Reajuste de energia para indústria está em estudo
O governo federal poderá reequilibrar a estrutura tarifária hoje vigente no setor elétrico, por meio de cobrança maior para as indústrias, que atualmente pagam menos que os consumidores residenciais. O presidente da Eletrobrás, Cláudio Ávila da Silva, defende a quebra dos subsídios que beneficiam grandes consumidores como shoppings e indústrias. "Acho que há determinados incentivos para o setor industrial que precisam ser revistos", disse Ávila, que sugere a implementação de uma nova estrutura capaz de incentivar o que ele classifica de "substituição de consumo". Segundo o executivo, na prática a política tarifária precisa servir de incentivo para a auto-suficiência energética de indústrias e grandes consumidores comerciais. ‘Quem precisa de mais (energia), que faça mais auto-produção, e que esse custo de investimento na auto-produção seja rentável pela diminuição, no longo prazo, do pagamento da energia. Com isso, seria possível deixar para consumidores residenciais, e com menor capacidade de auto-investimento em energia, um espaço maior para fornecimento’, disse Àvila. (Gazeta Mercantil – 18.08.2001)
A Descontratação . O filme .
Ivo Augusto de Abreu Pugnaloni,
As declarações de gente do Governo , propondo o aumento das tarifas industriais ,sugerem que , confirme previmos , o corte de investimentos no setor elétrico a partir de 1990 não tenha sido um descuido, um esquecimento , mas sim cuidadosa manobra para , intencionalmente , provocar escassez e aumentar lucros da distribuição. O fim dos contratos iniciais a partir do próximo ano ( descontratação) é a próxima etapa , mas ninguém está falando nisso. Assim , quando a industria e o comercio acordarem , não haverá tempo para alternativas de compra e autoprodução de energia e estarão todos na mão das distribuidoras locais , pois a outra alternativa será a loucura dos preços do MAE. Alternativas há , mas a maioria dos consumidores industriais não conhecem seus direitos e pensam que o Governo não fará essas maldades com êles.
O governo , por seu lado , sabe que a elevação de tarifas do lado residencial seria um desastre : já pagamos mais caro do que Paris, Londres,Lisboa,Roma e qualquer cidade norte-americana exceto Nova Iorque. Assim , a bola da vez será a industria , que será apresentada aos consumidores como a grande vilã , aqela "que tem subsídios injustos" , que "consome muito e paga pouco" ,como já estão insinuando os artífices do apagão. É lógico que os "magos da escassez" não irão dizer uma palavra sobre as razões pelas quais , em todo o mundo , as tarifas industriais são cerca de 50 % mais baratas que as residenciais ; ou seja , pelas mesmas razões pelas quais comprar qualquer coisa no atacado é mais barato que no varejo : menos gasto para produzir ,transformar , vender , transportar e cobrar. Se o "quantum"desta diferença está muito elevado , vale a pena lembrar que foram Collor e FHC que , a partir de 1990 elevaram esta relação dos antigos 120 % para 240 %.Tudo para tornar mais apetitoso o pitéu da privatização das distribuidoras.
Elevando agora as tarifas industriais, o Governo FHC pensa ganhar duas vezes:
1)posará de justiceiro em ano eleitoral , arrumando um novo culpado pela crise energética : a industria ;
2) conseguirá aumentar as tarifas das distribuidoras , verdadeira obsessão desse pessoal ;
Mas o melhor mesmo é que com esse aumento de tarifas o governo diminuirá a competitividade externa e interna das nossas industrias , exigência do FMI e da industria americana para aceitar o Brasil na ALCA. Ou será que eles iriam deixar nossos menores custos de produção de energia e mão-de-obra atrapalharem sua posição no mercado e seus planos de "argentinizar" o Brasil ? É preciso reconhecer : a estratégia energética do governo FHC foi bem planejada. Deixaram de investir no setor elétrico e colocaram o dinheiro no PROER , para recuperar bancos falidos com dinheiro público. Depois , puxaram as tarifas residenciais do Brasil a patamares elevadíssimos , perdendo somente para as de Nova Iorque. . Agora , com caras de santo do pau-ôco dizem : "Ahh! A culpa é dessas tarifas industriais que são muito baixas ! É preciso acabar com esta pouca-vergonha e aumentar as tarifas industriais ! Isso é uma injustiça com o nosso povo sofrido !" Passadas as eleições , mantido o fantasma do apagão , eles vão , aos pouquinhos, subir , de novo, as tarifas residenciais. As pessoas , a indústria e o comercio , grande parte da imprensa , na sua boa fé , querendo de coração acreditar na utopia do livre-mercado , não deram atenção quando , com dados técnicos na mão , alertávamos para o pior . E o pior aconteceu.
Na época , a unanimidade pró-privatização era usada como um tipo de droga alucinógena ,que fazia pessoas tidas como inteligentes pararem de pensar com seus próprios miolos e acreditarem em contos da carochinha contados por fadas e duendes com interesses particulares em venderem tudo que fosse público , pelo preço mais baixo e o quanto antes possível. Ano que vem começa a Descontratação .Guardem esse nome. Perto dela , tudo foi "trailler". O filme vai começar em 2002. Findos os contratos à razão de 25 % por ano ,a busca por energia que não existe vai fazer os preços irem às nuvens. Empresas que não se precaverem com geração própria definitiva a custo baixo terão seus custos de produção bastante alterados para mais , perdendo competitividade e mercado. Por conta disso , o desemprego irá aumentar e a atividade econômica geral também. É triste mas é real.
Basta juntar os fatos.Parece conspiração de filme de ficção científica mas foi exatamente assim que aconteceu na California , no Brasil e na Espanha, um dos tres países com setor elétrico totalmente privatizado no mundo.(os outros são o Japão e a Inglaterra ) Quem vai com o dinheiro ? Primeiro os políticos que viabilizarem a venda de estatais . Segundo os políticos que, além disso ,através de amigos , comprarem empresas de intermediação da venda de energia e ganharem 2,5 % dos contratos que tiverem de ser renegociados. Quem vai perder ? Quem , mesmo vendo o filme e leendo o livro , continuar achando que a realidade é ficção.
Ivo Augusto de Abreu Pugnaloni, engenheiro eletricista, diretor do ILUMINA – Paraná e consultor em energia pugnalonfinn@onda.com.br