Mais um exemplo
A retração do consumo e a consequente decepção dos executivos controladores das distribuidoras só mostra que não se faz racionamento jogando todo o peso sobre os ombros dos consumidores impunemente. Em um país carente como o nosso, tanto a falta de energia quanto a falta de mercado são extremamente danosos. Solução: Planejamento e Compromisso com o consumidor.
Outra herança para o próximo Governo
Divisão dos setores de geração e transmissão de estatais será definida só em 2003 (J. Commercio 27/07)
A cisão dos setores de geração e transmissão das companhias federais de energia controladas pela Eletrobrás (Eletronorte, Chesf e Furnas) deverá ser uma das tarefas para o próximo governo decidir. Pelo menos, duas das três estatais têm pendências que dificultam a divisão de ser realizada ainda neste ano. Além disso, o próprio presidente da Eletrobrás, Altino Ventura Filho, já admitiu que a divisão não deverá ocorrer até dezembro por causa de atrasos no cronograma. O presidente das Centrais Elétricas do Norte do Brasil (Eletronorte), José Antônio Muniz Lopes, afirma que a empresa está pronta para a divisão, mas depende da contabilização dos valores referentes à venda de energia no Mercado Atacadista de Energia (MAE) para conclusão do balanço da cisão.
Apesar da derrubada de uma liminar da Eletrobrás que impedia a contabilização do MAE ter sido cassada nessa semana, pelo novo cronograma da instituição, as negociações que ocorreram depois de julho do ano passado só deverão ser contabilizadas a partir de 25 de setembro. O prazo previsto inicialmente pelo Governo para a conclusão das cisões era 31 de maio.
CHESF. Já a Companhia Hidrelétrica do São Francisco (Chesf) solicitou a exclusão do processo de cisão porque, pelo BNDES a empresa ficaria muito endividada com a divisão. O plano desenvolvido pelo BNDES prevê que a Chesf seja dividida em duas empresas de geração e uma de transmissão. A parte de geração seria cindida em Chesf Xingó, que controlará a hidrelétrica de Xingó e Chesf Geração, que ficaria responsável pelas outras 12 usinas hidrelétricas.
Chesf Xingó e Chesf Distribuição seriam mantidas sob controle da Eletrobrás. Já Chesf Geração seria transformada em uma empresa pública da União e de capital fechado e teria o nome trocado para Companhia de Energia e Desenvolvimento Hídrico do Nordeste. O modelo do BNDES prevê que a Chesf Xingó seria a única a entrar no Programa Nacional de Desestatização após a cisão.
O problema, segundo o presidente da Chesf, Mozart Siqueira Campos Araújo, é que esse processo deixaria a empresa muito endividada, porque, além de perder o maior ativo (Xingó), teria de compensar os acionistas. Araújo explica que, em vez de realizar a cisão agora, a empresa fará somente uma reestruturação interna. "Vamos realizar uma reestruturação interna, criando uma unidade de negócios de transmissão e outra de geração", diz.
Já Furnas informou que está pronta para a cisão e aguarda apenas a orientação da controladora Eletrobrás. Pela proposta elaborada pelo BNDES, Furnas seria dividida em duas empresa, uma de geração e uma de transmissão. A parte de transmissão continuaria a ser uma subsidiária da Eletrobrás. Já a geradora, inicialmente, seria controlada diretamente pelo Tesouro Nacional, que, a partir de 120 dias após a cisão, deveria começar a pulverizar a sua participação acionária na Bolsa de São Paulo. O Tesouro colocaria ações na Bolsa e, no primeiro momento, Furnas Geração teria a mesma estrutura acionária da Eletrobrás: 52,46% em poder da União, 12,68% pertencente ao BNDESPar, 4,24% do Fundo Nacional de Desestatização (FND) e 30,62% nas mão de acionistas minoritários. Estes seriam acionistas que trocariam parte das ações da Eletrobrás por ações de Furnas Geração.
Quanto à Eletronorte, a empresa daria origem à Eletronorte Geração, que ainda incorporaria os sistemas elétricos de Boa Vista e Manaus e Eletronorte Transmissão. As duas permaneceriam subsidiárias da Eletrobrás. Analistas de mercado já não consideram mais a hipótese de a cisão ocorrer no Governo Fernando Henrique. Segundo eles, a questão é muito polêmica para ser realizada em um ano eleitoral. (Cláudio de Souza)
Brasileiro passa longe da tomada
Novos hábitos após racionamento e aumento de tarifas freiam consumo (J. Commercio 27/07)
Claudio de Souza
A recuperação no nível de consumo de energia tem se mostrado mais lenta do que as previsões pós-racionamento, que já não eram otimistas. De acordo com estudos da Eletrobrás, o crescimento da demanda de energia este ano, em comparação com o ano passado, deverá situar-se entre 3% e 4%. As previsões anteriores eram de que, em 2002, o consumo fosse 6% maior do que em 2001.
O mercado espera que a recuperação do consumo de energia para um patamar equivalente ao de 2000 só deverá ocorrer em 2003. Entretanto, há algumas distribuidoras que trabalham com cenários piores ainda por causa do perfil do mercado em que atuam.
