O GLOBO 01.01.98
Márcio Moreira Alves
alves@rudah.com.br
Previsão negra
Fazer previsões no primeiro dia do ano é uma tradicional atividade dos futurólogos. Nós, jornalistas, tratamos de recolhê-las e publicá-las, sabendo perfeitamente que ninguém vai cobrar-nos os erros no dia de São Silvestre seguinte. As previsões corretas, quando há, são relembradas pelos autores e não temos de nos preocupar com elas. Como toda araruta tem o seu dia de mingau, acho que também tenho o direito de entrar no jogo.
Antes de contar a minha previsão pessimista, relembro um acidente, ocorrido em Goiânia há dez anos. Um catador de papel entrou numa clínica radiológica desativada e de lá retirou, entre as sucatas, uma fonte de Césio 137. A bela luminosidade azulada do pozinho contido na fonte encantou o catador de papel, sua mulher e filhos. Desenharam figuras fosforescentes nos próprios corpos. Resultado imediato: quatro mortos nos primeiros dias, além de câncer, leucemia e traumas em dezenas de pessoas.
Relembro a história por achar que corremos risco de vermos repetido, em escala milhares de vezes maior, o acidente nuclear de Goiânia. Desta vez, será na usina Angra I, que fica entre as duas megalópoles do país.
A história: o pacote de novembro não poupou a Nuclen, agora responsável direta pela operação, manutenção e segurança da usina nuclear de Angra I, que até junho era de responsabilidade de Furnas, que será privatizada.
A 10 de novembro, a Advocacia Geral da União proibiu os funcionários aposentados pelo INSS de continuarem a prestar serviços a Furnas, sob contrato de trabalho. A decisão foi tomada em Brasília, sem que ninguém se preocupasse se os funcionários despedidos eram ou não indispensáveis. Seriam cortados 1.453 funcionários, assim distribuídos:
1. Cinqüenta e um funcionários que pertenciam aos quadros de Furnas e estavam emprestados à Nuclen, por serem indispensáveis à operação de Angra I, seja em atividades administrativas, seja em atividades de guarda, segurança física e controle de exposição a radiações;
2. Cento e noventa funcionários da Nuclen que passaram por Furnas, mas já tinham sido devolvidos;
3. Os demais pertenciam a diversos setores técnicos e administrativos de Furnas, seja nos escritórios da empresa, seja na operação das hidrelétricas espalhadas na Região Centro-Sul. A ausência de critério chegou ao ponto de deixar a hidrelétrica de Porto Colômbia, em Minas, sem um único empregado para fazê-la funcionar.
O presidente de Furnas, Luís Laércio, técnico de carreira, resistiu à insanidade tecnocrática. Mostrou às autoridades brasilienses que o fornecimento de energia elétrica da mais rica região do país estava em risco e conservou a sua gente. Já o presidente da Nuclen, que é uma nomeação política, um ex-prefeito biônico de Niterói da época da ditadura, não quis se indispor com os seus superiores e cumpriu as ordens.
Resultado provisório: 15 funcionários do primeiro grupo de 51, ligados diretamente à operação de Angra I, tiveram de ser recontratados, a custos muito maiores para o Governo, através da prestadora de serviços CTM, que também recontratou 62 funcionários do grupo de 192 originariamente pertencentes à Nuclen.
O lado operacional: graves falhas têm aparecido nos elementos combustíveis fabricados pela Siemens, em substituição à Westinghouse, proibida pelo Governo americano de fornecer recargas à usina que construiu, por não ter o Brasil assinado o Tratado de Não Proliferação Nuclear.
Na primeira recarga, de 30% do combustível, não aconteceu nada. Na segunda recarga, realizada entre janeiro de 1990 e agosto de 1991, surgiram falhas e oito varetas vazaram em conseqüência de atritos com os suportes, contaminando com isótopos radioativos a água do circuito primário do reator. Essa água vai para o gerador de vapor, por cujos tubos circula água que tem contato com o meio ambiente, o que gera riscos.
A usina teve de ter a sua parada antecipada para março de 1993 e só voltou a operar em dezembro de 1994. A Siemens refez o projeto para a recarga seguinte mas os problemas continuaram. Outras varetas vazaram e a usina ficou parada mais tempo que o previsto, só voltando a funcionar agora, a 3 de dezembro, assim mesmo em condições precárias, reutilizando uma carga da Westinghouse já irradiada, que estava armazenada na piscina de rejeitos de alta radioatividade. Esse elementos só poderão ser utilizados por mais 80 dias, sob risco de novos e maiores vazamentos.
Ao fim de cada recarga formam-se 50 quilos de plutônio 239, oito vezes mais que o utilizado na bomba de Nagasaki, e Césio 137, suficiente para contaminar a América do Sul inteira. O risco de sistemas mecânicos bem operados é pequeno. O risco de falhas humanas provocadas por funcionários inseguros e mal pagos é grande.
Ninguém parece preocupar-se com isto.