O ILUMINA discorda totalmente da afirmação do Dr. Luís Carlos Santos de que a administração só será profissional quando a estatal for privatizada. Aliás, a "ideologia" de que as estatais têm que ser privatizadas porque o govêrno "não tem jeito mesmo", é uma amostra do subdesenvolvimento das nossas classes dirigentes . Parece até uma atitude de desistência de moralizar o estado! Se o govêrno não pode ter uma empresa estatal porque a gere sem ética e princípios empresariais mínimos, então também não pode ter ministérios ou realizar obras. As reformas políticas que possibilitam ao estado brasileiro contar com empresas estatais públicas eficientes, são as mesmas necessárias para por fim à série de ecandalos quase diários do govêrno FHC. Os Estados Unidos têm empresas estatais como a Tenesse Valley Authority e a Bonneville Power Administration sem esses problemas de incompatibilidade com o sistema capitalista. A França tem a EDF agindo como uma empresa até aqui no Brasil. Portanto, esse dilema é ridículo! Também é bom não generalizar no termo "administração profissional". FURNAS é conhecida mundialmente como uma empresa eficiente e repleta de sucessos técnicos, apesar das influências políticas.
Estado de São Paulo
Presidente de Furnas diz que gestão é política
Para o ex-deputado, a administração só será profissional quando a estatal for privatizada
SUELY CALDAS e SONIA ARARIPE
RIO – Há 14 meses na presidência de Furnas, depois da derrota como vice-governador de São Paulo na chapa Paulo Maluf, o ex-deputado Luiz Carlos Santos afirma que a empresa deve ser administrada até sua privatização por pessoas, como ele, indicadas por critérios políticos. E descartou a idéia de profissionalizar a gestão antes da pulverização do capital. "A indicação é política porque o controlador é o governo; só depois de privatizada o critério será o de mercado, o profissional", definiu o ex-parlamentar, em entrevista ao Estado. "Eu, Armínio Fraga e Francisco Gros, todos somos indicações políticas", diz, igualando-se aos presidentes do Banco Central e do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES).
A proposta de profissionalizar a gestão surgiu com a decisão de pulverizar a venda das ações. O ministro do Desenvolvimento, Alcides Tápias, e o presidente do BNDES, Francisco Gros, a defendem como pré-condição indispensável para Furnas ganhar a confiança do mercado e conseguir vender suas ações ao grande público com sucesso. Para investidores, a profissionalização prévia seria uma garantia contra interferências políticas, antes e depois da privatização. Como a pulverização do capital impede a formação de um grupo privado de controle, existe o temor de que o governo continue interferindo na empresa através de uma golden share ou da retenção de parte do capital em seu poder. Além disso, há muita incerteza sobre as chances de milhares de novos acionistas se organizarem para eleger uma administração competente em um país como o Brasil, onde não há experiência de empresa privada pública. A escolha de uma diretoria profissional antes da privatização resolveria os dois problemas, mostrando concretamente que o governo renunciou à influência política e já oferecendo à nova base de acionistas uma administração adaptada ao novo modelo.
Privatista – Se depender de Luiz Carlos Santos, porém, o governo entregará aos novos acionistas uma empresa administrada por um político. Ao Estado, ele deixou claro que não pretende se afastar espontaneamente. "Enquanto tiver o apoio do presidente da República fico por aqui. Fui uma escolha pessoal dele, somos amigos, conversamos com frequência." Santos reconhece que sua experiência privada é curta – interrompida há 22 anos em 1978, quando eleito deputado pela primeira vez.
"Sou advogado; durante quatro anos dirigi a Simca do Brasil e, até 1978, fui diretor da Covap (uma empresa paulista de engenharia)", conta, revelando seu breve currículo em gestão empresarial. No decorrer da entrevista, o ex-deputado falava sem parar, com entusiasmo, quando o assunto era política.
Se o tema mudava para explicações técnicas sobre Furnas, se calava e pedia ajuda ao diretor financeiro, Paulo Roberto Ribeiro Pinto, que ali estava com esta finalidade.
