Assaltos
Chega a ser irônico a notícia de uma tentativa de golpe de R$ 32 milhões contra a Eletrobrás, felizmente descoberta e sustada, na mesma reportagem que dá conta do provável prejuízo do grupo por conta da liquidação do Mercado Atacadista. Nesse caso a perda sobe para R$ 2 bilhões, sessenta vezes o frustrado golpe judicial. O pior é que a segunda perda está para ocorrer no dia 22 de novembro e se nada for feito, o próximo governo, com o caixa praticamente zerado, nada poderá fazer em termos de política energética. Tal dívida bilionária decorre de um modelo mercantil que demonstrou sua incompetência ao levar o país a um racionamento. Usando um sistema de preços praticamente indefensável pois utiliza parâmetros que foram avaliados para outros fins, gerou absurdas contas para pequenas parcelas de energia trocadas entre empresas. O que no sistema cooperativo era uma simples liquidação de sobras, tornou-se um perigoso jogo que pode levar qualquer empresa à falência. A ironia da reportagem é sutil mas significativa!
Eletrobrás é vítima de tentativa de golpe pela 8.ª vez (ESP 05/11)
‘Quadrilha’ tenta retirar recursos do caixa da empresa num total de R$ 32 milhões
ALAOR BARBOSA
RIO – A Eletrobrás foi vítima de mais uma tentativa de retirada fraudulenta de recursos do caixa da empresa no valor de R$ 32 milhões na semana passada. Foi a oitava operação desde maio deste ano, por meio de ações com base nas antigas obrigações da Eletrobrás – títulos emitidos até 1977 e que já estão "caducos", ou seja, contratos de vencimentos vencidos, que não podem mais ser resgatados.
Segundo o presidente da estatal, Altino Ventura Filho, há claros sinais de que as oito tentativas foram realizadas pelo mesmo grupo. Isso fica evidente, segundo ele, porque os números dos títulos que servem de referência para as ações judiciais são os mesmos, assim como os advogados envolvidos. A estratégia da "quadrilha", segundo Altino, é dar entrada em processos judiciais em cidades do interior de difícil acesso. A mais recente foi na quinta-feira em Glória de Goitás, no interior de Pernambuco.
Segundo o presidente da holding estatal de energia, até agora a Eletrobrás tem conseguido sustar todos os pagamentos que atingiriam montantes de R$ 350 milhões se fossem bem-sucedidos. A Eletrobrás encaminhou à polícia federal a relação das pessoas envolvidas nas tentativas de golpes e pediu apoio da Advocacia Geral da União (AGU) para evitar eventuais perdas.
Na avaliação de Altino, a tentativa de golpe fica caracterizada quando se analisa o processo e se verifica que todas as ações só dão entrada em comarcas do interior, quando as ações contra a Eletrobrás deveriam ser impetradas junto à Justiça Federal.
Altino agradeceu aos bancos que têm alertado a empresa quanto a esses pagamentos, mas ele teme que isso possa acabar acontecendo, pois os gerentes das agências tendem a acatar decisões judiciais sob pena de prisão.
A Eletrobrás acredita que investirá em 2003 volume de recursos muito próximo ao total previsto este ano, que deverá totalizar R$ 4,1 bilhões em atividades de geração e transmissão de energia elétrica. Os investimentos deste ano são maiores que os observados até o ano passado, porque o governo liberou obras emergenciais por causa do racionamento de energia em 2001.
Segundo Altino Ventura, as empresas do grupo – entre as quais incluem as maiores geradoras estatais, como Chesf, Furnas e Eletronorte -, estão com vários projetos em andamento e agora em dezembro vai inaugurar a primeira turbina do projeto de Tucuruí 2 e há estimativa de que novas máquinas serão instaladas ao longo de 2003.
Além disso, Furnas está construindo uma nova linha de transmissão entre o Paraná e São Paulo, que deverá duplicar a capacidade do sistema elétrico, facilitando o intercâmbio de energia entre as regiões sul e sudeste brasileiros. "São investimentos que não podem ser interrompidos", comentou.
Ventura disse que "não conhece" as propostas do Partido dos Trabalhadores (PT) para o setor, mas não crê que esses investimentos serão interrompidos.
Ele também não quis se manifestar sobre a possibilidade de o sistema Eletrobrás pagar às distribuidoras de energia até R$ 2 bilhões por conta dos negócios realizados no ano passado no Mercado Atacadista de Energia (MAE).
"Nós não somos agentes do MAE", disse Ventrua, lembrando que os agentes são as empresas controladas pela holding, como Chesf e Furnas. Apesar de essas empresas serem integralmente controladas pela Eletrobrás, Ventura preferiu não emitir opinião sobre a liquidação prevista para o próximo dia 22 de novembro. (AE)
Com sobra de produção, Chesf reduz investimentos em 20% (ESP 05/11)
Níveis de consumo da Região Nordeste continuam baixos após o racionamento
EUGÊNIO MELLONI
Com uma sobra de energia de cerca de 400 megawatts (MW) prevista para este ano, por causa principalmente da manutenção de um nível baixo de consumo de energia no pós-racionamento na Região Nordeste, a Companhia Hidro-Elétrica do São Francisco deverá investir neste ano só 80% dos R$ 770 milhões previstos. A geradora, do grupo Eletrobrás, manterá os investimentos previstos de R$ 365 milhões em transmissão de energia, dando seqüência a um ambicioso programa de ampliação e aumento de capacidade de suas linhas e subestações, iniciado em 1995. Mas está reduzindo os investimentos na área de geração, adiando, por exemplo, o desembolso de recursos para a repotenciação (aumento da capacidade de geração) e conversão ao gás natural da Termoelétrica de Bongi, no Recife.
