É preciso deixar claro para o consumidor e para o contribuinte que o gás, além de ser mais caro como afirma a reportagem, não é complementar ao parque hídrico brasileiro. Quando estivermos com as usinas a gás funcionando, em muitas ocasiões estaremos vertendo água pelos reservatórios.
JB 09/02/99
Obra tenta mudar mercado energético
Gigantesco gasoduto Bolívia-Brasil, a ser inaugurado hoje, é aposta no potencial de consumo de gás natural da região Sudeste
NELSON SILVEIRA
SÃO PAULO – O Gasoduto Bolívia-Brasil, que será inaugurado hoje pelos presidentes Fernando Henrique Cardoso e Hugo Banzer, em Puerto Suárez, na fronteira entre os dois países, vai alterar a estrutura do mercado de energia no Brasil. Quem garante é Arthur Ramos, diretor da área de energia da consultoria americana AT Kearney. Segundo o especialista, apesar de a mudança cambial prejudicar a competitividade do gás natural (que viu seu preço, dolarizado, subitamente reajustado em mais de 50%), a importância da obra transcende as questões de curto prazo, devido às vantagens ambientais do combustível e seu potencial para criar mercado.
O gasoduto terá inicialmente 3.061 quilômetros, dos quais 2.512 em solo brasileiro. Custou mais de US$ 2 bilhões e ficou pronto em um momento conjunturalmente difícil, quando a atividade industrial passa por forte retração no país.
O gás natural foi apontado durante muitos anos como alternativa para a escassez de energia elétrica no país. Mas, com a recessão, o risco de falta de energia foi afastado e pode até haver excesso de oferta nos próximos anos, com a entrada em operação das usinas hidrelétricas de Porto Primavera, Salto Caxias, Itá e de duas novas turbinas de 700 megawatts, cada, em Itaipu.
Longo prazo – Segundo Ramos, esse risco de demanda estava embutido no projeto. "O investimento em uma obra de infra-estrutura é feito pensando no longo prazo", esclarece. Para ele, quem vai garantir a viabilidade do projeto é o mercado de gás que terá que ser desenvolvido no país.
A situação da economia beneficia hoje os recursos hídricos. O megawatt das usinas hidrelétricas tem um custo de geração na faixa dos US$ 22, enquanto que o megawatt gerado a partir do gás natural sai por US$ 34. Só que a região Sudeste já esgotou seu potencial hídrico para produção de energia, lembra o diretor-presidente da Companhia de Gás de São Paulo (Comgás), Júlio César Lamounier Lapa.
Segundo Lapa, o processo recessivo pode atrasar temporariamente os projetos de usinas termelétricas. Mas, quando o país retomar o crescimento econômico, a demanda vai crescer e o gás surgirá como alternativa viável. Além disso, reforça Lapa, o Estado de São Paulo pode criar pólos de desenvolvimento a partir da oferta dessa nova frente energética.
Leilão – O secretário de energia Mauro Arce acentua que o gasoduto representa um passo importante no aumento da matriz energética brasileira. O gás representa hoje quase 3% da matriz e a previsão é que chegue a 10% em 2010. Segundo Arce, o contrato inicial estabelece uma vazão de 16 milhões de metros cúbicos ao dia, que será absorvida. "Temos 230 novas empresas interessadas em utilizar o gás no Estado de São Paulo", garante.
Outro fator ajuda a acentuar a importância a médio e longo prazo do gasoduto, aponta Arthur Ramos, da AT Kearney. Segundo ele, os contratos iniciais das empresas de energia elétrica privatizadas estabelecem que 100% da demanda serão garantidos nos primeiros quatro a cinco anos pela energia existente hoje. "A partir desse prazo, cada uma negocia como quiser". Assim, amplia-se a oportunidade de desenvolvimento do mercado de gás natural.
É importante levar em conta também que parte dos 30 milhões de metros cúbicos de vazão inicial previstos para o gasoduto Brasil-Bolívia será utilizada na produção de vapor para uso industrial. Nesse caso, o gás é mais competitivo, já que há uma regra estabelecida pelo governo que fixa seu preço em 75% do valor do óleo combustível.
Para a Comgás, a entrada em atividade do gasoduto tem um motivo a mais para comemorações. Ele deve alavancar o valor da empresa no leilão de privatização, previsto para abril próximo na Bolsa de Valores do Estado de São Paulo.
Victer quer atrair duas plataformas
ANDRÉA ROSA
O secretário estadual de Energia, Indústria Naval e Petróleo, Wagner Victer, quer que o Rio de Janeiro sedie a construção de duas plataformas de perfuração para a Petrobras, na Bacia de Campos. Segundo o secretário, as plataformas Ametista I e II seriam construídas no estaleiro canadense Davie, que faliu.
No Rio, as unidades devem ser construídas pela Marítima e pela holding que controla o estaleiro Mauá, em Niterói. De acordo com o secretário só a construção naval das duas plataformas vai consumir um investimento de US$ 180 milhões.
Victer já entrou em contato com o presidente da Petrobras, Joel Rennó, e está aguardando resposta esta semana. As duas plataformas podem gerar 2 mil empregos diretos e em troca o governo do estado reduziria o ICMS de alguns insumos.
O presidente da Marítima, German Efromovich, se mostrou aberto à negociação e disse que, assim como o estaleiro Mauá, o Eisa também teria condições de construir as plataformas.
O presidente do estaleiro Mauá, Omar Peres, acredita que o Brasil – o Rio de Janeiro, em particular -, tem todas as condições necessárias para retomar o desenvolvimento da indústria naval.