos dois casos hiper-simplificados: no primeiro, um reino servido por uma única hidrelétrica; no segundo, um outro reino, em tudo idêntico ao primeiro, exceto pelo fato de que o seu monarca, previdente, investiu na construção de duas usinas, com dois reservatórios, as duas equivalentes, cada uma, àquela do primeiro reino.


Após um longo período de abundância de chuvas, os reservatórios das hidrelétricas estariam, obviamente, repletos. Começa então uma prolongada estiagem: o reservatório da usina do primeiro reino se esvazia completamente; cada um dos dois reservatórios do segundo reino fica pela metade.


Eletricidade e volume de água represada se equivalem. Se os dois reinos gastarem a mesma quantidade de eletricidade, também terão despendido a mesma quantidade de água. É tão simples a conclusão: se no primeiro reino tivesse havido o mesmo investimento do segundo, não teria havido apagão. Será que dessa vez vão entender?


O imperador também menciona, com satisfação e orgulho incontidos, o feito heróico de um cidadão brasiliense que conseguiu economizar tanta energia que, na hora do pagamento, o bônus superou a multa e, em vez de pagamento, houve retorno. Comovida, uma equipe imaginária de reportagem, foi entrevistar o cidadão prestante. "Pois é", explica ele, modestamente, "o esforço foi sobre-humano, desliguei o aquecimento da piscina, não fiz sauna, a alameda e a fonte luminosa do jardim ficaram apagadas e a cascata artificial também foi interrompida. Foi um sacrifício enorme". Tem razão o imperador, tanta renúncia merece a Ordem do Patriarca.


É anunciado por sua majestade imperial, em seguida, em cadeia nacional, um plano de emergência, que engloba investimentos em várias opções energéticas, totalizando US$ 32 bilhões. Um total de 19,9 milhões de kW a serem instalados, sendo 21 usinas hidrelétricas com 7,8 milhões de kW e 15 termelétricas com 6,4 milhões de kW. Nas hidrelétricas, seriam investidos US$ 10,7 bilhões; nas térmicas, US$ 9,7 bilhões. E mais 6.000 km de linha de transmissão a US$ 1,1 bilhão, pequenas hidrelétricas, com 846 mil kW, energia eólica, com 1.000 kW, e 4,4 milhões de kW instalados em termelétricas transportáveis.


Somando todos os valores parciais de potencial teremos 19.907 kW. Sensacional, o governo acertou esse complexo cálculo. Parabéns.


Mas errou no resto. Os US$ 10,7 bilhões de investimentos em hidrelétricas seriam concentrados em Itaipu e Tucuruí, usinas reconhecidamente carentes de turbinas. De fato essas usinas admitiriam um acréscimo de talvez 5 milhões ou 6 milhões de kW. Mas essa opção seria uma asneira digna da imaginação criadora da administração Fernando 2º. A crise atual não é de potência, mas de energia. Maquinar mais Itaipu e Tucuruí serviria apenas para permitir que os respectivos reservatórios se esgotassem mais rapidamente. Deveria haver prioridade para a ampliação do complexo de reservatórios nacionais no centro-sul e consequente aumento de potencial instalado nesses novos reservatórios.


Por outro lado, o governo está sendo imensamente generoso em sua avaliação de custos. Se de fato parcela preponderante de recursos para investimentos destinados a hidreletricidade será direcionado para ampliar o número de turbinas de Itaipu e Tucuruí, então os recursos previstos são excessivos, pois as máquinas e sua instalação são os componentes de custos mais amenos. As barreiras são a parcela dominante dos custos e estão prontas.


Embora não tenham sido divulgados detalhes sobre os investimentos, parece ser impossível despender, nessas circunstâncias, US$ 10,7 bilhões em muita turbina e pouca barragem.


É bom lembrar que valores internacionalmente reconhecidos para os investimentos em usinas hidrelétricas estão entre US$ 1.000 e US$ 1.400 por kW instalado. Como o valor previsto é de US$ 1.376 por kW, há uma certa incompatibilidade com a destinação preferencial para Itaipu e Tucuruí.


Todavia a maior aberração desse projeto está na previsão de investimentos de US$ 9,7 bilhões para 6,4 milhões de kW em termelétricas a gás, que corresponde a US$ 1.500 por kW instalado, duas vezes e meia o valor corrente para essa opção. E o imperador ainda anda dizendo por aí que a oposição é que é pessimista.


Chegamos, assim, à parte mais interessante do programa emergencial. Esse fantástico subprograma de 4 milhões de kW movediços. São sete usinas do porte de Angra 1. Ou, alternativamente, 100 mil geradores de 40 kW transportáveis em caminhões.


A solução lembra um acontecimento ocorrido em um certo país amigo. Uma turbina foi encomendada à Alemanha. Quando a encomenda chegou ao porto do país comprador, percebeu-se que não havia como transportá-la, tão pesada era. Encomendou-se um caminhão gigante. A turbina foi colocada no caminhão que havia sido descarregado no mesmo porto. Mas os eixos do caminhão eram muito longos. Uma equipe ia à frente do caminhão retirando os postes, o caminhão passava e a equipe recolocava os postes.


Ao final de 12 anos, a turbina conseguiu sair de Lisboa.


Rogério Cezar de Cerqueira Leite, 69, físico, é professor emérito da Unicamp e membro do Conselho Editorial da Folha.





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