O jogo do perde-perde De um lado a renda cai, de outro, as tarifas avançam sobre o orçamento das famílias. O que sobrou é a própria economia brasileira. Menos alimentos, remédios, roupas, escol …

O jogo do perde-perde


De um lado a renda cai, de outro, as tarifas avançam sobre o orçamento das famílias. O que sobrou é a própria economia brasileira. Menos alimentos, remédios, roupas, escola, eletrodomésticos, etc.. Nesse momento, para compensar, aumenta a sonegação e a informalidade. Ai a arrecadação cai. O próximo passo é o aumento de impostos, ou abertamente, ou disfarçado em taxas, contribuições, etc. As empresas distribuidoras reclamam. O poder público (BNDES) financia. Aumenta a dívida pública. Mais impostos…. Estamos nesse jogo há uns 10 anos mais ou menos. E o pior é que não há sinais de mudança a vista.



Queda de renda é mais grave no Rio


Perdas do trabalhador fluminense chegam a 16% em 12 meses, contra média nacional de 14,6%


Alberto Komatsu


Com Bruno Rosa


Lucas Van De Beuque


A queda da renda pesou mais no bolso do trabalhador do Rio de Janeiro. Enquanto no país o rendimento médio das pessoas ocupadas encolheu 14,6% em setembro, na comparação com o mesmo mês do ano passado, no Grande Rio o recuo foi maior: 16% em um ano, pior resultado entre as seis metrópoles pesquisadas pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), na Pesquisa Mensal de Emprego (PME).


O pesado impacto da retração dos salários das pessoas ocupadas sobre o Rio, contou Katia Namir, economista da Coordenação de Emprego e Rendimento do IBGE, é conseqüência da queda de 21,2% da renda dos chamados trabalhadores por conta própria . Nesta categoria, estão ambulantes, prestadores de serviços autônomos (como eletricistas e encanadores) e profissionais liberais que amargaram a maior retração de rendimento entre as categorias de trabalhadores pesquisados pelo instituto. Não por coincidência, também foi o contingente de emprego que mais cresceu no Estado (11,1%). E são os mais suscetíveis de redução da renda.


– A categoria que mais sofreu com a queda dos rendimentos foi o trabalhador por conta própria, que tem o maior peso na categoria de pessoas ocupadas (23,4%). Por isso a queda foi mais acentuada no Rio – afirmou Katia.


O estudante Diego Andrade, de 19 anos, é prova viva do aumento do contingente de ambulantes no Rio. Há um mês, foi demitido da função de balconista de uma padaria perto de sua casa, em Magé, Região Metropolitana do Rio de Janeiro, e tornou-se mais um dos inúmeros camelôs espalhados pelo Centro do Rio. Além da voz rouca de tanto gritar (”Um doce é dez. Dez é um real”), viu seus rendimentos caírem pela metade. No velho emprego, ganhava um salário mínimo e meio. Hoje, não consegue nem R$ 100 por mês.


– O emprego da padaria era com carteira assinada e eu ainda tinha todos os direitos trabalhistas. Hoje, não tenho garantia alguma e ainda, a qualquer momento, posso perder todos os meus doces se a Guarda Municipal me pegar – afirmou.


Descrente com o atual governo, ele não acredita em melhoras.


– Em um mês já vendi meus brigadeiros em vários bairros. Mas a melhor freguesia é a do Centro. Espero que esse seja apenas o meu emprego temporário de Natal porque, ganhando só R$ 90 por mês , não dá para sobreviver. Mal paga a passagem – acrescentou.


Marcelo Néri, chefe do Centro de Políticas Sociais da Fundação Getúlio Vargas (FGV), lembra de outro fator que contribuiu para o Rio ter registrado a maior queda da renda em um ano: 76% da população do Rio vive na Região Metropolitana.


– A PME captou melhor a situação do trabalho no Rio, onde o reflexo (da queda de renda) foi mais forte porque a categoria conta própria foi a que mais perdeu – ressaltou o economista da FGV.


Foi o que aconteceu com Sandra Pereira, de 42 anos, que deixa os seus três filhos, Gabriel, de 4 anos, Fernando, 6, e Isabela, 5, com os vizinhos no bairro em que mora, em Nilópolis, para ir trabalhar no Centro do Rio de Janeiro, como ambulante. Depois de mais de uma hora de viagem, ela monta a sua mesa de balas, no meio da Avenida Rio Branco, e espera os fregueses.


– Essa é a minha vida há mais de três anos. Apesar do tempo passar, o ganho não mudou muito. Chega a R$ 150 em mês bom. Antes trabalhava como telefonista e ganhava um salário mínimo – disse Sandra.


A volta ao mercado de trabalho, ela admite, é um sonho distante.


– Eu sofro muito preconceito porque, além de ser negra, ainda tenho paralisia infantil. E, nessas condições, conseguir um emprego é bem mais complicado – concluiu ela.


O avanço dos trabalhadores por conta própria, contou Katia, do IBGE, é reforçado com dados negativos de outros setores do mercado de trabalho. O número de empregados com carteira, por exemplo, desabou 15,6% em setembro. Entretanto, ela ressaltou que, de maio para cá, os resultados no Rio podem ser considerados ”mais estáveis”.


