Pelo estilo do texto percebe-se que a jornalista é novata nos assuntos do setor. Comentários do ILUMINA em vermelho.
JB 11/02/99
Cisão da Cesp gera três novas empresas
Governo de São Paulo anuncia a criação da Companhia Paulista de Transmissão de Energia e das usinas de Paranapanema e Tietê
SANDRA SILVA
SÃO PAULO – O vice-governador Geraldo Alckmin anunciou ontem, no Palácio dos Bandeirantes, que a Companhia Energética de São Paulo (Cesp) será dividida antes do leilão de privatização, previsto para este ano. Com a cisão, surgem três novas empresas: as usinas de Geração da Região do Paranapanema, do Tietê e a Companhia Paulista de Transmissão de Energia Elétrica.
O leilão na Bolsa de Valores de São Paulo (Bovespa) da primeira parte da Cesp, que compreende a região formada pela Usina de Paranapanema, está marcado para o dia 27 de maio. O da usina de grande geração (que é a própria Cesp) deverá ocorrer no dia 9 de junho e o da Usina do Tietê, no dia 16 de junho.
Mas não está descartado o adiamento do leilão. Essa decisão vai depender do comportamento do mercado. Agora, só resta ao governo paulista ficar em compasso de espera. "Se o leilão fosse hoje, acho que não teríamos compradores", reconhece o secretário de Energia do Estado de São Paulo, Mauro Arce. A preocupação do secretário está relacionada à forte valorização do dólar, ocorrida desde a liberação do câmbio, a partir de janeiro.
Com a cisão da Cesp, cada acionista que tiver uma ação da companhia elétrica vai receber quatro papéis, correspondentes a uma ação de cada nova empresa elétrica, em vez de apenas um. Este processo é semelhante ao que ocorreu com a cisão do Sistema Telebrás.
A nova empresa da região da Usina de Paranapanema tem capacidade de geração de 2.600 megaWatts (MW).
Neste grupo estão incluídas as usinas do Rio Jurumirim, Xavantes, Salto Grande, Canoas I e II, Capivara, Taquaruçu e Rosana.
A de Tietê tem capacidade de geração de 2.600 megaWatts e inclui as usinas de Barra Bonita, Barueri, Ibitinga, Promissão e Nova Avanhandava, além de Água Vermelha, Euclides da Cunha e Limoeiro. Apenas a usina (não seria a empresa?) de transmissão de energia não será privatizada, segundo Arce.
O Estado tem, em cada uma das empresas da Cesp, 60% do capital. Outros acionistas majoritários são a Companhia Paulista de Ativos, Nossa Caixa Nosso Banco e o Banespa. Segundo o secretário Arce, o preço mínimo da Cesp está avaliado em R$ 12,6 bilhões no leilão. Neste caso, cada quiloWatt (kW) tem cotação de US$ 1 mil. (O ILUMINA pergunta: Quem consegue construir novas usinas por esse preço?)
Porto Primavera – Foi anunciada ontem também a inauguração das três primeiras turbinas da Usina Hidroelétrica de Porto Primavera, no Pontal do Paranapanema, no interior de São Paulo. O evento ocorrerá no dia 23 de fevereiro, com a presença do presidente Fernando Henrique Cardoso. Para se ter uma idéia da importância da inauguração desse projeto, vale lembrar que a barragem da eclusa de Porto Primavera é a de maior movimento do Brasil.
Alckmin lembra que, desde o início da construção já passaram-se cinco governos estaduais. Os primeiros contratos foram fechados já no ano de 1980.
Segundo Arce, a quarta turbina de Porto Primavera será inaugurada no próximo ano. E, a partir de então, entrará em funcionamento uma nova turbina de 100 megaWatts a cada cinco meses até a inauguração das 18 turbinas.
A estimativa de gastos com a obra é estimada em US$ 10 bilhões. "No início, a previsão era de que seriam gastos em torno de US$ 4 bilhões", lembra Arce.
A energia do novo século
Megaprojeto torna-se realidade, multiplica oferta de gás e muda mercado
CRISTINA BORGES
A história do uso da energia do Brasil e da integração econômica latino-americana começou a ser reescrita na última terça-feira, dia 9. Inaugurado em Corumbá (MS) pelos presidentes Fernando Henrique Cardoso e Hugo Banzer, da Bolívia, o gigantesco Gasoduto Bolívia-Brasil – uma das maiores obras de infra-estrutura já realizadas no país – passou a ligar algumas das maiores jazidas de gás natural da América Latina ao maior mercado industrial e consumidor do continente.
