
JB 02/12/98
Blecaute e caos na Zona Norte
Rompimento de cabo da Light no Morro da Formiga deixa cinco bairros às escuras, tumultua trânsito e provoca medo de assaltos
Foto de Ismar Ingber
Cerca de 500 mil moradores da Tijuca, Andaraí, Rio Comprido, Grajaú e Vila Isabel ficaram às escuras no fim da tarde e em parte da noite de ontem. A falta de luz, segundo a Light, foi causada por um rompimento de um cabo de uma linha de transmissão de energia no alto do Morro da Formiga, na Tijuca. O acidente aconteceu às 16h49 e o fornecimento foi sendo restabelecido gradativamente. A Light informou que às 20h37 toda a região voltou a ter luz, com o religamento da linha auxiliar que, desde a manhã, estava parada para manutenção.
O apagão causou inúmeros transtornos aos moradores e comerciantes da região. Segundo moradores, várias pessoas ficaram presas em elevadores. Mas até as 19h40, o quartel do Corpo de Bombeiros de Vila Isabel só recebeu três chamados de pessoas presas. No prédio comercial da Rua Conde de Bonfim, 370, por exemplo, os bombeiros não foram acionados. O resgate foi comandado pelo próprio ascensorista Carlos Alberto Fontes, que em cinco minutos conseguiu abrir a porta do elevador e retirar quatro passageiros.
Vários sinais de trânsito apagaram e, com o número insuficiente de operadores de trânsito da CET-Rio, as ruas principais ficaram engarrafadas na hora do rush. De acordo com a Secretaria Municipal de Trânsito, foi montado um esquema de emergência com o reforço de 50 operadores do órgão e da CET-Rio, além do apoio dos guardas municipais. O esquema de trânsito foi reforçado nas ruas próximas à Praça Saens Peña, na Avenida
Maracanã e nas ruas José Higino e Pinto Figueiredo. A reportagem do JORNAL DO BRASIL, no entanto, só viu guardas municipais na Praça Saens Peña. O trânsito na Rua Haddock Lobo, por exemplo, estava um caos por volta de 19h30.
PM – Apesar da escuridão, a Polícia Militar não compareceu às principais vias da Tijuca, deixando comerciantes e moradores assustados. O advogado Ivan Pereira, 53 anos, morador da Rua Santa Sofia, na Tijuca, contou que o motorista de um carro passou atirando para o alto durante o apagão. Ele reclamou da falta de policiamento ontem. "A Tijuca já é um bairro perigoso. Com a falta de luz, o risco de assaltos aumenta. Fiquei com medo de sair e ser assaltado", afirmou.
Na Conde de Bonfim, a Drogaria Pacheco baixou as portas às 19h, uma hora antes do horário de fechamento, com medo de assaltos. Dois quarteirões adiante, o gerente da Drogaria Granado, Leno Farias, enfrentou o perigo e ficou com as portas abertas, apesar de a noite estar chegando. "É um serviço essencial e não posso fechar. Não vai acontecer nada", disse, torcendo para tudo dar certo até as 23h, quando pretendia fechar.
Mais que a escuridão, o comércio que lida com alimentos teve que enfrentar o risco de ver o estoque de perecíveis estragar. "A loja fecha às 19h, mas não posso sair enquanto a luz não voltar para religar o frigorífico, que está com cerca de 200 quilos de carne", contou Marcelo Viana de Oliveira, gerente do açougue Encontro dos Pássaros, na Rua Major Ávila, na Tijuca.
Além de seu expediente ter terminado somente quando a luz retornou ao bairro, o movimento do açougue foi prejudicado. "Com o calor, a carne fica feia e ninguém quer comprar", explicou, cercado por sete velas para iluminar o ambiente escuro. Os restaurantes e bares também temiam pela comida e bebida estocadas e pela debandada dos clientes.
Fogão – No restaurante Frango Veloz, na Rua General Rocca, Tijuca, a comida estava sendo toda preparada no fogão à gás, pois as grelhas e fritadeiras estavam desligadas. Quem jantou ficou sem o café. Os garçons temiam pela féria, pois, se a luz não voltasse antes de escurecer, a gerente ia fechar as portas. A irritação aumentou com a dificuldade de ligar para a Light.
A dona de casa Olga Perth, 52 anos, do Grajaú, reclamou do serviço de atendimento telefônico da Light. "Ligamos e não conseguimos saber o que acontecia. Minha filha estava digitando um trabalho no computador e perdeu tudo. Sem contar que toda a comida guardada no congelador acabou degelando", reclamou Olga.
Os comerciantes também ficaram irritados com o atendimento da Light. "Estou tentando falar com a Light desde o instante em que a luz apagou e só dá ocupado. Quero saber quando a luz volta, porque tenho geladeiras no mercado", disse Mercedes Fernandes, gerente do Small Marketing, na Rua Major Ávila, Tijuca. Para atender aos clientes fiéis, Mercedes percorria as prateleiras da loja para saber o preço dos produtos, uma vez que a leitura ótica do computador não funcionava.
Até as 21h, os técnicos da Light ainda não sabiam a razão do acidente e quando a linha danificada seria restabelecida. O fornecimento destes bairros – que têm 120 mil imóveis na carteira de clientes da Light – ainda corre riscos, no caso de uma sobrecarga, de pequenas interrupções até que o defeito seja consertado. A região é abastecida por três subestações de energia: a Uruguai, que atende da Saes Peña à Muda; Rio Comprido; e Leopoldo, que abastece o Grajaú e Vila Isabel. As linhas são responsáveis pela interligação e transmissão da energia gerada nestas subestações.