À luz do dia
Leiam com calma o artigo de Paul Krugman sobre os recém revelados escândalos da Califórnia e reflitam sobre a semelhança com o nosso caso. Vejam o nome das empresas citadas. São as mesmas que estão presentes no Brasil. Não queremos acusar ninguém a priori, mas, que diabos, esses fatos nos dão o direito de nos perguntar aqui com nossos botões: "Se isso aconteceu lá nos Estados Unidos, com a poderosa e equipadaF ederal E nergy R egulatory C omission, o que poderia acontecer aqui com a nossa frágil e desequipada ANEEL?" E qual seria a semelhança? Bem, lá descobriram que os apagões e a disparada de preços foram causados principalmente por ações deliberadas de manipulação da oferta por parte dos agentes.Ou seja, na hora da ponta, onde estavam as usinas ? Aqui ocorreu o maior racionamento já registrado em tempos de paz e queriam nos convencer que a culpa era de S. Pedro. Felizmente, o relatório do Dr. Jerson Kelman reestabeleceu a verdade e reformulou a questão: Na hora da pouca chuva, onde estavam as usinas? Reparem a semelhança. Dirão que tinham contratos. Mas os contratos estavam desacreditados pelo ONS, que no fundo são eles mesmo. Dirão que não tinham obrigação de investir em geração. Mas o modelo do governo pressupunha que a responsabilidade pelo suprimento da demanda era responsabilidade difusa entre geradores e distribuidores. Outras semelhanças mortram que o que ocorreu depois, foi feito à luz do dia apesar da óbvia ilegalidade. A promiscuidade e o grau de captura dos reguladores foi a mesma ou mais vergonhosa. E o pior é que, tal como lá "tudo indica que as coisas continuarão correndo desse modo".
In Broad Daylight
By PAUL KRUGMAN
You are one of only a handful of major players selling wholesale electricity. Surely the thought has to occur to you: what would happen to prices if one of my plants just happened to go off line? And when companies act on that thought . . . well, you get the picture."
I wrote that in March 2001, when the California electricity crisis was at its height. Even then the experts I talked to – economists who followed the situation closely, and kept an open mind – believed that energy companies were deliberately creating shortages. But only in the last few weeks, with a series of damning reports and judgments, has conventional wisdom grudgingly accepted the obvious.
And that’s the real mystery of the California crisis: how could a $30 billion robbery take place in broad daylight?
True, it was always hard to pin down specific acts of market manipulation. Stanford’s Frank Wolak likens energy companies to an employee who keeps calling in sick: the pattern is clear, but unless you catch him faking an ailment, it’s hard to prove that he is malingering.
But the evidence is starting to pile up. First there were those Enron memos. Then the California Public Utilities Commission determined that most of the blackouts that afflicted California between November 2000 and May 2001 took place not because generating capacity was inadequate, but because the major power companies kept much of their capacity off line. Most recently, a judge for the Federal Energy Regulatory Commission has ruled that El Paso Corporation used its control over a key pipeline to create an artificial natural gas shortage.
But why did energy companies think they could get away with it?
One answer might be that the apparent malefactors are very big contributors to the Republican Party. Some analysts have suggested that energy companies felt free to manipulate markets because they believed they had bought protection from federal regulation – the conspiracy-minded point out that severe power shortages began just after the 2000 election, and ended when Democrats gained control of the Senate.
Federal regulators certainly seemed determined to see and hear no evil, and above all not to reveal evidence of evil to state officials. A previous FERC ruling on El Paso was, in the view of many observers, a whitewash. In another case, AES/Williams was accused of shutting down generating units, forcing the power system to buy power at vastly higher prices from other units of the same company. In April 2001, FERC and Williams reached a settlement in which the company repaid the extra profits, but paid no penalty – and FERC sealed the evidence. Last week CBS News reported that "federal regulators have power control room audiotapes that prove traders from Williams Energy called plant operators and told them to turn off the juice. The government sealed the tapes in a secret settlement" – the same settlement? – "and still refuses to release them."
If that’s true, FERC caught at least one power company red-handed, in the middle of the crisis, at a time when state officials were begging the agency to take action – and then suppressed the evidence. Yet this story has received little national play.
For some reason it has never been cool to talk about what was really happening in California. When the crisis was in full swing, most commentators clung to a story line that blamed meddlesome bureaucrats, not profiteering corporations. When the crisis came to an end, it suddenly became old news.
Maybe our national faith in free markets is so strong that people just don’t want to talk about a case in which markets went spectacularly bad. But I’m still puzzled by the lack of attention, not just to the disaster, but to hints of a cover-up. After all, this was the most spectacular abuse of market power since the days of the robber barons – and the feds did nothing to stop it.
And if FERC was strangely ineffective during the California crisis, what can we expect from other agencies? Across the government, from the Interior Department and the Forest Service to the Environmental Protection Agency, former lobbyists for the regulated industries now hold key positions – and they show little inclination to make trouble for their once and future employers.
So we ignore California’s experience at our peril. It’s all too likely to be the shape of things to come.