– A economia do Rio vem apresentando um crescimento lento desde o início da década de 80. Então o mercado está mais acostumado com essa situação. Por outro lado, o setor de serviços, que tem peso significativo, está mais suscetível às variações conjunturais (mais positivas) – analisou Katia.


Segundo a economista do IBGE, 80,3% dos trabalhadores do Rio estão ligados ao setor de serviços. Outros 12,4% estão na indústria e 7,3% dos empregados são do segmento de construção.


O Rio também puxou para baixo o desempenho de outra categoria profissional. Katia ressaltou que a queda de renda resultou na redução de 10% no número de empregadas domésticas na região metropolitana da cidade em setembro, na comparação com igual mês do ano passado. Foram eliminadas 39 mil vagas em apenas um mês. Com isso, o desemprego entre as domésticas nas seis metrópoles pesquisadas pelo instituto subiu para 6,2%.



Brasileiro compromete um terço de sua renda com pagamento de tarifas

Erica Ribeiro


Luz, gás, telefone, água e transporte são algumas das tarifas que todo mês levam embora aproximadamente 30% da renda do trabalhador. O gasto é comprovado por indicadores de preços, como mostra o cálculo feito pelo economista Luiz Roberto Cunha, com base no Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) e no Índice Nacional de Preços ao Consumidor (INPC), ambos do IBGE.


Nas famílias com renda de um a 40 salários-mínimos, o comprometimento da renda com as tarifas chega a 26,5%. Já o peso desses serviços na renda dos consumidores que ganham de um a oito mínimos atinge 27,73%. Transporte e energia são as tarifas que mais pressionam os brasileiros, principalmente aqueles que recebem até oito mínimos por mês: 11,53% e 6,20%, respectivamente. Entre os que ganham de um a 40 salários, o item transporte compromete 7,54% da renda e a conta de luz, outros 4,56%.


– O grupo de gastos com tarifas inclui também as contas de gás e de telefone, além de água e esgoto, entre os que mais pesam no orçamento. O conjunto dos chamados preços administrados nos últimos 12 meses subiu 20,19% até setembro, contra a inflação de 15,14% medida pelo IBGE – informa o economista.


Telefone celular está acima do que mostram os índices


O telefone celular aparece nas pesquisas com o menor percentual de gasto no orçamento do consumidor: 0,24% da renda para quem ganha de um a 40 salários-mínimos e 0,09% para os que recebem de um a oito salários. Cunha lembra, no entanto, que os números apresentados estão distorcidos. Isso porque os dados da Pesquisa de Orçamentos Familiares (POF), do IBGE, estão defasados e não computaram o boom da telefonia celular ocorrido nos últimos anos, que superou em cerca de um milhão o número de telefones fixos. Mudança que também influenciou a renda do trabalhador.


– Na próxima edição da POF, esse percentual deverá ser mais expressivo e refletir a realidade, já que o número de brasileiros com telefone celular superou o de famílias com telefone fixo, principalmente entre aquelas que não tinham acesso à telefonia. Por isso, a distorção – explica o economista.


Diante de tantas contas para pagar, a capacidade de compra do consumidor fica cada vez menor, diz Cunha. Lazer, vestuário e outros gastos ficam em segundo plano. O consumidor tem de escolher entre pagar a conta ou adquirir um bem. Muitas vezes algumas contas são deixadas para o mês seguinte na tentativa de equilibrar o orçamento.


É o que acontece com Maria Cristina de Almeida Canavezzi. Ela é o retrato do que as pesquisas apontam no papel. Recepcionista de um salão de beleza no Recreio, Zona Oeste do Rio, ela diz que gasta até mais de 30% do salário de R$ 500 com tarifas, principalmente energia elétrica e telefone. É com o que ganha que sustenta a família, já que o marido está desempregado.


Gastar com lazer, roupas ou algo fora do habitual no supermercado está fora de cogitação. Para equilibrar o orçamento ou adquirir algum bem, o jeito é vender as férias.


– O gasto com a conta de luz chegou a R$ 190 e com telefone, a R$ 97 este mês. Já fiz de tudo para reduzir as despesas com luz mas não consegui gastar menos – lamenta Maria Cristina. – Não sobra dinheiro para nada, muito menos para guardar. Trabalho apenas para pagar as contas. Por isso, estou pensando em arranjar algum outro meio de complementar a renda até que meu marido consiga um emprego.


Idec recomenda atenção na hora de verificar a conta


O consultor do Instituto de Defesa do Consumidor (Idec) Marcos Pó lembra que o consumidor não tem muita saída, já que existem limites para a redução de gastos com tarifas. O jeito é ficar atento às contas e sempre reclamar do que considerar abuso ou excesso.


– Nos gastos com energia, o consumidor aprendeu com o racionamento. Mas no caso de outras tarifas, o ideal é prestar atenção na conta. No caso do telefone é preciso ficar atento ao número de ligações para celulares, que pesam muito, e verificar se há alguma ligação registrada que não foi feita. E reclamar seus direitos sempre que se sentir prejudicado – diz Pó.


O consultor acha que o governo deveria buscar opções para reduzir o custo das tarifas no orçamento de famílias de baixa renda.


– As tarifas são reajustadas e o salário não acompanha o ritmo dos reajustes – ressalta Pó.


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