Responsável maior pelo presente e futuro da estatal, Santos confessa que não participou de nenhuma das reuniões do Conselho Nacional de Desestatização (CND) que discutiram a privatização. "Nunca fui convidado pelo ministro para ir ao CND, embora tenha sempre colocado minha posição; mas o comando político é dele, não posso ficar divergindo, opinando", queixa-se, referindo-se ao ministro Rodolpho Tourinho, das Minas e Energia. Embora recuse revelar quais seriam as divergências, deixa escapar que é favorável à pulverização do capital, quase que assumindo a paternidade da idéia. Mas reconhece ter sido mantido afastado do grupo que começou a desenhar o modelo de pulverização, integrado pelos ministros Alcides Tápias e Rodolpho Tourinho, além de Armínio Fraga e Francisco Gros.
Por diversas vezes, nas duas horas de conversa, o presidente de Furnas insistiu em lembrar sua atuação liberal no Congresso na primeira gestão do governo FHC. "Fui líder do governo, briguei contra os monopólios, pela privatização de estatais e cheguei a ser ameaçado de morte; sou um ardoroso privatista", afirma, negando versão de funcionários da empresa de que sempre operou contra a venda ao setor privado. Na verdade, ele atuou contra o modelo anterior à pulverização, que dividia a geração de energia em duas ou três empresas, a serem vendidas para grupos controladores, como aconteceu em telecomunicações.
Setor elétrico foi surpreendido com a escolha do articulador
RIO – A indicação do advogado Luiz Carlos Santos para a presidência de Furnas surpreendeu empresários, técnicos e trabalhadores vinculados ao setor elétrico. Com exceção de uma breve passagem como secretário de Energia no governo de São Paulo, na gestão Luís Antonio Fleury, ele não possui em seu currículo nenhum tipo de experiência especializada para a função. Desde 1978, quando foi eleito deputado pela primeira vez, Santos se dedica à atividade política, e seu desempenho como líder do governo em votações difíceis no Congresso o levou a ocupar o cargo de ministro da Articulação Política, ministério que nasceu e morreu com ele. "Isso é verdade, o ministério era pessoal, foi criado para mim", comentou.
Essa qualidade de articulador político no Congresso ganhou destaque na votação que aprovou a reeleição do presidente, governadores e prefeitos.
"Eu, Luís Eduardo Magalhães e Sérgio Motta constituimos o trio fundamental para aprovar a reeleição", diz, com orgulho. "No Congresso não se arranja voto no varejo; o segredo está em convencer as bancadas de interesses, os evangélicos, os ruralistas, os da saúde, os do futebol", ensina, sem especificar se trocava votos por favores.
Depois da derrota eleitoral em 1998, Luiz Carlos Santos ficou sem mandato e sem função. (S.C. e S.A.)
Polêmica cerca a privatização da empresaItamar coloca a PM na rua e mercado financeiro condena solução política
RIO – O modelo anterior de privatização de Furnas foi concebido em estudo da consultoria Coopers & Lybrand, encomendado pela Eletrobrás, em 1995, ao custo de US$ 9 milhões. O trabalho sugeria que, no Brasil, as empresas geradoras (subsidiárias da Eletrobrás) apartassem as atividades de geração e transmissão de energia e as vendessem separadamente. A partir desse estudo, BNDES e Eletrobrás começaram a trabalhar em um modelo para Furnas – a mais rentável delas e responsável por 42% da energia gerada no País. A geração seria dividida em duas ou três empresas a serem vendidas a grupos de acionistas controladores.
Esse modelo foi derrubado pela idéia de substituir a estatal por uma empresa privada pública, de capital pulverizado, sem sócio estratégico operacional e com perda de receita com a venda, avaliada em R$ 600 milhões. O governador de Minas Gerais, Itamar Franco, foi o grande opositor da privatização e chegou a ameaçar ocupar as unidades mineiras de Furnas com tropas da polícia. O PSDB do estado, então, passou a pressionar Fernando Henrique a encontrar uma saída política.
O governo partiu para a alternativa de uma empresa privada pública, que não mais pertenceria ao Estado, mas a milhares de brasileiros que deteriam ações com direito a voto. A Eletrobrás, entretanto, com 10%, continuaria majoritária. O mercado financeiro interpretou a proposta como uma solução política destinada ao fracasso. O governo em seguida divulgou planos de criação de uma golden share (ação com direito a veto) para situações previamente definidas, em que fosse necessária a intervenção poder público.