Está difícil engolir essa!
O cenário da reportagem abaixo chega a provocar engulhos quando se junta as cifras ligadas ao setor elétrico pós privatização: Conta do ressarcimento de "prejuízos" pelo racionamento R$ 7,3 bi, financiado pelo BNDEs (dinheiro público). Conta da absurda energia emergencial, paga pelo consumidor, que irá "hospedar" usinas a DIESEL por 3 anos e meio, R$ 8 bilhões podendo atingir R$ 16 bilhões. Desembolso do BNDES só para o setor elétrico R$ 5 bi. Agora mais esse absurdo. Enquanto recebe dinheiro público de um lado e do consumidor por outro, as empresas enviam por volta de R$ 3 bilhões para suas matrizes. Caso suas pretensões futuras sejam atendidas, a tarifa poderá subir mais do que 30%, fora as correções cambiais embutidas… Sal de frutas por favor!
Setor elétrico é campeão de remessas
Maiores distribuidoras enviaram a suas matrizes no exterior quase R$ 1 bilhão entre janeiro e julho
Clarissa Lima
BRASÍLIA – Pelas contas do Banco Central, as empresas do setor elétrico ostentaram este ano uma saúde financeira invejável. Entre janeiro e julho, distribuidoras e geradoras privadas enviaram ao exterior para seus controladores um total de US$ 918 milhões. Neste período, o setor elétrico foi o que mais remeteu dinheiro para o exterior. No comparativo com o primeiro semestre de 2001, a remessa de dólares foi de apenas US$ 99 milhões. Curiosamente, a maior fatia do montante enviado este ano, exatos US$ 838 milhões, foi remetida em junho, quando o real iniciou o processo de desvalorização e a cotação do dólar atingiu R$ 2,84.
O fluxo de recursos para o exterior vai na contramão das demonstrações contábeis recentes e do discurso pessimista das empresas. Para o governo federal, o setor se queixa de um prejuízo conjunto de até R$ 4 bilhões com a queda de 13% no consumo de energia e reivindica uma mudança nas regras da revisão periódica das tarifas. A alteração pode significar um reajuste maior na conta de luz, a partir de 2003. Nos últimos balanços financeiros, as dez maiores companhias apresentaram prejuízos de R$ 1,3 bilhão. Se não tivessem mandado recursos para fora não haveria prejuízo algum, já que a remessa foi equivalente a R$ 2,4 bilhões pela cotação do dólar na época. Em outras palavras, o setor teria ficado com R$ 1,1 bilhão em caixa.
As remessas de dólares foram feitas a título de amortização de empréstimos intercompanhias. Ou seja, dinheiro que as empresas brasileiras remeteram para suas controladoras no exterior como pagamento de pedidos de recursos.
– Esses recursos foram enviados como forma de remunerar os acionistas estrangeiros. Uma maneira de enviar recursos de forma camuflada, opina Mauricio Tolmasquim, professor da Coppe-UFRJ e especialista no setor elétrico. Tolmasquim acredita que as controladoras internacionais obrigaram as empresas brasileiras a remeterem recursos para cobrir os prejuízos que estão tendo em suas sedes. As controladoras das principais distribuidoras do país estão em grave crise nos seus países de origem.
Este é o quadro das americanas AES e Enron, que no Brasil, detêm as concessões das distribuidoras Eletropaulo, AES Tietê e Elektro, além de empreendimentos em geração e transporte de gás. A espanhola Iberdrola, controladora de três distribuidoras no Nordeste, também está com problemas de caixa devido ao prejuízo de suas empresas na Argentina. Já a EDF (França) desistiu de investir no Brasil e está disposta a redirecionar seus investimentos para a Europa. A multinacional controla a Light.
Para Armando Franco, da consultoria Tendências, o envio de dinheiro foi feito devido à incerteza eleitoral.
– Os investidores estão assustados e aumentando as remessas para o exterior, justifica Armando Franco.
