Uma avaliação
aproximada sobre as necessidades energéticas em um cenário
de melhoria social
ou (Porque os brasileiros
mais pobres não podem ter uma geladeira)
É uma unanimidade! Todas
as correntes políticas do país são favoráveis
a uma melhor distribuição da renda. Não
custa nada sonhar! Entretanto, uma das questões mais mal
entendidas são as pré-condições para
que essa dívida social seja realmente uma realidade. Dentre
essas pré-condições, desponta a questão
energética.
Há uma grande controvérsia
sobre os efeitos do estilo de desenvolvimento nas necessidades
energéticas brasileiras. Alguns especialistas argumentam
que a opção pelo desenvolvimento baseado em uma
política em industrias eletro-intensivas, verificado nas
décadas passadas, foi o principal responsável por
um crecimento exagerado do consumo de eletricidade . Não
há discordâncias quanto à esse ponto. Muitos
argumentam que um outro estilo de desenvolvimento mais voltado
a eliminar as enormes desigualdades sociais, exigiria muito menos
energia. A nosso ver, qualquer política que, de alguma
forma consiga, distribuir melhor a renda no país resultará
em outro "boom" do consumo de energia elétrica.
É preciso se preparar e discutir quais as diferenças
desses dois momentos da economia brasileira, pois a dívida
social é enorme e precisa ser atenuada a curto prazo.
Esse pequeno exercício
tenta, usando as pouquíssimas informações
disponíveis, avaliar essa questão, reconhecendo
antecipadamente a precariedade das avaliações.
Entretanto, pelos resultados obtidos, mesmo que haja grandes
desvios, já é possível identificar indícios
de um aumento significativo das necessidades energéticas.
E mais! Essas novas fontes têm que apresentar preços
módicos pois o público a que se destina, não
pode pagar as tarifas que se vislumbra na atual política
do setor.
O Gráfico abaixo plota
a taxa média de crescimento de triênios desde 1950
para o PIB e o consumo de energia elétrica. É visualmente
óbvia a dependência entre as duas variáveis.
Pode-se até perguntar se o crescimento do PIB não
teria sido fomentado pelo investimento em energia elétrica.
Certamente alguns picos são fruto da opção
energo-intensivas mas outros tem uma explicação
mais complexa.

Um exercício muito aproximado
de avaliação está exposto a seguir.

Uma informação
essencial para essa análise, seria um quadro que especificasse
o consumo médio de energia elétrica por domicílio
por classe social. Tal informação não está
disponível nem nas pesquisas do IBGE nem nos dados da
Eletrobrás, o que não deixa de ser um sintoma de
que, esse assunto, até agora, não foi objeto de
preocupação.
Entretanto, com um certo grau
de subjetividade pode-se estimar essa essencial informação.
O primeiro dado importante é a distribuição
de renda brasileira., (IBGE-Pesquisa Nacional por Amostra de
Domicílio 1999).
O primeiro gráfico mostra
o percentual de domicílios (44 milhões no total)
enquadrados na faixa de renda do eixo horizontal em salários
mínimos. O segundo mostra a renda média de cada
classe.
Por si só, dada as discrepâncias
de renda evidenciadas pelo gráfico pode-se imaginar a
enorme demanda reprimida contida nessa configuração.
| Faixa de renda (Salário Mínimo) |
Número de Domicílios |
% do total |
Renda Média |
| ATÉ 1 |
6.747.149 |
17 |
110 |
| MAIS DE 1 A 2 |
7.650.693 |
17 |
214 |
| MAIS DE 2 A 3 |
6.737.027 |
15 |
343 |
| MAIS DE 3 A 5 |
8.183.796 |
18 |
534 |
| MAIS DE 5 A 10 |
8.632.402 |
19 |
954 |
| Mais de 10 a 20 |
4.590.722 |
10 |
1.887 |
| MAIS DE 20 |
2.754.437 |
6 |
5.075 |
| Total |
44.696.226 |
Dos 44 milhões de domicílios
estimados existentes na PNAD, 34 %, aproximadamente 15 milhões,
sobrevivem com apenas R$ 200/mensais. O professor Célio
Berman em seu livro
"Energia no Brasil: para quê?
para quem?" (Editora
Livraria da Fsica 2002) sugere o que poderia ser uma "cesta
básica" de eletricidade. Aproveitando essa excelente
idéia, mas adaptando alguns valores, sugerimos a configuração
abaixo.
| "Cesta básica de Eletricidade" (1) |
||||||
|
Eletrodomésticos |
Quantidade |
Potencia (W) |
Dias | Horas |
Consumo Mensal (kWh) |
Consumo Annual (kWh) |
| Geladeira |
1 |
200 |
30 |
18 |
108 |
1296 |
| Lampadas (compactas) |
5 |
20 |
30 |
6 |
18 |
130 |
| TV |
1 |
80 |
30 |
5 |
12 |
130 |
| Ferro |
1 |
800 |
7 |
3 |
17 |
288 |
| Rádio/Som |
1 |
40 |
20 |
4 |
3 |
19 |
| Chuveiro |
1 |
3500 |
30 |
0,08 (2) |
9 |
105 |
| Liquidificador/outros |
1 |
20 |
30 |
0,5 |
0,3 |
4 |
| Ventilador |
2 |
100 |
20 |
5 |
20 |
432 |
| Torradeira |
1 |
1200 |
30 |
0,25 |
9 |
36 |
| Total |
195 |
2343 |
||||
|
(1) Sobre uma idéia (2) Considerou-se apenas 10 minutos |
||||||
Observe-se a ausência de
batedeiras, enceradeiras, micro-ondas, freezer, gravadores, video-cassetes,
maquina de costura, microcomputador, secador de cabelos e muitos
outros. Trata-se realmente de um mínimo de conforto para
o século XXI.
