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Atenção Ministério Público! Mais uma vez abre-se uma oportunidade de se responsabilizar os artífices da debacle do setor elétrico! Agora, o secretário de energia de São Paulo é obrigado a concordar com nossa denúncia de que o apagão tem tudo a ver com o racionamento. A busca por culpados individuais e a aplicação de multas milionárias não acrescentam nenhum MW a mais no sistema. O único culpado é o próprio governo que, em parceria com alguns grupos privados implantou um modelo que não funciona.


Quanto ao alívio anunciado do racionamento, que diga-se de passagem, deve-se exclusivamente à população e à S. Pedro, é mais uma demonstração da visão miope do governo. Tudo depende do horizonte de tempo. Se estamos preocupados com a energia desse ano apenas, tudo bem. Entretanto se considerarmos as incertezas quanto às afluências do ano que vem e do natural e contido crescimento do mercado, a questão é outra.


Racionamento fica mais brando e deve terminar logo (Estado de S. Paulo 25/01)

Meta da indústria cairá para 10% e residências poderão aumentar consumo em 7,5%

SÉRGIO GOBETTI e JOSÉ RAMOS

BRASÍLIA ­ O ministro-chefe da Casa Civil, Pedro Parente, presidente da Câmara de Gestão da Crise de Energia Elétrica (GCE), anunciou ontem medidas que chamou de "transição para o fim do racionamento". A partir de fevereiro, a meta de economia da indústria cai de até 25% para 10% em todos os setores; comércio e consumidores residenciais poderão aumentar o consumo atual em 7,5%, aproveitando o período do carnaval. "Existe uma altíssima probabilidade de o racionamento terminar no dia 28 de fevereiro, senão antes", admitiu o ministro, pela primeira vez.


Segundo Parente, se as usinas do Programa Prioritário das Termoelétricas (PPT) já estivessem instaladas, as metas poderiam ser suspensas agora, uma vez que o nível dos reservatórios das hidrelétricas já ultrapassou o limite mínimo de segurança.

Nas Regiões Sudeste/Centro-Oeste, por exemplo, os reservatórios estavam com 44,52% da capacidade de água na quarta-feira. Atingindo 52%, as termoelétricas poderiam ser dispensadas. E, mesmo que o índice não seja atingido até fevereiro, o fim do racionamento poderá ser anunciado porque várias térmicas devem ficar prontas até junho, para suplementar a energia das hidrelétricas.


Na avaliação do ministro de Minas e Energia, José Jorge, "os impactos do racionamento para as indústrias praticamente são nulos a partir de fevereiro". As empresas industriais foram autorizadas a gastar 90% do que consumiam entre maio e julho de 2000, o que corresponderia à atual demanda efetiva do setor. "As indústrias racionalizaram o consumo e podem cumprir a meta com certa folga", disse Jorge. As empresas têm metas de economia de 15%, 20% e 25%, dependendo do ramo de atividade. Em fevereiro, todas serão unificadas em 10%.


O comércio também terá a meta flexibilizada e passa de 20% para 14%, em relação ao consumo verificado no verão passado (7,5% a mais do que hoje). A idéia inicial era beneficiar apenas hotéis, restaurantes e clubes recreativos no carnaval, mas problemas técnicos estenderam o benefício a todo o setor comercial. Também as residências passam a ter o alívio do carnaval, por determinação "expressa" do presidente Fernando Henrique Cardoso. Na prática, os consumidores residenciais terão de multiplicar por 1,075 a meta de consumo que consta da última conta de luz para saber quanto poderão gastar em fevereiro.


No caso das capitais do Sudeste e Centro-Oeste, por exemplo, consideradas cidades turísticas, a autorização de um acréscimo de 7,5% no consumo representa, na prática, que as pessoas poderão gastar quase o mesmo que em maio, junho e julho de 2000.