O presidente da Guaraniana, Gilson Veloso, por exemplo, afirma que, enquanto o País deverá ter, neste ano, o consumo de energia equivalente ao de 1999, o Nordeste apresenta uma demanda no patamar de quatro anos atrás. Segundo Veloso, o consumo de energia em 2002, no Nordeste, deverá ficar no nível do de 1998.
– Vamos levar cinco anos para atingir o consumo previsto antes do racionamento – afirma Veloso.
A Guaraniana, empresa do grupo espanhol Iberdrola, controla três distribuidoras do Nordeste: Companhia de Eletricidade da Bahia (Coelba), Companhia de Eletricidade de Pernambuco (Celp) e a Companhia de Eletricidade do Rio Grande do norte (Cosern).
Veloso explica que, no Nordeste, como o consumidor residencial tem uma participação maior no consumo total de energia, a retração da demanda é maior do que em outras regiões onde as indústrias estão mais presentes. O presidente da Guaraniana explica que o consumidor residencial adquiriu certos hábitos de consumo que são irreversíveis.
Área residencial
De acordo com ele, a cultura de evitar o desperdício de energia continua, refletindo-se mais sobre o setor residencial, porque no industrial a economia, muitas vezes, ocorreu com corte de produção que foi restabelecida após o racionamento.
O analista do setor elétrico do Banco BBA, Marcos Severine, lembra, no entanto, que é, justamente, a queda da produção industrial, devido à desaceleração da economia, que está fazendo com que a recuperação do consumo seja menor que a prevista anteriormente.
Severine concorda em que a recuperação do consumo residencial é mais lenta e que as empresas que têm a maior participação deste setor entre seus clientes estão em situação mais difícil, mas lembra que o mercado não esperava uma desaceleração tão forte da economia.
– O grande vilão agora é o consumo industrial, que está abaixo do estimado. A recuperação do consumo residencial é mais lenta, mas isso já era previsto. A surpresa é o desempenho do consumo industrial, cuja recuperação está também lenta – acrescenta.
O desempenho do setor industrial, segundo o analista, é muito importante, porque tem grande peso na demanda brasileira por energia, cerca de 45% do consumo total.
Pelos cálculos de Severine, o consumo de energia este ano deverá ser de 39 mil megawatts (MW) médios, 5,41% superior ao de 2001. No ano passado, quando houve racionamento compulsório de 20% sobre os gastos de energia do ano anterior durante sete meses, o consumo foi de aproximadamente 37 mil MW médios.
O analista do BBA estima que o consumo de energia apurado em 2000 (41 mil MW médios) só deverá ser atingido em 2003. Isso representa uma defasagem de três anos, enquanto a expectativa de crescimento anual do consumo era de 5%.
Severine lembra ainda que a lenta recuperação do consumo prejudica as distribuidoras, principalmente aquelas que atendem à Região Nordeste e as de capitais do Sudeste, como Eletropaulo, de São Paulo, e Light, do Rio, que têm grande participação de consumidores residenciais, mas que este não é o problema mais grave enfrentado pelas empresas.
Na avaliação do analista, o impacto da mudança dos critérios para classificação dos consumidores de baixa renda, que têm as tarifas subsidiadas, é mais importante que o da lenta recuperação do consumo. Com a medida, as distribuidoras do Nordeste são novamente as mais prejudicadas porque têm o maior número de consumidores de baixa renda.
Mudanças de regras
A mesma opinião tem Gustavo Gattass, analista do Banco UBS Warburg. Ele ressalta que as empresas estão muito mais preocupadas com possíveis mudanças das regras do setor do que com o consumo.
– No mercado de ações, o pessoal das empresas de energia está muito mais preocupado com os rumos do País, do setor e com as eleições do que com a recuperação do consumo – afirma.
Para Gattass, ainda é cedo para se ter uma definição precisa de como será a recuperação do consumo de energia. Entretanto, o analista reconhece que os últimos dados do consumo de energia são inferiores às previsões que o mercado tinha há dois meses.
Pelo estudo da Eletrobrás, o consumo do mês de maio (últimos dados apresentados pela estatal) foi 5,7% menor que o de igual mês do ano passado. Já a redução do consumo acumulado dos cinco primeiros meses do ano comparando a igual período de 2001 é de 12,3%.
Ainda segundo o estudo, a previsão era de que o consumo de energia do primeiro semestre fosse de 8,5% a 9% abaixo dos primeiros seis meses do ano anterior, porque em junho de 2001 já havia começado o racionamento. Portanto, o consumo do mês de junho último seria superior ao do mesmo mês de 2001, reduzindo a diferença entre as comparações.
De acordo com os números apresentados pelos técnicos do Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS), o consumo do mês passado, foi 14,3% superior ao do mesmo mês de 2001.
De acordo com comunicado da estatal, os motivos do desempenho do consumo de energia ficar abaixo das previsões anteriores pode estar relacionado à queda na atividade industrial e ao aumento das tarifas de eletricidade, que poderiam estar inibindo uma recuperação mais vigorosa do mercado.
As estimativas da Eletrobrás, por sua vez, são de que o consumo de todo este ano seja de 293,5 terawatts-hora (TWh), enquanto que o registrado em 1999 foi de 292,2 TWh.