Folha de São Paulo
19 de junho de 2.001
Corrupção nova e velhaEMIR SADER
O governo atual, reunindo a velha e a nova direita, une ao mesmo tempo a velha e a nova corrupção. A velha, a do patrimonialismo, a do roubo direto dos bens públicos, a do uso da máquina do Estado para vantagens privadas, mostrou-se na discussão da cassação do mandato e três senadores. A outra é mais inovadora e não está tipificada ainda como crime -até porque "quem faz a lei faz a armadilha" e foram eles que reformaram a Constituição e estão constantemente legislando em causa própria.
A nova corrupção está intimamente ligada ao processo acelerado de privatização do Estado , processo do qual o governo FHC foi o agente nos anos 90. Não é mais necessário roubar: basta governar favorecendo os grandes grupos econômicos que financiam as campanhas eleitorais.Há um vínculo direto entre o financiamento das campanhas presidenciais de FHC -assim como as dos parlamentares- pelos grandes bancos e as prebendas recebidas -tão bem exemplificadas no Proer. Essas prebendas estão presentes em tantas outras políticas governamentais e se spelham vergonhosamente nos balanços com superávits extraordinários dos grandes bancos no Brasil.
Os processos de privatização, assim como os de desvalorização da moeda -com ou sem informações privilegiadas-, se constituíram num outro momento da nova corrupção: tudo "dentro da lei", uma lei financiada pelos que pagaram as campanhas eleitorais dos que retribuíram com vantagens econômicas e financeiras evidentes.
O atual ministro-chefe da Secretaria Geral da Presidência escreveu na Folha ("Tendências/Debates", pág. A3, 4/5) que o governo para o qual trabalha atualmente "reduziu drasticamente os espaços do clientelismo e da apropriação privada do bem público", mas ele teme a CPI da orrupção, que diria a verdade sobre a primeira parte de sua afirmação. Quanto à segunda, ela só é verdade porque esse governo privatizou bens públicos fundamentais como a Vale do Rio Doce -e, por falar nisso, onde foi parar o dinheiro da Vale? Quantos meses de juros da dívida ele serviu para pagar?
Não por acaso um prócer de um governo essencialmente corrupto, apoiado numa base política que fabrica tantos escândalos quanto os ministros econômicos fabricam previsões falsas, refere-se aos parlamentares então à beira da cassação como "políticos de grande prestígio e de inegáveis serviços prestados ao país", confundindo o país com o governo FHC.
O combate à corrupção tem sido, aliás, vítima de manipulações ideológicas e midiáticas, mas não no sentido em que o governo e os acusados reclamam da imprensa. Essas manipulações existem a ponto de servir para que as grandes corporações e os ideólogos neoliberais consigam debilitar a ação política e as instituições parlamentares, governamentais e partidárias como lhes convêm para fazer prevalecer ainda mais os seus interesses privados.
Os EUA foram co-patrocinadores de um "fórum global sobre a luta contra a corrupção e pela preservação da integridade" (sic), em Haia, no mês passado. O país que tornou a atividade política uma atividade essencialmente mercantil, em que tudo se vende, tudo se compra, em que o atual presidente retalha o governo entre as grandes corporações que financiaram a sua bilionária campanha eleitoral, se arvora em patrono de uma campanha contra a corrupção.
Por trás estão as mesmas corporações multinacionais da indústria e das finanças que criaram uma organizações não-governamentais como a Transparência Internacional -conforme denúncia de Bernand Cassen, no número de maio do "Le Monde Diplomatique"-, que, pela própria origem, se dedicam a criticar os governos da periferia do capitalismo, construindo rankings de graus de corrupção, mas poupando os orruptores, dentre os quais terminariam sendo incluídos alguns dos próprios financiadores de entidades como a citada.
Quem estiver disposto a combater a velha e a nova corrupção não pode deixar de dar o combate frontal, por exemplo, aos paraísos fiscais, países marginais que alugam as suas soberanias para os negócios mais escusos de lavagem de dinheiro do narcotráfico e do comércio clandestino de armamentos, entre outros. No entanto esses paraísos fiscais, somados, se tornaram o terceiro maior exportador para o Brasil, pesar de não produzirem nada, sendo apenas ponte para reciclagem de recursos, que saem limpos e sem pagar impostos para vir a países que têm governos coniventes como o brasileiro.
É preciso fazer uma revisão dos processos de privatização, que, financiados com recursos públicos, transformaram os serviços públicos em mercadorias e fontes de enriquecimento privado. Mas o governo se opõe a isso. O mencionado ministro, por exemplo, defende o indefensável: um governo que institucionalizou a prática da corrupção mediante a privatização sistemática dos bens públicos para financiar o pagamento de ívidas feitas para sustentar uma estabilidade bichada da moeda, em risco com qualquer instabilidade externa.
Por isso a percepção consolidada da população é a de que FHC e seu governo estão visceralmente comprometidos com a corrupção. E assim passarão à história: como herdeiros da velha corrupção e introdutores da nova, como os maiores destruidores dos bens públicos e do espírito público na história brasileira, como corruptos e corruptores. Por isso o medo da CPI da corrupção.
Emir Sader, 57, é professor de sociologia da USP e da Uerj e autor de "Século 20: Uma Biografia Não-Autorizada" (Perseu Abramo), entre utros.