O GLOBO 15/01/2001
Crise de energia nos EUA: lições para o Brasil
Flávia Barbosa
O Brasil pode se tornar uma nova Califórnia se não implantar programas de ampliação e construção de usinas geradoras de energia. Como nos Estados Unidos, as expectativas de reorganização do setor no Brasil adiaram os projetos de expansão energética. O modelo de privatização e desregulamentação dos dois países criou um mercado atacadista de venda de energia que, como visto nos EUA, em lugar de aumentar a competição e baixar os custos, distorceu a oferta e elevou os preços.
– Nosso modelo de privatização guarda muitas semelhanças com o da Califórnia. A diferença é que, enquanto lá eles já estão em crise, no Brasil os problemas ainda estão se anunciando – afirma Maurício Tolmasquin, coordenador de planejamento energético da Coordenação dos Programas de Pós-graduação em Engenharia (Coppe) da UFRJ.
Segundo Tolmasquin, os problemas da Califórnia – risco de blecautes e de falência de distribuidoras – decorrem da desregulamentação do setor, feita em 1996. As distribuidoras de energia tiveram de vender os braços de geração de energia e cancelar os contratos de compra de longo prazo, efetuando compras diárias. O processo é como um leilão: as distribuidoras dizem quanto querem comprar e as geradoras dão o preço.
O objetivo era implantar a competição no segmento atacadista, para reduzir os preços e melhorar os serviços. Como sairiam do negócio de geração de energia, as distribuidoras interromperam os projetos de ampliação. Além disso, nos últimos dez anos não foram construídas novas plantas.
Aproveitando-se da grande demanda de energia – a Califórnia é o centro da Nova Economia – e do fato de as distribuidoras não poderem deixar faltar luz, o mercado atacadista passou a oferecer energia em cima dos prazos e a preços mais altos. E as distribuidoras perderam o poder de barganha.
Como a lei que desregulamentou o setor proíbe aumento de tarifas antes de 2002, a alta dos custos não pôde ser repassada aos consumidores.
Com déficit no balanço, diz Tolmasquin, as distribuidoras começaram uma campanha por reajuste de tarifas. Duas delas, a Edison International Southern California e a Pacific Gas and Electric Co. (PG&E), ameaçam pedir falência em fevereiro e querem indenização pelo que pagaram a mais no atacado: US$ 4,9 bilhões e US$ 4,6 bilhões, respectivamente.
O coordenador da Coppe vê duas semelhanças entre o modelo californiano e o brasileiro. A primeira diz respeito à interrupção dos programas de expansão da capacidade de geração de energia e à falta de estímulos para que a iniciativa privada assumisse esse papel.
– Tudo parou com a privatização, pois, como o setor passaria à iniciativa privada, ela cuidaria dos novos investimentos. Só que o Brasil continuou a crescer e se encontra hoje numa situação limite – diz Tolmasquin.
O consumo de eletricidade deve aumentar 6% em 2001, caso o país cresça 4%. Com a entrada em funcionamento da usina Angra 2 e de algumas termelétricas, o Brasil poderia adicionar 1,5 mil megawatts à capacidade instalada atual (60 mil MW). Mas o Comitê de Energia da Federação das Indústrias do Rio de Janeiro (Firjan) não descarta uma crise energética este ano.
Em 2000, o Brasil operou com níveis quase três vezes acima do limite de segurança, que é de três mil megawatts. A necessidade do país era de oito mil megawatts adicionais, o que provocou uma utilização excessiva das reservas.
O segundo ponto em comum com a Califórnia é a criação do mercado atacadista de energia (MAE), que deve tomar fôlego em 2003, quando a compra por contratos de longo prazo será reduzida em 25% ao ano. Tolmasquin teme que haja uma elevação de custos:
– Seria importante colocar regras no programa de privatização, como a obrigatoriedade de construção de usinas. Exemplo do que pode acontecer, diante da Califórnia, nós já temos – diz.
Mais dois estados americanos em alerta
WASHINGTON e LOS ANGELES. Os governadores da Califórnia, do Oregon e de Washington, nos EUA, fizeram um apelo à população no sábado, para que reduza o consumo de eletricidade em 10%. A Costa do Pacífico, onde estão os três estados, tem enfrentado uma série de violentas tempestades neste inverno.
Normalmente, as hidrelétricas da Califórnia suprem os outros dois estados com energia no inverno, recebendo-a de volta no verão. Esta semana, porém, Gray Davis, governador da Califórnia – estado 1que enfrenta uma grave crise energética – foi obrigado a pedir ajuda ao Oregon para evitar blecautes. O governador de Washington, Gary Locke, disse que os níveis de água das represas estão muito baixos e é possível que as hidrelétricas da área não consigam produzir energia suficiente nem para as necessidades do próprio estado.
Esta semana, as empresas do Vale do Silício – que concentra os gigantes da Nova Economia – disseram a Davis que se os problemas de energia da Califórnia não forem resolvidos, elas vão instalar suas fábricas em outros estados. Para essas empresas, um dia sem eletricidade pode significar um prejuízo de US$ 100 milhões.
O ILUMINA acrescentaria ao que disse Tolmasquim: O mercado de energia elétrica no Brasil, quando cresce pouco, cresce 5%, taxa record na Califórnia. Além de diversas famílias que nem dispõe do serviço de energia, o brasileiro consome muito pouca eletricidade, portanto, não podemos arriscar o país numa aventura de um capital voluntarioso, que espera retornos incompatíveis com o setor de energia.