Com 3.150 quilômetros de extensão total, dos quais 2.593 quilômetros em território brasileiro (incluído neste número o trecho Campinas-Porto Alegre, que funcionará até dezembro), o gasoduto representou um investimento de US$ 2 bilhões e uma aposta estratégica do governo e da Petrobras na necessidade e possibilidade de mudança da matriz energética nacional. Com capacidade de fornecimento diário de gás natural de 200 mil barris diários, o gasoduto atravessará, 135 municípios brasileiros e 4.141 propriedades rurais e urbanas.
O uso do gás natural no país, limitado a apenas 2,6% do total de energia consumida, recebe este ano o reforço de um volume diário médio de 2,2 milhões a 3 milhões de metros cúbicos, destinados ao setor industrial, em princípio para o Sudeste, já que o trecho em funcionamento vai da Bolívia a Campinas (SP), passando pelo Mato Grosso do Sul. A intenção do governo é incrementar o consumo do combustível a ponto de que, em 10 anos, o gás natural tenha 10% a 12% da matriz energética brasileira.
Demanda – O interesse no gás natural manifestado pelas empresas em relação ao gás natural, produto que é 12% mais barato se comparado ao óleo combustível, segundo a Petrobras, obrigou à revisão do fornecimento para 2000. Serão mais seis milhões de metros cúbicos por dia com a entrada em operação, no fim deste ano, do segundo trecho do gasoduto, Campinas-Porto Alegre (RS), que corta os estados de São Paulo, Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul. A expectativa inicial era de só atingir a capacidade total de vazão de 30 milhões de metros cúbicos em 2007. Este prazo já foi revisto para 2004 diante da previsão de consumo, informa a Gaspetro, subsidiária da estatal. A participação do gás natural na matriz
energética brasileira, em 2010, é estimada em 12%.
"A redução de prazos para o aumento da oferta de gás natural decorre da revisão de conceito do setor elétrico que, originalmente, não havia aderido ao produto para a geração de energia. O gás natural passou a ser uma alternativa vantajosa pelos menores custos e maior durabilidade dos equipamentos para os geradores de energia", avalia o vice-presidente da Gaspetro, Antônio Luiz de Menezes. O novo cálculo de demanda pelo produto indica um salto de 4,1 milhões de metros cúbicos diários, este ano, para 30 milhões de metros cúbicos a partir de 2005.
Acordos entre os governos dos dois países deram origem ao empreendimento binacional, seguindo-se contratos de fornecimento de gás natural entre as estatais Yacimientos Petrolíferos Fiscales Bolivianos (YPFB) e Petrobras. O novo modelo de parcerias empresariais, fruto do fim do monopólio da União sobre o petróleo, envolve companhias internacionais no capital das duas empresas independentes (uma boliviana, outra brasileira, formadas pelos mesmos sócios) responsáveis pelo transporte. São a Transportadora Brasileira Gasoduto Bolívia-Brasil (TBG), sob o controle acionário da Gaspetro (51%), e a Gas Transboliviano (GTB), controlada pelo fundo de pensão de petroleiros da Bolívia, a anglo-holandesa Shell e a americana Enron. Os demais sócios, com participações diferenciadas nas duas companhias, incluem ainda a australiana Broken
Hill (BHP), a inglesa BBPP British Gas e a El Paso Energy.
Extensão – O gasoduto começa na Bolívia, em Rio Grande, a 40 quilômetros de Santa Cruz de La Sierra, passando por Puerto Suárez, fronteira com o Brasil. Em terras brasileiras, ele ingressa por Corumbá, no Mato Grosso do Sul, estado que atravessa, assim como os demais até finalizar na Refinaria de Canoas (RS). Os investimentos totais somam o equivalente a US$ 2,1 bilhões, sendo 80% de responsabilidade do lado brasileiro e os 20% restantes do parceiro boliviano. O empreendimento conta com financiamentos de organismos multilaterais de crédito e instituições financeiras internacionais, tendo uma participação de US$ 760 milhões do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES).
O primeiro trecho do gasoduto, com extensão de 1,9 mil quilômetros no território brasileiro, responde por 70% dos investimentos programados, destaca o vice-presidente da Gaspetro. A obra em sua totalidade (incluindo o novo trecho de São Paulo ao Rio Grande do Sul) é geradora de 25 mil empregos diretos e indiretos. Em algumas etapas da construção 205 juntas foram soldadas em um só dia, unindo tubos que formam uma gigantesca coluna de 2.460 metros. Ao longo dos 3.150 quilômetros do gasoduto foram utilizadas 540 mil toneladas de tubos de aço carbono, fabricados no Brasil, Japão e Estados Unidos. Na rede fluvial, a tubulação foi instalada em valas de dois metros de largura, numa profundidade que vai de 1,2 a 2,5 metros sob o leito dos rios.