Reunião Anual da SBPC discute Angra


Reunião Anual da SBPC


Angra III: energia desperdiçada?



Não há consenso sobre a viabilidade de concluir Angra III. Mas o país gasta US$ 20 milhões ao ano para manter equipamentos.



A usina nuclear de Angra III dá prejuízo anual para o país de US$ 20 milhões de dólares. E sequer funciona. Sua irmã mais nova, Angra II, levou 25 anos para ficar pronta e consumiu US$ 7 bilhões.


Angra I, por sua vez, levou 24 anos para ser concluída e já opera há 20 anos. Enquanto ainda o país debate a viabilidade de concluir ou não Angra III, o que tomaria mais US$ 1,8 bilhão, alguns grandes usuários e produtores de energia elétrica com base nuclear do mundo começam a desativar suas usinas – processo caríssimo e lento –, como é o caso dos EUA, país que tem 103 unidades em funcionamento, 23 fechadas e que inaugurou seu último reator em 1993.


A polêmica discussão sobre esses números e o programa nuclear brasileiro aconteceu na tarde de quinta-feira, 21 de julho, em palestra pela da 57ª Reunião Anual da SBPC, na Universidade Estadual do Ceará.


De um lado, contrário à conclusão da obra, os pesquisadores do Instituto de Física da Universidade UFRJ e da USP, Fernando de Souza Barros e Emico Okuno, respectivamente, e de outro, favorável, o diretor de Pesquisa e Desenvolvimento da Comissão Nacional de Energia Nuclear (CNEN), Alfredo Tranjan.


O debate foi acalorado e, ao final, as posições foram mantidas. A platéia, de forma geral, optou pela posição contrária à construção.


Emico mostrou que a geração de energia elétrica por meio de usinas nucleares traz mais problemas do que soluções porque a vida útil dos reatores, apesar de já ter aumentado de 40 para cerca de 60 anos, é curta e ainda não se sabe o que fazer com os rejeitos.


“Nenhum país no mundo sabe que fim dar aos dejetos radioativos. Já se cogitou até mandar isso para o Sol ou a Lua”, revela. Segundo estimativas feitas pela pesquisadora, o descomissionamento – desativação das usinas – leva mais de 60 anos e toma cerca de US$ 1 bilhão por reator.


No total, o terreno onde se constrói uma usina só volta a ficar disponível para uso público 110 anos depois do fechamento da unidade. “Leva-se, em média, 10 anos para construir. Se a vida útil for de 40 anos e mais 60 para descomissionar, chega-se a esse absurdo tempo para o reuso”, explica.


Para exemplificar a extensão dos custos, ela apresentou o caso da usina Maine Yankee Plant, que funcionou no estado do Maine (EUA) por 24 anos, entre 1972 e 1996.


Produziu 105 milhões de quilos de rejeitos, dos quais 70 milhões eram de concreto contaminado pela radiação. A construção levou 10 anos e custou US$ 231 milhões. O descomissionamento, por sua vez, custou US$ 635 milhões.



Alternativas


Os EUA desenvolvem projeto chamado de Yucca Mountain, no Deserto de Nevada, que será o local para guardar esses rejeitos por 10 mil anos. A obra começou em 2002 e tem previsão de conclusão para 2010, a um custo de US$ 60 bilhões.


“Só para definir o local, levaram-se 20 anos de estudo e US$ 4 bilhões de investimento”, comenta.


Também contrário à idéia de concluir a obra, o professor do Instituto de Física da UFRJ Fernando de Souza Barros, aposta em outros tipos de geração de energia como alternativas à usina, como a energia eólica (do vento). O professor afirma que técnica e economicamente a obra não é viável.


“Além disso, os reatores nucleares de grande porte não permitem ajustes de demanda. Se ela aumentar, os equipamentos não serão mais suficientes”, analisa.


A geração de energia das unidades nucleares, no entanto, é impressionante. Angra I tem capacidade para produzir pouco mais de 600 MW (megawatts), enquanto Angra II, aproximadamente 1,3 mil MW (Angra III deve produzir a mesma quantidade). Mas nenhuma das duas está operando a todo ‘vapor´ atualmente.


Se estivessem, seriam capazes de manter os estados do Rio de Janeiro e do Espírito Santo iluminados em caso de colapso na transmissão de outros tipos de energia.


Mas Itaipu, a maior usina hidrelétrica do Brasil, por exemplo, ainda segue bem à frente, com capacidade de gerar 12,6 mil MW – o equivalente ao consumo anual do estado de São Paulo.


Alfredo Tranjan defende que a energia nuclear é a mais segura e a de menor impacto ambiental, principalmente se comparada à hidrelétrica, que precisa inundar grandes áreas para a formação de lagos.



Em Tucuruí (PA), os problemas pela produção de gás metano das árvores inundadas perduram e ainda não há solução para a questão. Além disso, o diretor do CNEN justifica a conclusão da obra pela necessidade de capacitar pessoal.


“A idade média dos nossos especialistas é de 50 anos e a construção de Angra III retomaria o treinamento e formação de recursos humanos para o setor”, garante.


Convicto de que a obra é necessária, Tranjan conta que, quando o presidente Luiz Inácio Lula da Silva visitou a China em 2004, recebeu a proposta de cooperação na área nuclear. Sem conhecer o assunto, consultou a comitiva e ouviu a resposta: “Não temos programa nuclear”.


O presidente, então, encomendou à comissão um estudo sobre o assunto. Foram desenhados três cenários e o mais ambicioso prevê investimento de US$ 10,6 bilhões por ano até 2022, o que levaria à produção de 5,7% da energia elétrica consumida no país.


“Se isso acontecer, estaremos em uma situação privilegiada de exportadores de produtos do ciclo do combustível nuclear e seremos auto-suficientes, com pequena dependência tecnológica na área”, explica Tranjan.


No entanto, o presidente ainda não tomou uma decisão sobre o assunto e a cisão na discussão entre os especialistas deixa claro que o assunto precisa passar, antes de qualquer decisão, pelo crivo da sociedade brasileira.



História começou na década de 70


Em 1972, por meio de um acordo com os EUA, o Brasil adquiriu um reator de potência a urânio enriquecido, que se constituiu na primeira unidade da Central Nuclear Almirante Álvaro Alberto (Angra I). A construção da unidade começou em 1971, sendo finalizada somente em 1985.


Em 1975, já com a preocupação de desenvolver tecnologia 100% nacional, o governo, em face da demanda energética, firmou parceria com a Alemanha buscando não só a construção de oito usinas nucleares, mas também a transferência da tecnologia completa do ciclo do combustível nuclear e de projeto, engenharia e fabricação de componentes de centrais nucleares.


O programa sofreu grandes atrasos, o que impediu que se atingissem as metas originalmente desenhadas.


(UnB Agência)



André Augusto Castro e Diego Amorim para a “UnB Agência”

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