Os debates não debatem. A reportagem abaixo relata que figuras que pensam mais ou menos da mesma maneira juntam-se para emitir conceitos altamente discutíveis como se fossem verdades supremas. O lado “intervencionista e estatizante” citado como um perigo, só é considerado o “lado errado” quando a intervenção não se dá no sentido de favorecer interesses privados. É a filosofia do Estado Mínimo que, na prática, só é mínimo para o pobre. Será que esses senhores fariam o mesmo discurso, preconceituoso a nosso ver, perante situações tais como: 1 – Intervenção da Casa Civil na ANEEL no período do racionamento de energia para garantir aos concessionários de distribuição, de maioria privada, a receita advinda da economia de energia forçada imposta aos consumidores? 2 – Ajuda financeira à AES por parte do BNDES que, dispondo de recursos públicos, assumiu efeitos danosos sobre o única fonte de fomento brasileira? E a ajuda às empresas de comunicação? E às empresas aéreas? 3 – E o caso CEMAR? Empresa privada abandona a concessão e deixa o abacaxi nas mãos da Eletrobrás? O intervencionismo, nesse caso, é bom? 4– Ajuda do Banco Central para a salvação de instituições financeiras pegas pela aventura cambial que o país teve que passar? 5– Imposição de garantia de compra da energia do PROINFA (maioria de projetos privados) pela Eletrobrás. 6– Absorção dos riscos dos empreendimentos (leia-se, intervenção) por parte do Estado no Projeto de Lei do PPP? Chega a ser irônica a acusação de que “as correntes desenvolvimentistas estão condenadas a acabar no submundo das academias e a desaparecer das políticas públicas pela incapacidade de pôr as idéias em prática”. É exatamente essa a resultante das “idéias” desses críticos, que só conseguiram crescimentos pífios, desemprego, aumento da miséria e violência urbana, aumento da informalidade e destruição da capacidade do estado intervir a favor da sociedade. São os arautos da substituição da “era Vargas” pela era “Não há vagas”. CHICO SANTOS No debate, promovido pelo Ibmec Educacional, o economista Eduardo Giannetti da Fonseca disse que vê o governo Lula “como um cérebro com dois hemisférios que não se comunicam”. Ele disse temer que no embate das duas “personalidades” vença o lado que chamou de “intervencionista e estatizante”, o que poderia levar o governo “a uma guinada populista”. Segundo o economista, em um dos lados do cérebro estão o BC e a Fazenda, que, segundo ele, fazem um bom trabalho na política macroeconômica. O pessimismo de Giannetti foi partilhado pelos outros participantes: o ex-presidente do BC Gustavo Franco, o ex-secretário do Ministério da Fazenda Claudio Considera e o presidente do Ibmec, Claudio Haddad. Franco concordou com a teoria do cérebro dividido, mas disse que não teme a vitória do lado “errado” porque o mercado não aceitaria e haveria fuga de capitais. Afirmou que a ação do mercado tira do governo a “liberdade de experimentar políticas heterodoxas”, chamou as correntes desenvolvimentistas de “patrulhantes” e disse que elas estão condenadas a acabar “no submundo das academias e a desaparecer das políticas públicas” pela incapacidade de pôr as idéias em prática. Questionado sobre se o núcleo heterodoxo do governo estaria no BNDES, Franco disse que sim. Por intermédio da sua assessoria, o senador Mercadante deu a seguinte resposta à declaração de Franco: “Devemos estar atentos ao populismo e aos erros do passado para não repetirmos a trágica experiência do populismo cambial, cuja autoria tem CIC, RG e endereço”. A frase é uma alusão à sobrevalorização do real na época em que Franco foi diretor e presidente o BC (1994-1999). A Folha enviou e-mail à assessoria de Lessa, mas não obteve resposta até o fechamento desta edição. Tavares não foi localizada
Economista teme lado “estatizante e intervencionista” do governo Lula (Folha de SP 08/07)
DA SUCURSAL DO RIO
Reunidos ontem em debate no Rio, economistas alinhados com o pensamento liberal colocaram em dúvida a sustentabilidade do crescimento atual da economia.
Para ele, “se o presidente do BNDES [Carlos Lessa] e as pessoas que pensam como ele, como a professora Maria da Conceição Tavares e o senador Aloizio Mercadante [PT-SP], tivessem mais influência na política macroeconômica, tudo seria diferente”.