Monitor Mercantil 13/09/99 O fiasco da privatização Começamos a assistir a uma espécie de desencanto de parte do empresariado e das classes médias com o programa de desestatização. N&a …


Monitor Mercantil 13/09/99

O fiasco da privatização

Começamos a assistir a uma espécie de desencanto de parte do empresariado e das classes médias com o programa de desestatização. Não é uma

questão ideológica. É uma questão de fato. E não se traduz por uma oposição de princípio à privatização em geral, como acontece com a esquerda

tradicional, mas sim por pesadas restrições a um modelo de privatização falido, no qual insiste o Governo Federal. Não existe nada mais

pedagógico que a vida. E a vida está mostrando à opinião pública brasileira que estamos realizando o mais incompetente, o mais ineficiente, o

mais desnacionalizante dos programas de desestatização em curso no mundo.


Poderíamos ter feito a democratização do capital das estatais privatizadas. Fizeram o contrário. Concentraram seu capital, na medida em que

adotaram o estúpido modelo de venda do controle.


Poderíamos ter transformado algumas das estatais em grandes corporações com capital difundido em mercado, e sob administração profissional.

Entregaram as empresas a grupos de controladores que, em muitos casos, têm conflitos de interesses com suas controladas.


Poderíamos ter usado o programa privatização para desenvolver o mercado acionário. Ao contrário de todo os programas equivalentes no mundo, o

brasileiro fez contrair o mercado acionário, através da infame Lei Kandir, que agride explicitamente o direito dos minoritários.


No sistema ferroviário, os principais ramais da antiga Rede Ferroviária Federal e da Fepasa foram vendidos para os seus grandes usuários, que

logo os transformaram em centros de custo. Ou seja, a ferrovia perde o seu caráter público para se tornar um elemento a mais na cadeia de um negócio

privado, com evidente risco de prejuízo permanente para os demais usuários. O mesmo aconteceu com a privatização de vários terminais portuários.


No setor de telecomunicações, o grande negócio dos adquirentes da Telebrás não é a prestação do serviço público, mas a importação de equipamentos

obsoletos das matrizes, por valores que, em alguns casos, repetindo o que aconteceu com a Telefônica de Espanha na Argentina, superam o custo da

privatização.


No setor elétrico, preparam o que o governador Garotinho classificou de "um crime contra o Estado do Rio de Janeiro": o fatiamento de Furnas, para

separar empresarialmente a produção do transporte de energia, sob o falso argumento do estímulo à competição.


Em toda a área de serviços, como regra geral, estimularam a desnacionalização das empresas, criando um compromisso permanente de remessa de

dividendos para o exterior por parte de setores que jamais gerarão um dólar em divisas. Essa desnacionalização foi gratuita, porque algumas das

estatais de serviços, como Telebrás e Eletrobrás, tinham alcançado níveis de desenvolvimento tecnológico superiores aos seus adquirentes. No caso

da Telebrás é um acinte, pois as principais subsidiárias caíram nas mãos de controladoras espanhola e portuguesa, que estão na rabeira da

tecnologia internacional.


Por onde quer que se olhe o programa desestatização brasileiro, ele se manifesta como uma falácia. A privatização rodoviária é um fracasso

retumbante, como mostrou a greve dos caminhoneiros. Em lugar de cair, o custo de logística aumentou. O mesmo ocorreu com as ferrovias

privatizadas – uma das quais, virtualmente quebrada, acaba de ser comprada pela Vale. Nos portos, a proverbial inoperância e ineficiência

prosseguem. No setor elétrico, estamos sob risco de apagões a curto prazo, pois não tem havido investimento algum em geração. Nas

telecomunicações, certamente vamos continuar pagando alto o custo do atraso tecnológico de espanhóis e portugueses. Em suma, a privatização de

empresas do serviço público agravou o chamado custo Brasil, cujo reflexo se vê, por exemplo, no fiasco do desempenho de nossas exportações.


Nesse ínterim, está nas mãos do governador Garotinho a privatização da Cedae. Acho que ele pode fazer algo exemplar. Pode mostrar ao BNDES e

ao Governo Federal como desestatizar um serviço público preservando os interesses da população, democratizando o capital, pulverizando o

controle, evitando a desnacionalização, melhorando a eficiência da empresa e, por último, mas não menos importante, destinando os recursos daí

obtidos a uma causa nobre, o Fundo Previdenciário do Estado, que vai aliviar o orçamento corrente deste, liberando recursos para a área social. Se o

governador fizer isto, estará mostrando que o Rio tem capacidade de liderar uma alternativa programática para o Brasil. Por cima de ideologias.

Com base em fatos.


Endereço eletrônico: jcassis@domain.com.br

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