O Jornal do Brasil procurou a direção das sete maiores distribuidoras de energia do país cujos controladores são grupos estrangeiros. A Elektro (Enron), a AES Sul (AES) e a Cerj (Endesa) não retornaram as ligações. A Celp (Iberdrola) e a Light (EDF) informaram que os diretores responsáveis pelo tema não estavam na empresa. A Eletropaulo (AES) informou que este ano só foram enviados dividendos ao exterior. Todas as informações disponíveis estão no balanço financeiro da empresa e o restante, alegam assessores da diretoria, envolve dados sigilosos. A Coelba informou que este ano foram enviados ao exterior US$ 35 milhões para pagamentos de juros e empréstimos do Banco Interamericano de Desenvolvimento. A outra parcela foi para empréstimos sindicalizados.
Endividamento do setor atinge R$ 32 bi
Alta do dólar ameaça grandes grupos
BRASÍLIA – As distribuidoras de energia acumulam dívidas de R$ 32 bilhões. Deste total, R$ 22 bilhões são em moeda estrangeira, a maior parte em dólar. Com a alta da moeda americana, desde o início de junho, este valor foi aumentado em pelo menos 48%. O levantamento foi feito pelo professor Maurício Tolmasquim, da Coppe-UFRJ, a partir de dados dos últimos balanços financeiros das empresas.
O alto endividamento na moeda americana deve comprometer seriamente a saúde financeira das empresas a curto prazo, já que 30% destes valores têm vencimento até o fim de 2003. A AES Sul é a empresa com maior percentual de endividamento em moeda estrangeira: 93%. A distribuidora é uma das que estaria à venda devido às dificuldades financeiras, segundo informações que circulam no mercado de energia. A Eletropaulo, do mesmo grupo controlador, têm 82% da sua dívida em moeda americana e também estaria à venda. No caso da Light, 85% dos débitos são dolarizados.
– O fato de estarem mal diz respeito a uma política inadequada de endividamento. Muitos grupos contraíram empréstimos para comprar empresas na época da privatização – explica Tolmasquim.
Em agosto, a Eletropaulo conseguiu quitar os débitos vencidos com ajuda do BNDES, que liberou créditos milionários para repor as perdas com o racionamento. Entre agosto e setembro, a distribuidora tem um débito de US$ 600 milhões para quitar.
– O resultado disso tudo é explosivo e vai continuar durante o próximo ano – prevê Tolmasquim.
Segundo o especialista, as distribuidoras ficaram muito vulneráveis à variação cambial. A maior parte dos empréstimos foi contraído quando o câmbio entre o dólar e o real era praticamente de um para um.
De fora dos balanços
Empresas não contabilizam envio de recursos
BRASÍLIA – O Banco Central não divulga, por conta do sigilo bancário, o nome das empresas que enviaram os recursos. Mas o Departamento de Capitais Estrangeiros e Câmbio do BC confirmou ao Jornal do Brasil que o dinheiro foi remetido exclusivamente por empresas do setor elétrico.
A origem das remessas ainda é um mistério . Os últimos balanços semestrais das principais distribuidoras do país controladas por multinacionais não indicam o envio de dinheiro para o exterior. A assessoria financeira da Associação Brasileira das Distribuidoras de Energia Elétrica (Abradee) também não identificou a origem das remessas. Tampouco a Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel). Os dados não constam dos fluxos de caixa enviados mensalmente para o órgão regulador.
É a Aneel que autoriza pedidos de empréstimo entre empresas brasileiras e suas controladoras internacionais. A agência, no entanto, não faz o controle do pagamento. Procurada pelo JB , a direção da Aneel informou que o fluxo de envio de recursos para o exterior será acompanhado mais de perto pelo órgão, durante a fiscalização financeira regular.
Concessionárias, distribuidoras e geradoras são obrigadas a informar o valor do empréstimo e a forma de pagamento. Caso o fluxo de remessa sofra alteração – ou seja, se houver antecipação de pagamentos -, as empresas podem ser multadas em até 2% do faturamento.