A questão social brasileira é a mais grave a ser enfrentada pela sociedade. A energia não poderia ficar de fora. Temos que conseguir oferecer energia barata à essa população. Lembrem-se do caso do …

A questão social brasileira é a mais grave a ser enfrentada pela sociedade. A energia não poderia ficar de fora. Temos que conseguir oferecer energia barata à essa população. Lembrem-se do caso dos celulares…. A população tem celular, só não pode pagar a conta!



Demanda reprimida exige construir mais uma Itaipu (Folha de São Paulo 20/05)


SANDRA BALBI

DA REPORTAGEM LOCAL

Para atender os 20 milhões de brasileiros que vivem à luz de velas e lampiões e os abastecidos precariamente por "gatos" (roubo de luz do sistema), seria preciso construir mais uma Itaipu.


A demanda reprimida, só no setor residencial, é calculada em 10.400 MW (megawatts) pelo engenheiro Roberto D’Araújo, diretor da ONG Ilumina e pesquisador da Coppe-UFRJ (Coordenação dos Programas de Pós-Graduação em Engenharia da Universidade Federal do Rio).


Ele fundamenta seus cálculos na definição de uma "cesta básica de eletricidade", que atenda as necessidades mínimas de uma família de quatro pessoas. Essa cesta, que comporta gastos modestos, totaliza um consumo mensal de 195 kWh (quilowatts/ hora) por mês.


No entanto, ela supera o consumo médio residencial do país, que, segundo dados do IBGE, é de 175 kWh/mês. "A média do consumo domiciliar não reflete a realidade. Hoje, 71% dos consumidores residenciais gastam até 130 kWh por mês", observa D’Araújo.


Os planos de expansão da oferta traçados pelo governo não contemplam a demanda reprimida, diz o pesquisador. Por isso ele afirma que, "se todo domicílio brasileiro consumir pelo menos a cesta básica de energia em 2010, não haverá luz para todos".


Célio Bermann, professor do Programa de Pós-Graduação em Energia da USP (Universidade de São Paulo), destaca que todos os programas de governo feitos até hoje se baseiam apenas na projeção de crescimento do PIB (Produto Interno Bruto) e sua relação com a demanda de eletricidade.

Até o ano 2000 as projeções oficiais apontavam para a necessidade de expandir a geração de energia elétrica a uma taxa média de 4,2% ao ano, até 2009, segundo dados do ONS (Operador Nacional do Sistema Elétrico).




Mas, para que todos os domicílios brasileiros tivessem acesso a pelo menos o consumo mínimo de 195 kWh/ mês, seria necessário aumentar a oferta de energia em 6% ao ano, segundo D’Araújo.




De acordo com as projeções do governo, o país precisa gerar mais 39.580 MW até 2009. As usinas já em construção, segundo a Aneel (Agência Nacional de Energia Elétrica),


deverão agregar mais 12.913 MW ao sistema.

A maior parte do aumento da demanda, que soma 27.086 MW, no entanto, ficou apenas na outorga das usinas. As obras ainda não foram iniciadas. "O grande desafio do setor elétrico é crescer uma Itaipu a cada três anos e meio", afirmou o presidente do ONS, Mario de Melo Santos.





"Sem-renda" barram expansão (Folha de São Paulo 20/05)


DA REPORTAGEM LOCAL

O resgate da chamada dívida social do setor elétrico esbarra na escassez de renda da população que hoje não é atendida pelas distribuidoras. "O problema é que a renda das famílias excluídas não é suficiente para pagar pelo serviço", diz Célio Bermann, professor do Programa de Pós-Graduação em Energia da USP.


Segundo o IBGE, 84% dos domicílios sem luz são de famílias com renda inferior a três salários mínimos mensais. Bermann considera que os gastos com a conta de luz devem situar-se entre 3% a 5% do orçamento familiar.


As famílias com ganhos de até dez salários mínimos, por exemplo, comprometem 3,4% da renda com essa fatura. Nos estratos mais pobres, a conta é mais salgada: para 25 milhões de famílias com renda de até três mínimos, ela abocanha 12%. "A saída dessas pessoas é reduzir de forma drástica o consumo", diz Bermann.


Segundo ele, aos preços atuais, a população pobre não tem como pagar pela eletricidade, daí a proliferação do roubo de energia na periferia dos grandes centros e nas favelas. O aumento emergencial de tarifas, de 2,9% para esse segmento, em vigor desde janeiro, pode ter mantido as residências em ritmo de "apagão".


Segundo o presidente da CPFL (Companhia Paulista de Força e Luz), Wilson Ferreira Jr., as concessionárias de energia estão trabalhando com vendas num patamar um pouco acima do registrado em 1999, mas abaixo de 2000.


A saída para o impasse entre a demanda reprimida de energia e a renda da população, dizem os especialistas, passa por uma política de distribuição de renda. Outra forma de resolver essa equação é cobrando tarifas mais baratas. Isso seria possível, diz Roberto D’Araújo, diretor da ONG Ilumina, se parte da expansão do sistema se der pelo aumento da eficiência das usinas já existentes. (SB)


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