…e o governo não comenta!!
Como temos alertado, a energia elétrica brasileira tornou-se uma das mais caras do mundo. O JB comprova nosso alerta. Esse preço é ainda mais caro quando se considera que o salário brasileiro é bastante inferior ao francês, e a energia aqui vem da água, não de caras usinas nucleares como na França. Mas o pior mesmo é se dar conta que mesmo sendo muito mais cara, aqui a energia ainda falta, e quando falta, nós somos os culpados!
Luz do Rio é quase o triplo de Paris (JB 14/04)
Carioca e parisiense são atendidos pela EDF, mas o primeiro paga R$ 139 por 400 kWh e o segundo, apenas R$ 48
ISABEL CLEMENTE E JANAINA VILELLA
Um carioca paga hoje pela conta de luz quase três vezes o que desembolsa um morador de Paris pela mesma quantidade de energia. Em comum, ambos são atendidos pela francesa EDF, que no Rio controla a distribuidora Light e, na França, é a estatal que serve ao país. A comparação vale para um consumo médio mensal de 400 quilowatt-hora (kWh), o suficiente para um casal, por exemplo, viver com conforto, sem exageros.
Enquanto os cariocas hoje desembolsam R$ 139,57 por esses 400 kWh, o morador da cidade luz paga R$ 48,68 – uma diferença de 186%. Na conta estão incluídos impostos e, no caso brasileiro, o encargo fixo de R$ 0,0049 por kWh cobrado desde março para cobrir o seguro-apagão. Esse dinheiro será usado pelo governo para pagar o aluguel de 58 usinas emergenciais. Somado ao aumento extraordinário de 2,9% em vigor desde janeiro, para repor as perdas das distribuidoras com o racionamento, os clientes da Light não classificados como baixa-renda – essa categoria está isenta do seguro e do reajuste – já tiveram uma alta na conta de 4,64% no ano.
Vilões – A luz no Brasil está cara e são vários os vilões. Impostos e próprio IGPM, índice de inflação da Fundação Getúlio Vargas que serve de parâmetro para o reajuste anual das tarifas. O IGPM sempre supera o IPCA, baliza oficial do Banco Central para as metas de inflação, e ainda recebe o impacto do encarecimento da conta de luz. Energia elétrica responde por 4,4% do IPC, que pesa 30% na composição do IGPM. ”Não deixa de ser um ciclo que se realimenta”, explica Paulo Sidney Cota, chefe do Centro de Estudo de Preços da FGV. Os 2,9% de aumento extraordinário do início do ano pesaram pouco na inflação, segundo ele. O dólar também influencia nas revisões tarifárias.
”No Brasil, a energia já foi barata, mas começou a subir nos anos 90. Em geral, os países com grande geração hidroelétrica, como o Canadá, ou com presença estatal no setor, como a França, tem energia mais barata”, comenta o pesquisador Luiz Pinguelli Rosa, diretor da Coordenação dos Cursos de pós-Graduação em Engenharia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (Coppe/UFRJ). ”O problema é que aqui a energia é mais cara e o poder de compra do brasileiro menor. O peso no bolso do consumidor é ainda maior”.
Impostos – Os impostos no Brasil pesam mais – a alíquota de Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS) é de 25% no Rio para consumo superior a 300 kWh, na França, o imposto leva 19,6% da conta-, mas sozinhos não justificam a diferença. Em 1999, a disparidade entre o gasto dos cariocas e dos parisienses não passava de 33%, segundo dados da Coppe. A distância das contas mais que quadruplicou desde então.
O pesquisador brasileiro Wilson Savino, de 50 anos, que mora em Paris há um ano, aproveita o horário mais barato para lavar as roupas e a louça. ”Aqui realmente a luz é barata. E pagar a conta por ano também ajuda”, conta ele, por telefone.
Os paulistas atendidos pela Eletropaulo também sentem mais no bolso o peso da conta de luz do que os franceses ou os americanos, mas não superam os cariocas. Nos Estados Unidos, o preço da eletricidade varia muito de um lugar para outro. As tarifas também encarecem no verão, entre junho e setembro, devido ao custo mais elevado para atender à demanda maior.
Análise – ”O sistema tarifário brasileiro precisa de uma revisão, porque há subsídios exagerados para o setor industrial. Claro que grandes consumidores sempre pagam menos, é assim em todo o mundo, mas aqui tem distorções”, opina David Zylbersztajn, ex-diretor-geral da Agência Nacional do Petróleo. ”E é um assunto controverso. Há quem ache a tarifa barata. O que realmente não justifica é o fato de nós termos um sistema hidrelétrico em boa parte já amortizado e pagarmos tão caro.”
Nem a Eletropaulo nem a Light quiseram comentar o assunto. O Ministério de Minas e Energia informou que tarifas são responsabilidade da Aneel. Procurada, a assessoria de imprensa da agência não conseguiu localizar o responsável pela área porque o prédio da agência foi esvaziado na última sexta-feira depois de ameaça de bomba.
Poder de compra devorado (O DIA 14/04)
As histórias de cinco Josés mostram como o real construiu e desconstruiu sonhos e planos de acesso aos bens de consumo
Solange Bagdadi
São cinco Josés com destinos diferentes. Após a euforia inicial do Plano Real, quatro deles estão mais empobrecidos e só um conseguiu manter o poder de compra. Passados quase oito anos do atual Governo, de cada cinco brasileiros, dois consomem o básico; outros dois não têm dinheiro nem para isso.
Dados do Censo 2000 do IBGE mostram que 40% da população do Rio de Janeiro não tinham renda ou ganhavam até dois salários mínimos nacionais vigentes à época (R$ 302). Outros 40% recebiam entre dois e 10 (R$ 1.510) mínimos e só os 20% restantes tinham ganhos acima desses 10 mínimos.
Consumidores emergentes ficaram frustrados
Economista da Fundação Getúlio Vargas (FGV), Virene Roxo Matesco aponta como principais fatores que devoram o consumo inflação, desemprego, custo do crédito e poder de compra. "Esses fatores prejudicam muito a classe de baixa renda, que mais precisa de crédito para consumir. A política de combate à inflação de FH gerou benefícios só para o mercado financeiro", critica.
Na opinião do consultor de varejo Ulysses Reis, os consumidores emergentes sofreram decepções: "O crescimento do desemprego e o racionamento de energia impediram que os hábitos adquiridos fossem mantidos. Depois de ter acesso aos produtos, as pessoas não puderam usá-los". Para ele, hoje existe inconformismo de quem já conheceu o sonho do consumo. "Será que o aumento da violência não tem a ver com isso?", indaga. Reis informa que o número de furtos em lojas subiu de 1% para 5% da criminalidade, desde 1990.
Aumentos de itens básicos engolem o orçamento
Cornélia Porto, coordenadora de pesquisas de preços do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese), diz que a rigidez com que o Governo trata a meta de inflação só piora a situação. "Não desejamos a escalada dos preços, mas o Governo poderia relaxar em perseguir a meta, ou seja, flexibilizar um pouco, para que a economia cresça", opina.
A teoria é explicada da seguinte forma: se os juros diminuírem, os investimentos podem aumentar, o emprego crescer e a renda, também: "Quanto mais renda, maior o potencial de consumo". De acordo com pesquisas de preços do Dieese, itens de primeira necessidade, como luz, telefone, água, gasolina, escola e saúde, aumentaram muito nestes anos, sobrando pouco dinheiro ou quase nenhum para ser gasto em consumo.