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Um escândalo energético (Tradução do Estado de São Paulo)
PAUL KRUGMAN
The New York Times
"Você é um dos poucos participantes importantes do mercado atacadista de venda de eletricidade. Sem dúvida, este pensamento já passou pela sua cabeça: o que aconteceria com os preços se uma das minhas usinas por acaso parasse? E quando as empresas agem com esse raciocínio… Bem, você sabe o que acontece."
Eu escrevi isso em março de 2001, quando a crise de eletricidade da Califórnia estava no auge. Na ocasião, os especialistas com quem conversei – economistas que acompanhavam de perto a situação e mantinham a mente aberta – acreditavam que as companhias energéticas estavam reduzindo o fornecimento deliberadamente. Mas só nas últimas semanas, após uma série de execráveis relatórios e julgamentos, as pessoas, a contragosto, aceitaram o óbvio.
E esse é o verdadeiro mistério da crise da Califórnia: como um roubo de US$ 30 bilhões pôde ocorrer à luz do dia?
Tudo bem, sempre foi difícil esclarecer atos específicos de manipulação de mercado. Frank Wolak, da Universidade de Stanford, associa o caso das empresas energéticas à história do empregado que sempre diz estar doente. É fingimento, mas a menos que você o pegue em flagrante fingindo estar doente, será difícil provar que ele não tinha um problema de saúde.
Mas as provas estão começando a se acumular. Primeiro, foram aqueles memorandos da Enron . Depois, o Comitê de Serviços Públicos da Califórnia concluiu que a maioria dos apagões que afligiram aquele Estado entre novembro de 2000 e maio de 2001 ocorreu não porque a capacidade de geração fosse inadequada, mas porque as principais companhias de eletricidade mantiveram ociosa a maior parte de sua capacidade. Mais recentemente, um juiz do Comitê Federal Regulamentador de Energia (Ferc, da sigla em inglês) concluiu que a empresa El Paso usou seu controle sobre um gasoduto-chave para criar uma escassez artificial de gás natural.
Mas por que as energéticas achavam que poderiam levar isso em frente?
Uma resposta pode ser que os aparentes malfeitores são importantíssimos financiadores das campanhas do Partido Republicano. Alguns analistas sugeriram que as empresas de energia sentiam-se à vontade para manipular os mercados por acreditarem que haviam comprado proteção dos órgãos regulamentadores federais – e os que vêem conspirações em tudo assinalam que os cortes mais sérios de eletricidade começaram exatamente após a eleição de 2000 e terminaram quando os democratas ganharam o controle do Senado.
As agências federais certamente pareciam determinadas a não ver nem ouvir nada de ruim, e acima de tudo não revelar provas de coisas ruins às autoridades estaduais.
Uma decisão anterior do Ferc a respeito da El Paso foi, na opinião de muitos observadores, só de fachada. Em outro caso a AES/Williams foi acusada de fechar unidades geradoras, forçando o sistema de distribuição a comprar energia a preços incrivelmente mais altos de outras unidades da mesma empresa. Em abril de 2001, o Ferc e a Williams chegaram a um acordo pelo qual a empresa devolveu os lucros extraordinários, mas não pagou nenhuma multa – e o Ferc arquivou a prova.
Na semana passada, o programa CBS News informou que "os regulamentadores federais conseguiram gravações provando que operadores da Williams Energy ligaram para os operadores das usinas e lhes disseram para ‘baixar a bola’.
O governo arquivou as fitas, como parte de um acordo secreto" – seria o mesmo acordo? – "e ainda se recusa a liberá-las". Se isso for verdade, o Ferc pegou pelo menos uma empresa em flagrante, no meio da crise, num momento em que as autoridades estaduais imploravam à agência para que tomasse providências. E em seguida, arquivou a prova.
E esta história recebeu pouca atenção do país. Por algum motivo, nunca foi moda falar sobre o que realmente estava acontecendo na Califórnia. Quando a crise estava no auge, a maioria dos comentaristas se ocupava de matérias que culpavam os burocratas bisbilhoteiros, e não as corporações que aumentavam seus lucros. Quando a crise terminou, tudo isso de repente virou notícia velha.
Talvez a nossa fé nos livres mercados seja tão forte que as pessoas nem gostem de mencionar um caso em que os mercados agiram espetacularmente mal.
Mas ainda estou surpreso com a falta de atenção nem tanto pelo desastre, mas pelas indicações de que estaria havendo um acobertamento. Afinal, este foi o mais espetacular abuso econômico desde os dias dos capitalistas que se enriqueceram ilicitamente no começo do século 20 – e os federais nada fizeram para contê-los.
E, se o Ferc esteve estranhamente apático durante a crise da Califórnia, o que podemos esperar das demais agências? Em todo o governo, do Departamento do Interior ao Serviço Florestal e à Agência de Proteção Ambiental, ex-lobistas das indústrias regulamentadas agora ocupam posições-chave e demonstram pouca inclinação a criar problemas para os seus ex e futuros empregadores.
Portanto, nós ignoramos a experiência da Califórnia, que nos expõe ao perigo. E tudo indica que as coisas continuarão correndo desse modo.
Paul Krugman é professor da Universidade de Princeton