Quanto custa a crise energética
A CALIFÓRNIA PODERÁ GASTAR US$ 70 BILHÕES COM
ELETRICIDADE
PAUL KRUGMAN
The New York Times
Não é fácil superar Maria Antonieta, mas Curtis Hebert, presidente do Comitê
Regulatório Federal de Energia, parece ter conseguido. Mesmo os legisladores
republicanos favoráveis ao livre mercado, como o senador Gordon Smith, do Oregon,
aceitaram a idéia de que o tabelamento temporário dos preços no atacado é uma parte
necessária da solução para a crise energética da região oeste dos Estados Unidos.
Mas na semana passada, Hebert, que tem o poder de impor esse tabelamento, rejeitou
novamente a idéia. Em vez disso, ele recomendou aos californianos que "comecem a
usar as pás" e construam mais usinas de eletricidade.
No mesmo dia, a Dynegy, com sede em Houston, Texas, tentou obrigar a
concessionária da Califórnia que opera muito bem usinas elétricas em seu nome a
fechá-las e alegou que tem o direito de fazer isso, de acordo com as novas regras
estabelecidas pelo comitê de Hebert.
Na verdade, a Califórnia está construindo novas usinas elétricas: sete delas
estão em construção e dez outras aguardam autorização final para que as obras sejam
iniciadas. No longo prazo, esta capacidade adicional de energia resolverá o problema,
mas no longo prazo, todos estaremos mortos. A questão imediata é saber como a
Califórnia irá enfrentar o verão. E as pás, não importa quão energicamente usadas,
não irão ajudar.
A iminente crise do verão é física e financeira. No aspecto físico, simplesmente
não há capacidade suficiente de geração. De onde decorre o iminente desastre
financeiro: tudo indica que a competição para conseguir a energia no atacado
aumentará ainda mais os preços da eletricidade. Os contratos de compra de energia
para agosto de 2001 chegaram a US$ 750 o megawatt/hora, cinco vezes mais do que
a média registrada em agosto de 2000. Em 1999, a Califórnia gastou US$ 8 bilhões
com eletricidade; este ano, de acordo com especialistas como Frank Wolak, de
Stanford, poderá gastar até US$ 70 bilhões. Não, eu não escrevi o número errado.
Como a capacidade não pode ser aumentada em tempo hábil, a única
maneira de lidar com a escassez física é economizar (é estranho que Hebert não tenha
tocado nesse assunto, mas a atitude generalizada na Washington de George W. Bush
parece ser a de que as pessoas de verdade não economizam energia). Preços mais
altos para os consumidores seriam um incentivo para o uso mais sensato da
eletricidade. O Estado também deveria fazer tudo o que estivesse ao seu alcance para
desestimular o uso de eletricidade durante os horários de pico. Infelizmente, parece
provável que muita economia será feita durante os apagões.
Mas o maior desastre será financeiro. Se aquele número de US$ 70 bilhões
estiver correto, o aumento nas contas de eletricidade na Califórnia nos últimos dois
anos poderá chegar a quase US$ 2 mil para cada homem, mulher e criança desse
Estado. E a maior parte dessa importância não será representada pelos custos mais
altos de produção. Será representada por lucros extraordinários para as imensas
companhias, principalmente para aquelas com sede em outros Estados, que controlam
as usinas elétricas. Será que a idéia de um tabelamento temporário dos preços no
atacado, que limitaria esta enorme transferência de riqueza de dezenas de milhões de
consumidores e contribuintes para um punhado de grandes empresas ainda parece
uma louca idéia esquerdista? O prefeito Rudolph Giuliani pediu um tabelamento
semelhante em Nova York, onde uma crise semelhante à da Califórnia poderá ocorrer
neste verão. Talvez devessemos chamá-lo de "Rudy, o Vermelho".
É claro que um tabelamento que tornasse a geração de energia não lucrativa
agravaria a escassez de eletricidade. Mas ninguém está pedindo um controle de
preços desse nível. Um tabelamento estabelecido num nível alto, mas não
astronômico, provavelmente aumentaria a disponibilidade de energia, ao eliminar o
claro estímulo que os donos das geradoras têm para reduzir a oferta ao mercado. E
manteria num nível tolerável o custo de superar este perigoso verão.
Admito que um tabelamento temporário possa desestimular os investimentos,
ao abrir um precedente. Mas se eu fosse dono de uma geradora, eu estaria mais
preocupado com as minhas perspectivas de longo prazo numa Califórnia irritada com
os enormes lucros obtidos pelas empresas com sede no Texas do que estaria num
Estado em que as geradoras e seus amigos em Washington, em vez de "espremerem"
cada dólar, ajudassem a criar um plano de transição razoável para que o Estado
supere um período de dificuldade.
Se Hebert é irredutível, e se a legislação co-patrocinada por Gordon Smith não
der em nada, a Califórnia e os seus vizinhos Oregon e Washington poderão pensar
num "cartel de compradores" – isto é, acertar um preço-limite que esses Estados
estarão dispostos a pagar. Isso poderia acabar com a obstinação de Hebert e a
indiferença de seus superiores. Mas um tabelamento imposto pelo Comitê Regulatório
Federal de Energia seria a coisa certa a fazer.