Para José Jorge, as medidas de alívio não indicam que o consumo subirá até atingir as novas metas. Ele lembra que em dezembro os limites de consumo foram aumentados no Sudeste/Centro-Oeste para 23.500 MW médios, mas o consumo permaneceu abaixo disso. Foi isso que possibilitou a distribuição desta folga, agora

Racionamento contribuiu para apagão, diz Arce (Folha de S. Paulo 25/01)

MARCELO BILLI

DA REPORTAGEM LOCAL


O racionamento de energia contribuiu, ainda que indiretamente, para que o apagão de segunda-feira ocorresse, avalia o secretário de Energia do Estado São Paulo, Mauro Arce. O secretário é membro da GCE (Câmara de Gestão da Crise de Energia Elétrica, o "ministério do apagão"). O ministro Pedro Parente (Casa Civil), coordenador da GCE, havia negado que o blecaute tivesse alguma relação com o racionamento.




Arce explicou que o risco de panes no sistema é maior porque algumas usinas ainda estão com os reservatórios muito baixos. Para economizar água dessas usinas, as demais trabalham com carga total, transferindo energia para outras regiões e poupando as hidrelétricas que ainda enfrentam o problema de baixos reservatórios.

Na segunda feira, pouco antes do apagão, 60% do consumo das regiões Sudeste e Centro-oeste estava sendo atendido por Itaipu e por outras sete usinas, todas da região de Ilha Solteira, onde aconteceu o acidente.


"É claro que numa situação assim, com esse desequilíbrio, o risco de algo acontecer com o sistema é maior", diz Arce.


Mas ele afirma que, para diminuir o risco de acidentes, seria preciso reduzir a geração nessas usinas e aumentar naquelas em que os reservatórios estão baixos. Arce avalia que essa seria uma opção pior do que admitir um risco maior de ocorrência de apagões. "O que vamos fazer? Deixar algumas usinas vertendo água e não gerar energia? Secar os reservatórios das outras usinas?"


Ontem, ele disse que avalia que a reação da Aneel (Agência Nacional de Energia Elétrica) foi precipitada. A Agência afirmou que multaria a CTEEP (Companhia de Transmissão de Energia Elétrica Paulista). "Nós vamos recorrer. Nossa avaliação é que não houve erro por parte da CTEEP."


Segundo o secretário, das seis linhas de transmissão que saem de Ilha Solteira, apenas quatro estavam funcionando. Quando a primeira linha foi desligada por causa da queda de um cabo, os equipamentos de segurança desligaram a segunda linha.


Arce diz que o segundo desligamento foi "indesejável". Mas ele afirma que não houve falha. "O equipamento é programado para desligar a linha quando ocorrem grandes oscilações", disse.


Arce associa apagão à crise de energia (Estado de S. Paulo 25/01)

Segundo o secretário, houve um desequilíbrio na geração na área onde ocorreu o acidente

RENÉE PEREIRA


As causas do apagão que deixou quase metade do País sem energia, na segunda-feira, vão além de um parafuso frouxo. A proporção do blecaute foi decorrente de uma série de eventos que, somados, provocaram um colapso no vulnerável sistema elétrico da Região Centro-Sul. Segundo o secretário de Energia do Estado de São Paulo, Mauro Arce, não adianta esconder: o apagão do início da semana está sim atrelado ao racionamento. A justificativa para tal afirmação é que havia um desequilíbrio de geração de energia na região onde se iniciou o incidente.


Com a melhora dos níveis dos reservatórios localizados nessa área, explica, o Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) optou por aumentar a produção das usinas, como Ilha Solteira, Jupiá, Três Irmãos e Porto Primavera, para recuperar represas que continuam com baixo abastecimento. Entre elas, as de unidades instaladas no Rio Grande e Paranaíba.


De acordo com documento apresentado pelo secretário, no dia do blecaute, às 13h33, essas usinas, mais o fluxo de Itaipu, eram responsáveis por quase 60% da carga das Regiões Sudeste/Centro-Oeste. Ou seja, dos 25.298 megawatts consumidos, 14.997 saíram da região de Ilha Solteira. O ONS, no entanto, explica que é natural, nesta época do ano, priorizar a geração das usinas do Rio Paraná, inclusive Itaipu, para recuperar os reservatórios localizados nas cabeceiras dos Rios Grande e Paranaíba. Segundo nota divulgada ontem pelo órgão, "esta é a política usualmente adotada para otimização integrada dos recursos energéticos existentes."

