ZERO HORA 19.10.97
Privatização da CEEE rende R$ 2 bilhões
O governo do Estado venderá na terça-feira duas distribuidoras em uma briga que deve envolver cerca de seis consórcios
MARTA CIOCCARI
Uma batalha entre gigantes mundiais de energia de sotaque espanhol , inglês e flamengo será travada, nesta terça-feira, em Porto Alegre, no leilão das distribuidoras gaúchas Norte-Nordeste e Centro-Oeste. Nenhuma transação em solo gaúcho mobilizou tanto capital. Maior negócio da história do Rio Grande do Sul, a venda das distribuidoras deverá representar o ingresso de cerca de R$ 2 bilhões no caixa do Estado. Essa previsão, feita pelo secretário de Energia, Minas e Comunicações, Assis Roberto de Souza, contempla um ágio em torno de 20% em relação ao preço mínimo das companhias. ãA procura das empresas está sendo maior do que imaginávamosä, diz o secretário. Em agosto, ao divulgar o preço mínimo das companhias, Assis havia estimado um ágio entre 2% e 5%. Mas a temperatura do mercado foi sinalizada pela pré-identificação de 64 empresas na Câmara de Liquidação e Custódia (CLC).
O secretário estima que seis consórcios estarão no páreo, na sede da Federação das Indústrias do Rio Grande do Sul (Fiergs). Comandada pela Bolsa de Valores do Extremo Sul (BVES), a sessão vai alienar 519.628.011 ações ordinárias da Companhia Norte-Nordeste, com preço mínimo de R$ 895,295 milhões. Na Centro-Oeste, serão ofertadas 487.585.814 ações ordinárias a um preço mínimo de R$ 780,127 milhões. Conforme o presidente da CEEE, Pedro Bisch Neto, os recursos da Norte-Nordeste irão para o Fundo de Reforma do Estado e os da Centro-Oeste, para o saneamento financeiro da estatal.
Apesar dos oito leilões de companhias energéticas marcados para este ano e mais 10 em 1998 ö de gigantes como a paulista Companhia Paulista de Força e Luz (CPFL) a pequenas como a Centrais Elétricas Matogrossense (Cemat) ö as distribuidoras gaúchas despontam como filé nesse mercado promissor. Até agora, o ícone do sucesso nas privatizações era a Companhia de Eletricidade da Bahia (Coelba), disputada por cinco consórcios e vendida em agosto por ágio espetacular de 77,38%. Mas o que alimenta a esperança do governo gaúcho de bater o recorde no número de consórcios no leilão é o fato de ter havido, no caso da Coelba, 50% menos empresas pré-identificadas na CLC. O Estado aposta que as duas semanas entre o leilão da CEEE e o da paulista CPFL, não afugentarão os candidatos a arrematar as gaúchas. Ambos os negócios são atraentes, mas pelo porte diferenciado, não deverão fazer sombra um o outro.
Os vencedores da licitação vão dispor de financiamento
do BNDES no limite de 50% do preço mínimo
No vaivém de executivos nos gabinetes oficiais do Estado, fica claro que as empresas da CEEE têm atributos nada desprezíveis para quem está disposto a obter uma fatia do mercado gaúcho e também conquistar o Mercado Comum do Sul (Mercosul). Segundo Bisch Neto, o mercado gaúcho de energia cresceu 6,69% de janeiro a agosto, puxado principalmente pelo comércio e residências. Os vencedores da licitação podem obter uma boa remuneração pela venda da energia no varejo. Uma mostra disso é que o governo gaúcho paga cerca de US$ 32 o megawatt/hora adquirido do sistema Itaipu-Eletrosul. Essa mesma energia é vendida a uma tarifa média de US$ 83 o megawatt/hora, no caso da Centro-Oeste, e de US$ 98 o megawatt/hora, na Norte-Nordeste.
ãOs grupos internacionais estão observando o novo momento que vive o Rio Grande do Sul, com os investimentos de empresas como a General Motors, Ford, Navistar, Coca-Cola e Souza Cruzä, acentua o secretário. Estimula ainda a concorrência as linhas de crédito do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) para financiar as privatizações do setor. No caso do Rio Grande do Sul, o BNDES financia até 50% do preço mínimo das duas empresas, o equivalente a cerca de R$ 850 milhões.
Apesar do show montado, uma ameaça ainda paira sobre o leilão. Na sexta-feira, o desembargador Tupinambá Castro do Nascimento, do Tribunal de Justiça do Estado, concedeu liminar à Cooperativa de Eletricidade dos Empregados da CEEE (Coorece), que exige o direito de preferência na compra das distribuidoras, com base no artigo 163, parágrafo 1º, da Constituição Estadual. A Coorece solicita a mudança do edital e novos prazos para a concorrência. O primeiro pedido de liminar foi indeferido na 3ª Vara da Fazenda Pública.
Leilão interligará bolsas de valores e corretoras
Assim que o primeiro envelope de oferta para a Companhia Norte-Nordeste for aberto, pouco depois das 10h30min de terça-feira, o valor da proposta vai aparecer simultaneamente em 500 terminais de computadores espalhados pelo país. Uma sofisticada estrutura, similar à da Bolsa de Valores do Rio de Janeiro (BVRJ), está sendo montada no primeiro andar da Federação das Indústrias do Rio Grande do Sul (Fiergs). Nesta segunda-feira será o dia de testar os equipamentos. Comandado pela Bolsa de Valores do Extremo Sul (BVES), o leilão estará interligado pelo sistema Senn a nove bolsas de valores no país e a diversas corretoras. Os organizadores prevêem 500 participantes ö haverá 10 vagas para operadores de consórcios, 72 para licitantes, 70 para as autoridades, 246 para espectadores e 74 para a imprensa. Estarão disponíveis 40 linhas de telefones convencionais e 20 de celulares.
