Sugerimos aos astutos integrantes do CND atualizar monetáriamente suas declarações ou anunciar a insensatez da venda das geradoras em US$. Mesmo assim essas empresas continuam sendo o melhor presente ao setor privado.
Globo 1/2/99
Privatização das geradoras de energia só deverá ocorrer no segundo semestre
Roberto Cordeiro
BRASÍLIA. O Governo decidiu privatizar as seis geradoras de energia elétrica federais – que somam R$ 28,2 bilhões em ativos – apenas no segundo semestre deste ano, para ganhar tempo até que o real se recupere frente ao dólar e as estatais se valorizem. O cronograma estipulado pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), no ano passado, previa que a venda do Sistema Eletrobrás começaria no primeiro trimestre de 1999. Mas se os leilões fossem realizados hoje, os investidores estrangeiros precisariam de menos dólares para comprar as estatais brasileiras, que são avaliadas em moeda nacional.
– Não vamos entregar esse patrimônio por qualquer preço. O Governo vai conciliar o momento atual às metas assumidas com o Fundo Monetário Internacional, de conseguir R$ 20 bilhões com a venda de estatais este ano – diz um integrante do Conselho Nacional de Desestatização (CND).
Para vender as geradoras federais até março, o CND deveria ter aprovado o modelo de cisão de Furnas, Chesf e Eletronorte, no fim de 98. No entanto, só na semana passada, foi dado o sinal verde para a operação. Serão necessários quatro meses para realizar as assembléias de acionistas que aprovarão a decisão.
Enquanto a cisão das empresas federais não ocorre, o Governo de São Paulo prepara a venda de suas três geradoras. O secretário Energia de São Paulo, Mauro Arce, anuncia que, em maio, levará à leilão a Companhia Energética de São Paulo (Cesp), que tem capacidade instalada de 7.500 megawatts. O secretário espera vender em junho as outras duas geradoras: Tietê e Paranapanema.
O secretário diz que os ativos das companhias estão avaliados em R$ 20 bilhões, mas a expectativa é de arrecadar cerca de R$ 6 bilhões com os leilões, incluindo a participação do estado e excluindo as dívidas das empresas.
– Se o leilão fosse hoje, não apareceria ninguém. Temos investidores interessados nas empresas, mas o ideal é que o mercado se acalme – diz Arce, que pretende vender a Comgás antes das elétricas.
O Governo federal também vai rever a transferência de rodovias federais para grupos privados. O ministro dos Transportes, Eliseu Padilha, tinha planos de repassar 15 mil quilômetros, mas técnicos do ministério acham que não haverá interessados para dez mil quilômetros de estradas. Por esse motivo, a União continuará responsável, por exemplo, por rodovias que cortam as regiões Centro-Oeste, Norte e Nordeste.
Para a manutenção desses trechos, Padilha acredita que a solução virá da criação do Imposto Verde, no qual parte da receita se destinaria à recuperação da malha rodoviária brasileira. Mas o ministério pode ser beneficiado com a crise cambial, já que tem linha de crédito de US$ 1 bilhão do BID e do Bird. O dinheiro vai para obras em rodovias do Sudeste, que foram contratadas em reais. Por isso, o ministério analisa a possibilidade de usar o excedente em outras estradas.
O BNDES também vai esperar a estabilização do mercado para leiloar três blocos de ações, que tiveram a venda aprovada pelo CND em 98. O banco vai ofertar papéis da Light e da Companhia Vale do Rio Doce (CVRD), além da parte que excede o controle acionário da Petrobras.
Só a licitação das empresas-espelho foi mantida. A Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel) espera receber, nesta sexta-feira, as propostas das empresas que vão competir com a Telefônica (ex-Telesp) e a Tele Centro Sul. As garantias financeiras, de R$ 120 milhões, serão entregues na quinta-feira. A abertura dos envelopes com metas de atendimento e oferta de preço está prevista para 11 de março, na Bolsa de Valores do Rio.