"O adiamento ocorre de forma compatível com a evolução do mercado", explica o presidente da Chesf, Mozart Siqueira Campos. A permanência de um consumo retraído no Nordeste, que levou as vendas de energia na região aos níveis de 1999, produz sobra de 400 megawatts (MW), volume que será vendido pela empresa para clientes nas Regiões Sudeste e Sul.
Siqueira atribui a retração do consumo tanto à absorção, pela população nordestina, de tecnologias de uso mais eficiente de energia quanto à própria redução do ritmo da economia.
Com esse quadro,a Chesf deu seqüência, em 2002, a seu programa de investimentos na área de transmissão, por meio do qual já desembolsou R$ 2 bilhões desde 1995. Os recursos foram investidos na construção de 5,4 mil quilômetros de novas linhas de transmis são, ampliando a extensão da malha da geradora nordestina em cerca de 18 mil quilômetros, e na ampliação da capacidade de transporte de energia das linhas. "Estamos executando um amplo programa de ampliação de nossa rede de transmissão de 500 quilovolts (kV)", conta Siqueira Campos. "Com os investimentos em transmissão, o Nordeste, uma região completamente isolada no passado, tem hoje um sistema que permite a importação e exportação de energia."
Neste ano, o grosso dos investimentos foi destinado a obras de modernização e ampliação da capacidade de transformação de suas subestações, associadas ao aumento da capacidade de transmissão de energia do sistema da empresa. O ano terminará com a ampliaç ão e modernização de 23 das 91 subestações. Além disso, a companhia prevê a conclusão da implantação de pelo menos 200 quilômetros novos de linhas de transmissão. (AE)
Físico quer retomada de hidrelétricas (folha 05/11)
DA REDAÇÃO
Retomar a opção hidrelétrica como base do sistema de geração de eletricidade no Brasil, elaborar normas que induzam à prática de conservação de energia, fixar um limite menor de usinas termelétricas que o governo pretende construir e a volta organizada do Proálcool.
São essas algumas das recomendações expostas pelo físico Rogério Cezar de Cerqueira Leite, professor emérito da Unicamp e membro do Conselho Editorial da Folha , em debate no auditório do jornal no lançamento do livro "Energia para o Brasil – um modelo de sobrevivência", na semana passada. O livro foi escrito por Cerqueira Leite, em parceria com Cylon Gonçalves da Silva, também professor emérito da Unicamp e ex-diretor do Laboratório Nacional de Luz Sincrotron.
Em sua apresentação, Cerqueira Leite argumentou que há dois parâmetros financeiros a serem analisados para definir um modelo energético: o custo da energia e o investimento inicial. "Isso teve grande influência nas decisões recentes do governo. Preferiu o gás natural, cuja energia tem um custo mais elevado, mas os custos de investimentos iniciais são mais baixos."
O físico ponderou também que um terceiro parâmetro na escolha do modelo energético é a disponibilidade de reservas. "Há muita gente que faz uma escolha, e isso foi tradicional no Brasil, sem olhar quais eram as reservas."
Seria esse, segundo ele, seu principal argumento a favor da recomendação da retomada do programa baseado na energia hidrelétrica. "Não só porque temos disponibilidade grande. Mas também porque ainda é a mais barata forma de produção de energia."
A disponibilidade foi um dos entraves evocados pelo físico ao defender que o governo diminua o número de usinas térmicas a gás que pretende construir. "Se não houver outra saída às térmicas a gás, que se estabeleça um limite inferior àquele das famosas 49, 50 usinas, porque não há gás suficiente na Bolívia", afirmou.
O físico defendeu ainda a retomada, "organizada", do Proálcool, investimentos no biodiesel e em energia eólica e biomassa.
Outro dos debatedores, João Guilherme Ometo, presidente do Sindicato dos Fabricantes de Álcool de São Paulo, lembrou que, segundo os autores do livro, na última década, os países em desenvolvimento respondiam por 25% do consumo mundial de energia. Em 20 anos, esse percentual irá a 50%. "Para política energética, há anos que não fazemos um planejamento", comentou Ometo.
O físico Luiz Pinguelli Rosa, diretor da Coppe (Coordenação dos Programas de Pós-Graduação em Engenharia da Universidade Federal do Rio de Janeiro), afirmou ser corajosa a postura do professor da Unicamp acerca do uso do gás natural.
"O gás natural virou um tabu, como foi a energia nuclear na década de 70. Ser contra a energia nuclear era ser reacionário. O gás natural foi na década de 90 uma espécie de remédio de camelô, que cura dor de dente, faz nascer cabelo, remove calo. Nós sabemos que o gás natural é interessante, mas limitado também."