Jornal Hoje em Dia, Belo Horizonte 06/01/2002
O racionamento acaba?
Como se pode verificar, o ILUMINA não discorda tanto assim do representante dos grandes consumidores. Em outras palavras o Dr. Paulo Ludmer, conhecedor que é do setor, denuncia a mesma falta de segurança que sempre mostramos. A única diferença é que nós identificamos e apontamos o principal culpado da deteroração da garantia e da escalada de preços do setor: O inconveniente, caro, ineficiente e inapicável modelo mercantil que o governo insiste em implantar. Um dia, o Dr. Paulo chega lá.
É preciso prudência
Paulo Ludmer (*)
Se o Governo federal for apressado, termina o racionamento antes do que pode e deve. Se for lento, pune a economia brasileira desnecessariamente. Como acertar o passo se a variável decisiva é a energia afluente nos reservatórios de acumulação hidrelétricos? Como lidar com cálculos aleatórios de estocástica de águas incertas?
Dar palpites e jogar pedras é fácil. Difícil é operar o sistema elétrico considerando ainda outras variáveis (às vezes surpreendentes) como a entrada (ou saída) em operação de novas unidades geradoras; a posta em marcha de novas linhas de transmissão; acidentes com as mesmas linhas; fenômenos sociais e humanos como greves e que tais.
Também há que adivinhar, com tecnicalidade e segurança, o comportamento do lado da carga. E se a economia mundial voltar a crescer antes do presumido? E se o mundo das commodities (falemos das eletrointensivas) ganhar alento nas bolsas internacionais? E se Índia e Paquistão sustam o diálogo? E Israel? E Iraque, Somália, Sudão?
Portanto, não se trata somente de curvas guia (volume útil de reservatórios), tampouco de pluviosidade acima ou abaixo da média, inteligentemente pilotados pela Câmara de Gestão do Racionamento. Se a equação ainda não se mostra totalmente complexa, basta acrescentar-lhe que 2002 é ano eleitoral em múltiplas instâncias, pressionando contra o comedimento na gestão do racionamento.
Mantidas sem surpresas as variáveis de hoje, o Sul continua livre e o Norte já se safou do constrangimento elétrico. O Sudeste e o Centro Oeste dão sinais de que voltam à normalidade até o final dessa estação chuvosa. O problema mais enigmático está no Nordeste. Não se pode festejar reservatórios em janeiro com preenchimento pouco acima de 15% da capacidade.
Se em 2001, janeiro e fevereiro revelaram-se secos em relação à tradição de precipitações abundantes, nenhum técnico em sã consciência excluiria hoje todos os cenários radicais no leque dos possíveis. Observe-se que 2001 apresentou a pior série histórica de energia afluente em 70 anos de acompanhamento da bacia do Rio São Francisco. Até a conversa de desvio do rio cessou durante o fenômeno. E se um ciclo de anos secos na região apenas começou?
Neste quadro, a ABRACE, que congrega 53 complexos industriais no País, uma terça parte da energia elétrica fabril utilizada no Brasil, defende prudência na condução do fornecimento do insumo. Vale dizer, que não se desmonte todo o sistema que faz funcionar o racionamento até hoje, antes das certezas de que a segurança irreversível tenha sido atingida.
Ao mesmo tempo, repudia o tratamento discriminatório destinado à indústria, agente que suporta em larga escala e rigorosa disciplina os cortes no consumo. Também não aceita o modo pelo qual a política tarifária vem sobrecarregando as plantas industriais produtivas do país, com reajustes extraordinários duas vezes e meia superiores aos das residências. Entendemos que a conta chegará, dia ou outro, ao consumidor final de produtos acabados.
(*)Jornalista, engenheiro, escritor e diretor-executivo da ABRACE – Associação Brasileira de Grandes Consumidores Industriais de Energia
Não há evidências
Roberto Pereira d’ Araujo (*)
Os consumidores brasileiros, mostrando grande espírito de colaboração e sacrifício, esperam pelo fim do racionamento. Nada mais justo, pois eles fizeram sua parte. Mas será que estaremos livres definitivamente desse aborrecimento? Infelizmente, a resposta é negativa, pois não há evidências significativas na retomada dos investimentos do setor elétrico.
Para entender o complexo sistema hidrotérmico brasileiro, é preciso deixar bem claro que todo sistema hídrico deve trabalhar com uma margem de segurança, uma capacidade ociosa, que garanta o suprimento mesmo na ocorrência de secas severas. É exatamente esse aspecto que se deteriorou na reformulação adotada no período pós privatização.
Para ilustrar com alguns números as dimensões da carência, basta lembrar que em 1985 consumíamos 164 TWh atendidos por uma capacidade instalada de 41 GW. Em 2000, passamos a consumir 310 TWh atendidos por uma capacidade instalada de 68 GW. Uma conta simples mostra que, enquanto a capacidade cresceu 65%, o consumo cresceu 89%. Grosso modo, o "passivo" de investimentos em novas usinas nesse período pode facilmente atingir 20%, mostrando que não é pura "coincidência" o percentual exigido no racionamento.
Lembrando que a atual tarifa paga regiamente pela segurança, é importante notar que as novas usinas vêm apenas repor a margem perdida. Recompor a garantia e se preparar para o crescimento do mercado exige muito mais do que está sendo feito.
Apesar dessa deterioração estrutural, o setor elétrico brasileiro é capaz de suprir o consumo sem racionamento em 2002. Para isso, basta chover. E a conta é simples! Basta que São Pedro nos forneça uma energia afluente acima da média. O Brasil é assim. Não é raro que, de um ano para o outro, o santo nos forneça um incremento de água suficiente para abastecer todo o consumo do Estado de São Paulo. Só que isso não isenta a "dívida" que o novo modelo privado tem com o consumidor.
O importante é que a sociedade brasileira entenda que, se não houver racionamento, apenas ela própria e a meteorologia são dignas de aplausos. O inconveniente sistema mercantil que o Governo insiste em aprofundar, com a cisão das atividades de transmissão e geração de Furnas e Chesf, ainda não produziu nenhum resultado. Muito pelo contrário. Enquanto isso, é bom atentar para o que está ocorrendo nos preços de energia brasileiros. Os países abençoados com energia hidráulica praticam as menores tarifas mundiais. O modelo de mercado, que nem sequer funciona, conseguiu que o Brasil desse vexame nesse seleto clube. Já ultrapassamos o dobro da tarifa do Canadá, Noruega, e até da Colômbia.
Teremos energia no futuro? A que preço?
*Diretor do Instituto de Desenvolvimento Estratégico do Setor Elétrico ILUMINA