Inédita no país ö pela sistemática de duas empresas ofertadas no mesmo leilão e a adoção simultânea de envelope fechado e viva voz ö a sessão deverá durar entre uma hora e meia a duas horas. Na primeira fase, o diretor do leilão, Jessé Grimberg, da BVES, vai receber os envelopes com as propostas dos operadores dos consórcios. Depois de selecionar os envelopes referentes à cada empresa, vai abrir e ler cada um dos lances para a Norte-Nordeste. ãA segunda fase ö do repique ö poderá ocorrer ou nãoä, observa Grimberg. Haverá leilão em viva voz caso a proposta da segundo maior oferta tiver uma diferença igual ou inferior a 5% do maior lance. ãIsso será considerado empate técnico e é muito provável que ocorra nesta sessão pelo grande número de empresas interessadasä, explica. Caso haja o repique, está previsto intervalo de 20 minutos entre uma fase e outra do leilão. A mesma sistemática será adotada para a CentroöOeste. Conforme o diretor do leilão, depois de feitos os lances, caberá à BVES checar se obedecem às limitações do edital. A soma das participações, diretas ou indiretas, do controlador de um empresa na outra não pode exceder os 35%.
Megagrupos concorrem às novas companhias energéticas
Longas negociações, recuos, rupturas e uniões consolidadas. Esse foi o clima dos dias que antecederam a formação dos consórcios para disputar as distribuidoras gaúchas. Na sexta-feira, os grupos entregaram sua documentação na Câmara de Liquidação e Custódia (CLC), incluindo a carta-compromisso com o operador técnico. O edital exige que o operador técnico, sem necessidade de ter capital mínimo no consórcio, comprove o atendimento a 900 mil consumidores ou 5 mil gigawatts/ano. No mercado, se espera que entre cinco e oito consórcios se habilitem na concorrência. Depois de se aliar à Previ (fundo de pensão dos funcionários do Banco do Brasil), o grupo VBC (Votorantim, Bradesco e Camargo Corrêa) fechou na quinta-feira o consórcio com a norte-americana Community Energy Alternatives (CEA). Um consórcio une a operadora norte-americana IES com os novos controladores da Espírito Santo Centrais Elétricas (Escelsa) ö Grupo Iven e GTD (fundos de pensão). Em outro, deve estar a operadora belga Tractebel com o Banco Bozano,Simonsen. A companhia norte-americana CMS, de Detroit, não fechou a parceria com a estatal Companhia Paranaense de Energia (Copel), devendo concorrer sozinha. O grupo norte-americano AES Corporation também disputará a privatização das distribuidoras.
O interesse maior da AES é na Centro-Oeste, onde ficará localizada a termelétrica de Uruguaiana, que será construída pelo grupo. Outra parceria que brigará pelas distribuidoras gaúchas é formada pelos novos controladores da Companhia de Eletricidade do Rio de Janeiro ö as chilenas Enersis e Chilectra, a portuguesa EDP e a espanhola Endesa. Outro consórcio pode ser integrado pela argentina YPF, que participará do gasoduto Brasil-Argentina. A espanhola Iberdrola também havia confirmado o interesse em disputar a privatização das distribuidoras. Com uma receita anual de US$ 7 bilhões, o grupo, que detém 40% do mercado espanhol, arrematou a Coelba,em agosto, juntamente com BB-BI, BrasilCap, BrasilPrev e Previ.
Gaúchos negociam aquisição e investem até R$ 100 milhões
Depois de namoros com vários operadores internacionais, o grupo de empresas gaúchas interessado em obter uma fatia na companhia Norte-Nordeste decidiu mudar sua estratégia. Em vez de se aliar a um consórcio, está firmando termos de compromisso com os grupos dispostos a comprar a Norte-Nordeste. ãEstamos no papel de noivaä, revelou na quinta-feira à noite o diretor-executivo da Companhia Riograndense de Participações, André Burger, consultor do Grupo Empresarial Norte-Nordeste (Genn). Como a Marcopolo e a Azaléia desistiram de integrar o grupo, permanecem sete empresas ö Inper, Borrachas Vipal, Grendene, Lojas Colombo, Schneider Logemann, Sultêxtil e Trafo ö e a Cooperativa de Desenvolvimento Rural, de Ibirubá. O Genn está disposto a investir R$ 100 milhões por entre 5% e 10% da distribuidora.
Um dos fatores que pode ter contribuído para a mudança nos planos do grupo gaúcho é a desistência da norte-americana Houston Energy em disputar as distribuidoras. A Houston considerou caro o preço mínimo das empresas gaúchas. O afastamento da companhia, considerada uma das favoritas a arrematar uma distribuidora, arrancou o comentário, em tom de ironia, de um executivo do Deutsche Morgan Grenfell Paulo Funchal, que fez a avaliação econômica-financeira das distribuidoras: ãNão sei se o preço é caro ou se a Houston não tem bala da agulhaä.
A Companhia Norte-Nordeste reúne 839 mil consumidores, espalhados em 244 municípios, com um perfil mais residencial do que industrial. Como obtém uma melhor remuneração com a tarifa residencial, mais alta do que a industrial, essa empresa possui um preço mínimo superior. A Companhia Centro-Oeste fornece eletricidade diretamente a 804 mil consumidores, em 113 municípios, atendendo a um maior número de indústrias.
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