MAIS APAGÕES ? JB 13/02/02
Joaquim Francisco de Carvalho
Para explicar a fragilidade do sistema elétrico , têm surgido muitos "entendidos" , que apresentam diagnósticos e propostas das mais extravagantes . Um desses , que já ocupou altos cargos estaduais e federais , disse outro dia na televisão que o sistema elétrico brasileiro é muito extenso para ser interligado e , por isso , deveria ser desmembrado em sistemas menores , para que problemas localizados não se propagassem pelo país inteiro . Evidentemente esse neo-especialista ainda não sabe que uma das maiores vantagens do sistema elétrico brasileiro é precisamente a diversidade de regimes hidrológicos entre as bacias fluviais , cuja interligação permite uma economia da ordem de 22% nos investimento para a expansão da capacidade conjunta do parque gerador . Desmembrar o sistema o equivale a jogar fora investimentos como Itaipu e Tucuruí , somados .
Na verdade , os apagões de março de 1.999 e de janeiro passado deixaram claro (apesar da escuridão provocada) que o sistema elétrico brasileiro está operando com alto risco por falta de investimentos .
Aqui peço licença aos leitores , para incomodá-los com uma digressão um pouco maçante , porém necessária para a compreensão do problema .
A estabilidade dinâmica de qualquer sistema elétrico é , por um lado , diretamente proporcional à sua inércia elétrica e , por outro lado , é inversamente proporcional ao que , no jargão especializado , chama-se impedância do sistema , na freqüência considerada (60 herz , no caso) . Tal impedância decorre de certas características eletromagnéticas dos elementos que dão passagem aos fluxos de energia injetados no sistema . Assim , por exemplo , quanto mais numerosas forem as linhas de transmissão entre os nós da rede interligada (usinas geradoras e subestações) , menor será a impedância . Por conseguinte , se cair uma linha de transmissão , a impedância aumenta , provocando alterações de freqüência que tendem a se propagar . O sistema sai então de sincronismo , num processo de oscilações de intensidade crescente , dando origem a sobrecargas que provocam a atuação dos dispositivos de proteção das diversas unidades , desligando tudo . É o chamado "efeito cascata" , que culmina com o apagão generalizado .
Se existirem caminhos alternativos para dar passagem à energia que fluía pela linha avariada , a queda de estabilidade pode ser suportada pelo sistema , desde que haja uma margem de capacidade de geração (reserva girante) com inércia elétrica suficiente para repor aquela energia . É necessário também que se faça a "ilhagem" do subsistema comprometido , para que as oscilações não se propaguem .
No caso do recente apagão , este teria sido evitado se tivessem sido feitos os investimentos para equipar o sistema , a fim de que o subsistema atingido pudesse ser automática e instantaneamente desconectado do sistema interligado , por meio de controladores lógicos programáveis . A região de Ilha Solteira-Araraquara teria então sido "ilhada" , no momento da queda dos sistemas de transmissão , e – uma vez diagnosticado e resolvido o problema – teria sido reconectada , sob o comando do Operador Nacional do Sistema (ONS) , em sua atividade de despacho de carga , sem comprometer a estabilidade do sistema como um todo . Evidentemente , para que tudo funcionasse a contento , a rede de transmissão deveria ter redundâncias , ou seja , caminhos alternativos para escoar a energia que fluía pelo subsistema "ilhado" . Além disso , as unidades geradoras que alimentam a região deveriam ter suficiente reserva girante .
Cumpre lembrar que os investimentos no setor elétrico começaram a ser cortados na administração Sarney , quando o Banco Central proibiu o BNDES e o Banco do Brasil de financiar as estatais em seus planos de expansão e modernização . A situação piorou quando as autoridades fazendárias do atual governo , obedientes ao FMI , proibiram aquelas empresas de reinvestir até seus próprios lucros em novos projetos . E , ao contrário do que esperavam os "gênios" do BNDES , as privatizações não contribuíram para expandir o sistema , pois consistiram simplesmente em entregar a particulares o que já existia e funcionava muito bem . Ocorre que grupos privados seguem sua própria lógica , preferindo explorar o que já existe e dá lucros , em vez de investir em novos projetos , de modo que o sistema agora não dispõe de reserva girante suficiente , nem de linhas de transmissão adequadas , operando portanto no limite de segurança . É pois fácil prever que outros apagões vêm por aí , como acontecia antes da administração do Presidente Juscelino Kubitschek , quando o setor era inteiramente controlado por grupos privados .
Joaquim Francisco de Carvalho é consultor no campo da energia . Foi Coordenador do Setor Industrial do Ministério de Planejamento e engenheiro da CESP .
JORNAL DA CIDADE, Bauru, 12 de Fevereiro de 2002
Para Sindicato dos Engenheiros, o governo fará a população pagar por uma medida que pode não ser usada.