Arce concorda com a estratégia do ONS, mas afirma que o risco é maior. "Não se trata de uma medida errada; eu também adotaria a mesma posição." Segundo ele, com essa concentração de energia num só local, o risco de apagões aumenta. No caso de segunda-feira, a saída de dois circuitos, responsável pela transmissão de mais de 1.900 MW, foi reforçada pela paralisação de outras duas linhas ­ uma por manutenção e outra por estratégia do ONS.


Segundo Arce, se apenas uma dessas linhas paralisadas ­ com autorização do ONS ­ estivesse funcionando, o apagão não teria ocorrido. "A queda de dois circuitos é considerada normal no sistema." No ano passado, exemplifica, foram registrados pela Companhia de Transmissão de Energia Elétrica Paulista (Ceteep) 97 desligamentos não-programados e nenhum provocou o efeito dominó como este ano.


Para o secretário paulista, o sistema de proteção ­ chamado relés ­ funcionou indesejadamente, mas de forma correta. "Se a segunda linha não tivesse sido desligada, a situação poderia ser ainda pior, ocasionando até incêndio." Isso porque houve curto-circuito muito próximo da usina. Quanto à manutenção das linhas, ele nega que tenha havido negligência. "Estamos convencidos de que a Ceteep não falhou e vamos apresentar nossas argumentações à Aneel dentro do prazo estabelecido de 15 dias."


Resta saber por que o ONS, num sistema concentrado como estava, desligou duas linhas. O órgão defende-se afirmando que realizou várias simulações antes de retirar os circuitos do sistema e não havia problemas. A questão é que não faltaram motivos para causar o blecaute: um parafuso provocou a queda de uma linha, o sistema de proteção desligou outra sem defeito e dois circuitos estavam fora da rede por determinação do ONS. Uma seqüência de falhas.

Aneel vai pedir inspeção geral em todas as linhas (Estado de S. Paulo)

Instrução da GCE é para que se analise com atenção a situação dos parafusos que fixam os cabos

JOSÉ RAMOS


BRASÍLIA – A Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) determinará a todas as empresas transmissoras de energia elétrica uma inspeção geral em suas instalações. O presidente da Câmara de Gestão da Crise de Energia Elétrica (GCE), Pedro Parente, disse ontem que a instrução à agência foi dada pela GCE e a inspeção deverá analisar eventuais problemas nas linhas, com enfoque especial na situação dos parafusos que fixam os cabos, que foi a causa inicial do apagão de segunda-feira.


"É como se faz quando ocorre a queda de um avião", justificou Parente, dizendo que devem ser tiradas do episódio todas as lições possíveis para evitar sua repetição. De acordo com um relatório entregue na quarta-feira pelo Operador Nacional do Sistema (ONS), o distúrbio no sistema elétrico brasileiro, que deixou dez Estados e o Distrito Federal no escuro, teria sido ocasionado por um parafuso frouxo, que servia para sustentar um dos cabos condutores da linha de transmissão entre a Usina de Ilha Solteira e a Subestação de Araraquara.


A GCE também criou ontem um grupo de trabalho para investigar as causas do apagão e fazer uma análise da confiabilidade do sistema de transmissão. Segundo Parente, o grupo terá 45 dias para efetuar o trabalho, e poderá sugerir medidas e ajustes do modelo do setor elétrico para evitar novos acidentes do mesmo tipo.

O ministro de Minas e Energia, José Jorge, disse que a tarefa do grupo de trabalho "é um papel do governo na questão do planejamento". Ele será formado por seis técnicos, incluindo o professor Alquindar Pedroso, da Coordenação de Programas de Pós-Graduação em Engenharia (Coppe) da Universidade Federal do Rio de Janeiro.


O grupo terá autonomia para solicitar documentos e informações de qualquer empresa, requisitar funcionários de empresas federais do setor ou contratar outros que julgar necessários. (AE)

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