Evidentemente pode-se admitir que as filhas tenham seu valor profissional. Também pode-se admitir que sigam a mesma carreira dos pais. No entanto, é estranha a falta de cuidado dos dirigentes do setor elétrico em em …

Evidentemente pode-se admitir que as filhas tenham seu valor profissional. Também pode-se admitir que sigam a mesma carreira dos pais. No entanto, é estranha a falta de cuidado dos dirigentes do setor elétrico em empregar pessoas que permitam tal desconfiança. Afinal, se a competência é indiscutível, o emprego poderia se dar fora da estrutura regulatória do setor. O ILUMINA está repleto de engenheiros eletricistas experientes e competentes que não tiveram a mesma sorte.


O outro tema das reportagens se refere ao custo dos respectivos orgãos. Os Estados Unidos, experientes no processo de desregulamentação da economia, estão justamente questionando o "custo da desregulamentação" produzido pela manutenção dos diversos orgãos que cuidam da manutenção do sistema de mercado. Impressionante é o valor levantado por estudiosos da economia americana como o total desses gastos: US$ 700 bilhões!!


A sociedade brasileira precisa refletir sobre esse "custo Brasil" escondido nas dobras da "saia prendada" do maravilhoso mundo da liberdade de mercado.



SALTO NO ESCURO

Contas do administrador do MAE, que emprega parentes de várias autoridades, estão sob investigação

Parado, mercado atacadista torra R$ 90 mi

DA SUCURSAL DO RIO


DA REPORTAGEM LOCAL


O novo mercado atacadista de energia emperrou e está desde abril sob intervenção federal. A Asmae, empresa privada criada para administrar esse mercado, emprega parentes de autoridades públicas e já consumiu R$ 90 milhões desde o início de sua implantação, em 1999.


As contas da Asmae (Administradora do Mercado Atacadista de Energia Elétrica) estão sendo investigadas pelo governo. Teoricamente, ela é mantida pelas grandes companhias de energia como Light, Eletropaulo ou Furnas, mas as despesas com sua implantação vêm sendo repassadas a todos os consumidores de eletricidade do país, por meio da conta de luz.


A Asmae emprega diretamente 111 pessoas, mas dois de seus melhores salários são pagos a Roseana Santos, filha do presidente do ONS (Operador Nacional do Sistema Elétrico), Mário Santos, e Maria Patrícia Arce, filha do secretário de Energia de São Paulo, Mauro Arce. Bons salários Roseana recebe R$ 11 mil por mês como assessora jurídica sênior. Patrícia Arce ganha R$ 9.000 como engenheira sênior, mais do que os R$ 5.500 que o pai recebe no governo paulista. Na Asmae, salário maior que o de Roseana e o de Patrícia só o do presidente, Mitsumori Sodeyama. Ele recebe R$ 25 mil por mês.


Maria Fernanda Lopes, filha do presidente da Eletronorte, José Antônio Lopes, também faz parte da família de funcionários da Asmae. É administradora sênior, com salário de R$ 4.000. A mulher de Mauro Arce, Arlete, presta serviços como professora de inglês terceirizada.


Além dos funcionários fixos, a Asmae tem 30 consultores, a maioria ex-empregados de estatais que foram privatizadas. Nessa situação estão Reinaldo Campos e Maurício Moura, respectivamente ex-diretor de Operações e ex-chefe do Departamento de Tarifas da Cesp. Ambos recebem R$ 18 mil por mês. Repasse autorizado


Os R$ 90 milhões gastos até agora na implementação da Asmae foram repassados para as contas de energia por autorização da Aneel (Agência Nacional de Energia Elétrica).


A conta de luz é uma fonte de receita apenas provisória, até que o mercado atacadista comece a funcionar de fato. A partir disso, a Asmae se sustentará sozinha com taxas de corretagem na compra e venda de energia elétrica.


Pela última previsão, essa independência deveria ocorrer no mês que vem. Como a implantação atrasou, a própria Asmae calcula que começará a se sustentar sozinha em janeiro do ano que vem. Os gastos da Asmae estão sendo questionados pela Aneel. Segundo o diretor da agência Jaconias de Aguiar, a Asmae apresentou orçamento de R$ 118 milhões para implantação do sistema, durante auditoria feita pouco antes da intervenção. ""O resultado da auditoria não foi satisfatório e faremos uma nova auditagem, mais aprofundada", afirmou.


Ele disse que a Aneel autorizou o repasse das despesas para as tarifas por se tratar de investimento pesado e não previsto nos editais de privatização.


Afirmou que, mesmo que a Aneel não autorizasse o repasse, os gastos acabariam recaindo de forma indireta sobre as tarifas como "despesas das concessionárias". Intervenção


O mercado está sob intervenção federal desde abril porque as distribuidoras e geradoras que administravam a Asmae fizeram um regulamento que não definia as garantias que deveriam ser exigidas dos participantes nem as penalidades para os infratores. Na intervenção, a Aneel destituiu os 26 membros do conselho consultivo da Asmae, definiu as regras que faltavam e decidiu que, daqui por diante, o mercado passa a ser fiscalizado por ela -como ocorre com as concessionárias. No lugar do conselho, foi criado um comitê de apenas seis membros, com a diferença de que nenhum deles pode ser empregado de empresas do setor. Aguiar, o diretor da Aneel, disse que disputas na cúpula da Asmae atrasaram as operações em mais de um ano. Um membro do conselho destituído afirmou à Folha que algumas empresas, menos interessadas na criação do mercado, atrapalhavam deliberadamente a tentativa de regulamentação para atrasar o início da operação.


