Sítios arqueológicos estão ameaçados
Áreas onde guaranis viveram no Estado serão inundadas pela hidrelétrica de
Machadinho
ADREANE BECKER
Casa Zero Hora/Passo Fundo
Segredos do passado vão sumir nas águas da usina hidrelétrica de
Machadinho, na divisa do Rio Grande do Sul com Santa Catarina, se os sítios
arqueológicos da região não forem resgatados. Na localidade de Linha
Coqueiro, interior de Machadinho, os agricultores Anildo Vitório Vegher, 53
anos, e Lucídio Polo, 38, apaixonados por arqueologia, escavaram o solo por
conta própria e coletaram centenas de peças de cerâmica. A atividade, no
entanto, só poderia ser realizada por especialistas.
O interesse dos agricultores por arqueologia começou em 1989, quando
Vegher serviu de guia para o professor Guilherme Naue, na época coordenador
do Centro de Estudos e Pesquisas Arqueológicas (Cepa) da Pontifícia
Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS). Vegher convidou Polo
para ajudá-lo e os dois se passaram a procurar as peças. Arrendaram dois
hectares até 2002. Passavam os dias escavando com uma pá e uma colher de
pedreiro. As peças eram cuidadosamente separadas de acordo com o local em
que foram achadas.
Trabalhamos por conta própria, para que a água não cubra a
história e as pessoas fiquem sem informações sobre os índios que viveram
aqui salienta Vegher.
Ele teme que os arqueólogos da PUC não tenham tempo de recolher o
material antes que a barragem inunde o local. O trabalho de Vegher e Polo,
porém, descaracteriza os sítios arqueológicos. Segundo a arqueóloga Gislene
Monticelli, do Cepa, existem técnicas para as escavações que os agricultores
desconhecem.
O local dos sítios arqueológicos deve ser fotografado e medido, ou
as informações se perdem. Os restos de carvão vão para os Estados Unidos,
onde laboratórios definem a data em que os índios viveram assegura
Gislene.
Os pesquisadores empíricos pararam o trabalho depois que um
representante do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional
(Iphan) explicou que a coleta das peças requer técnica. Depois de recolhido,
o material é analisado e classificado em laboratórios.
Na quinta-feira, a Polícia Federal (PF) apreendeu as cerâmicas
recolhidas pelos agricultores, que foram intimados a depor. A Procuradoria
da República pediu à PF a abertura de inquérito policial para apurar
responsabilidades. Segundo o procurador Luciano Feldens, os danos ao
patrimônio arqueológico têm implicação civil e penal. Feldens talvez
proponha uma ação civil pública contra os danificadores do patrimônio.
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Sítios arqueológicos estão ameaçados
Apenas a PUC pode pesquisar na região
Arqueólogos do Cepa da PUC estudam os fósseis de Machadinho. Os
pesquisadores têm a missão de resgatar os sítios arqueológicos que serão
inundados pela barragem. De 15 de outubro de 1997 a 22 de fevereiro de 1998,
uma equipe chefiada por Gislene Monticelli escavou nas margens do Rio
Pelotas e recolheu fragmentos de cerâmicas, pedras trabalhadas, lascas,
machados de pedra, restos de carvão e urnas funerárias. O material comprova
que guaranis viveram na região.
Gislene explica que somente a PUC tem autorização do Iphan e
recursos para pesquisar na região. A arqueóloga conta que sua equipe não
concluiu os trabalhos porque a área a ser inundada ainda não foi indenizada
e alguns proprietários não permitiram a escavação. O material é um bem da
União, portanto, não pertence aos donos das terras. Dentro de um mês, a
equipe da universidade deverá retornar à região para seguir a pesquisa.
Os sítios existentes nas áreas que serão inundadas primeiro já
salvamos conta Gislene.
A antropóloga reafirma que o objetivo da pesquisa é resgatar
informações sobre o modo de vida dos índios e não apenas colecionar
material. Conforme Gislene, o ideal seria que, depois de analisado, o
material fosse para museus regionais e municipais. Assim as pessoas da
região poderiam conhecer sua história.