O Sindicato dos Engenheiros no Estado de São Paulo (Seesp) acredita que o seguro para evitar racionamento de energia elétrica até 2006 – que começará a ser cobrado no próximo mês e significará aumento de 2,13% na conta dos clientes da Companhia Paulista de Força e Luz (CPFL) – penaliza, mais uma vez, o consumidor com uma medida equivocada e privilegia interesses privados. A avaliação é do diretor do sindicato, Carlos Augusto Ramos Kirchner.
Para a maioria dos consumidores, o aumento também ficará em torno de 2%. O Governo Federal está contratando geradores térmicos, ao custo anual de R$ 1,3 bilhão, que, a princípio, não irão gerar nenhuma energia. Eles desempenharão a função de uma reserva estratégica e só serão acionados se um novo racionamento de energia se tornar inevitável e iminente.
"O governo queria vender a Cesp (Companhia Energética de SãoPaulo) , inteira, pelo preço absurdo de R$ 1,7 bilhão e agora pagará R$ 1,3 bilhão por ano, até 2006, para alugar – e não comprar – uma coisa que provavelmente nem será utilizada", compara Kirchner.
Como resultado, todas as contas de energia elétrica, residenciais, industriais e comerciais, receberão um acréscimo de mais 2%, excetuando-se apenas os consumidores enquadrados como de baixa renda.
"Trata-se do que os técnicos chamam de "reserva fria", uma vez que os geradores térmicos não se encontram conectados ao sistema elétrico. Não terão quaisquer influência, por exemplo, para evitar o apagão ocorrido no último dia 21 de janeiro", afirma Kirchner.
De acordo com ele, o custo do MWh (megawatt-hora), que está sendo contratado por volta de R$ 100,00, é mais que o dobro do que custa atualmente a geração hidrelétrica, com a diferença de que sequer será gerado.
"Gastos desnecessários"
Para o Seesp, a medida não é das mais acertadas. "Serão gastas dispendiosas importâncias para, em 2006, quando terminarem os contratos, as empresas (a maioria estrangeiras) que estão locando esses geradores os levarem embora do País, possivelmente ainda encaixotados, pois a probabilidade de seu uso é pequena", observa o diretor do Seesp.
De acordo com ele, caso haja necessidade de acionar esses geradores, ainda será paga a diferença entre o valor citado e o preço da eletricidade no Mercado Atacadista de Energia (MAE). Esse custo será, mais uma vez, repassado à conta de todos os consumidores, desta vez excluindo os consumidores residenciais que consumam até 350 kWh por mês.
Para o Seesp, trata-se de mais uma distorção que o modelo do setor elétrico brasileiro está produzindo ao tratar a energia elétrica como uma mercadoria ("commodity"). Na avaliação de Kirchner, a medida vai de encontro aos interesses privados, que não veriam com bons olhos uma exagerada expansão da oferta de energia.
"Como a absurda lógica do modelo elétrico, que quanto mais faltar energia mais sobe o preço – pela lei da oferta e procura -, o tal seguro da energia não irá influenciar os preços praticados no mercado e se constituirá numa maior segurança para os investidores privados implantarem novas obras para, efetivamente, aumentar a oferta da energia e terem o retorno financeiro esperado", diz o diretor do sindicato.
Para o Seesp, o sistema elétrico brasileiro deveria ter uma "folga" (outras alternativas de funcionamento) para que sua operação fosse feita com segurança, como sempre teve até 1995 e que já estava embutida nas tarifas. "Agora, troca-se essa folga por uma reserva fria muito mais precária e cara para os consumidores", conclui Kirchner.
O engenheiro e diretor do Seesp também faz críticas à Câmara de Gestão da Crise de Energia (GCE), dizendo que o "ministro do apagão", Pedro Parente, fez tudo o que as empresas pediram durante o período de racionamento.
"As empresas queriam que as perdas de receita com o racionamento fossem repostas, bem como o custo não-gerenciável durante o ano. Todos esses pedidos, entre outros, foram atendidos pela Câmara. Mesmo assim, com toda a boa vontade da população, que colaborou economizando energia, os consumidores ainda vão pagar pelo que não gastaram", critica.
Em relação à perda de receita em torno de R$ 500 milhões durante o ano passado, anunciada pela CPFL, Kirchner diz ser uma afirmação falsa.
"A Resolução da Aneel (Agência Nacional de Energia Elétrica) que regulamenta a Medida Provisória nº 14, garante que, além de repor as perdas do que as distribuidoras estavam recebendo até o período de racionamento, também seja reposto até o quanto iriam receber se o consumo tivesse aumentado em 2001", relata o diretor do Seesp.