Outro motivo para o fracasso, avalia a Aneel, foi o inchaço do conselho executivo da Asmae. O conselho, que deveria ter 14 membros, já tinha 26 pessoas quando foi destituído, em abril. Muitas companhias tinham vários representantes nesse conselho, com a intenção de influir o máximo possível nas definições da Asmae.


(ELVIRA LOBATO e DAVID FRIEDLANDER)


Arce nega pedido de emprego

DA REPORTAGEM LOCAL


O secretário de Energia de São Paulo, Mauro Arce, nega que tenha feito qualquer pedido para que sua filha, Maria Patrícia Arce, fosse contratada pela Asmae (Administradora do Mercado Atacadista de Energia Elétrica".


"Eu não pedi emprego para minha filha porque ela não precisou", disse.


"Ela é engenheira eletricista, conceituada no setor profissional", declarou.


Segundo Arce, sua filha trabalhava na Elektro, quando foi convidada para se mudar para a Asmae. "Ela é maior de idade, casada, tem autonomia e resolveu aceitar o convite", afirmou.


O secretário disse que não fez nenhum pedido a Mitsumori Sodeyama, presidente da Asmae e seu amigo, para que contratasse Maria Patrícia. Segundo Arce, a Asmae precisava de uma "boa profissional", foi ao mercado de trabalho e acabou contratando sua filha. "Ela é competente, viajou, fez cursos e teve o reconhecimento do mercado de trabalho", declarou o secretário. Segundo Arce, o que ocorreu não foi nepotismo (ato em que uma autoridade favorece parentes contratando-os para cargos públicos). "Seria [nepotismo" se eu tivesse contratado minha filha para trabalhar na Cesp [Companhia Energética de São Paulo" ou na própria Secretaria", afirmou, para concluir em seguida: "Mas tomei cuidado para não fazer isso, embora ela seja uma excelente profissional". Injustiça


O secretário, que ontem esteve em Piracicaba, reunido com o governador Geraldo Alckmin (SP), disse achar a injusta a comparação entre o seu salário (R$ 5.500) e o de sua filha (R$ 9.000).


"Não tem nada a ver. Se eu fosse para a iniciativa privada, com certeza ganharia mais. Mas esse é o salário de secretário, fazer o quê? Fui convidado pelo governador e aceitei." Carreira


Ele diz que o caso de sua filha é o mesmo que de Roseana Santos, filha do presidente do ONS (Operador Nacional do Sistema Elétrica), que recebe R$ 11 mil por mês da mesma Asmae.


"Os filhos às vezes querem seguir a carreira dos pais. É assim com médicos, com jornalistas e com os engenheiros. Nossas filhas não podem trabalhar com engenharia elétrica? Nós [os pais" não podemos torcer para o sucesso delas?", questionou.


Arce fez questão de ressaltar que não pediu emprego à filha, que a Asmae pertence à iniciativa privada e que as pessoas de sua família "precisam trabalhar para sobreviver".


Disse também que Maria Patrícia tem trabalhado mais de 12 horas por dia -por causa de problemas ligados ao plano de racionamento- e que a Asmae enfrenta problemas por causa de divergências entre os agentes distribuidores.


Mitsumori Sodeyama, o presidente da Asmae, nega que haja favorecimento na escolha de funcionários e diz que o único critério para contratação é a competência. "Gostaria de ter mais amigos assim. A Patrícia é a melhor funcionária que tenho."


Folha de São Paulo: São Paulo, domingo, 03 de junho de 2001


SALTO NO ESCURO

Conta de luz paga parentes de autoridades

Administradora do Mercado Atacadista de Energia já consumiu R$ 90 mi Empresa, que deveria estar operando desde 99, está sob intervenção do governo


ELVIRA LOBATO DA SUCURSAL DO RIO DAVID FRIEDLANDER DA REPORTAGEM LOCAL Roseana Santos, filha do presidente do ONS (Operador Nacional do Sistema Elétrico), recebe R$ 11 mil por mês. Maria Patrícia Arce, filha do secretário de Energia de São Paulo, tem salário de R$ 9.000. A remuneração das duas, além de outras 109 pessoas, é paga por todos os brasileiros que têm luz em casa. As duas trabalham na Asmae (Administradora do Mercado Atacadista de Energia), empresa que administra uma espécie de bolsa de mercadorias de energia. A empresa, que já consumiu R$ 90 milhões, está hoje sob intervenção do governo federal. O mercado atacadista de energia deveria ter entrado em funcionamento em julho de 99, atrasou e só deve começar a operar no ano que vem. Até lá, as despesas continuam sendo bancadas pelo consumidor.




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