Seguindo essa idéia, uma
primeira avaliação das necessidades energéticas,
seria imaginar que toda família tivesse direito a consumir
pelo menos a cesta básica da tabela acima. Não
estamos investigando por que caminhos econômicos isso se
daria, mas apenas avaliando uma ordem de grandeza dessa demanda
reprimida.
A primeira informação
importante é o número de famílias ou domicílios
que ainda não dispõem de energia elétrica.
Segundo o IBGE, 96.4% dos domicílios dispõem desse
serviço. Esse percenttual, no entanto, exclui vários
estados e territórios da região norte, onde, sabidamente,
o nível de atendimento é bem inferior. Outra falha
desse percentual é que considera provido de energia aqueles
domicilios atendidos por pequenos geradores. Na realidade, estamos
estimando as necessidades energéticas advindas de um serviço
público. Portanto, decidimos adotar o percentual aproximado
de 90% para a totalidade dos domicílios brasileiros.
Sendo assim, apenas conectando
4,4 milhões de domicílios ( 10% do total) e imaginando
um consumo tipo cesta básica, teriamos uma demanda adicional
de aproximadamente 10 TWh anuais. No ano 2000, antes do
racionamento, o setor residencial consomiu aproximadamente 27%
dos 330 TWh totais, cerca de 90 Twh. Portanto, apenas a inclusão
dos domicílios não ligados, consumindo a cesta
básica, representaria um aumento de 12% no total do consumo
residencial.
1 – Apenas
para atender a demanda de cesta básica dos ainda não
conectados, necessitaríamos de novas usinas cuja capacidade
somassem 2.200 MW!
O problema é que não são
apenas os não conecctados. Um percentual significativo
de consumidores conectados consomem abaixo dessa medida mínima.
A tabela abaixo foi divulgada pela Camara de Gestão da
Crise alguns dias antes do início do racionamento.
Distribuição do Consumo |
% do total |
Consumo médio mensal (kWh) |
Num cons em 2000 (milhares) |
|
[0:100] |
39 |
60 |
18.437 |
|
[101 : 200] |
32 |
130 |
15.317 |
|
[201 : 500] |
25 |
240 |
11.818 |
|
> 500 |
4 |
650 |
1.701 |
Segundo essa tabela, 71% dos
consumidores estão abaixo do que chamamos consumo "cesta
básica". Esse percentual, surpreendentemente alto,
não é discrepante com o consumo médio residencial
para o Brasil como um todo, que se situa na faixa de 174 kWk
mensais. Sendo assim, pode-se construir a tabela abaixo, que
mostra as necessidades adicionais que cada classe necessitaria
para atingir um consumo considerado mínimo.
Distribuição do Consumo |
% do total |
Consumo médio mensal (kWh) |
Necessidades adicionais (kWh/mês) |
|
[0:100] |
39 |
60 |
135 |
|
[101 : 200] |
32 |
130 |
65 |
|
[201 : 500] |
25 |
240 |
0 |
|
> 500 |
4 |
650 |
0 |
Totalizando para os consumidores
das duas primeiras classes na tabela abaixo:
Distribuição do Consumo |
kWh/mes adicionais |
Número de Domicílios (mil) |
Necessidades adicionais (kWh/mês) |
|
[0:100] |
135 |
18.437 |
2.484.419.438 |
|
[101 : 200] |
65 |
15.317 |
991.782.225 |
|
Total |
3.476.201.663 |
||
|
GWh Total anual |
41.714 |
Classe |
GWh/ano adicionais necessários |
Número de Domicílios atingidos (mil) |
kWh/mês adicionais por domicílio |
|
Não conectados] |
10.000 |
4.300 |
|
|
[0:100] |
29.813 |
18,437 |
|
|
[101 : 200] |
11.901 |
15,317 |
|
|
51.714 |
38.054 |
113 |
2 – Se todos
os domicílios brasileiros fossem atendidos com no mínimo
uma cesta básica de eletricidade, seriam necessários
51 Twh adicionais ao atual consumo. (56% a mais no atual
consumo residencial). Esse valor corresponderia, em média,
a apenas 113 kWh mensais a mais para 38 milhões de residências.
3 – Para gerar
essa energia, necessitaríamos de usinas que totalizassem
11.700 MW! Quase uma Itaipu!
4 – Não
está contabilizada a energia necessária para suportar
o aumento de produção decorrente da disponibilidade
dos equipamentos que geram o consumo "cesta básica".
Uma grande parcela de aumento
de energia decorrente dessa melhor configuração
social, não está incluida nesse cálculo.
Em primeiro lugar, trata-se de uma melhoria nas condições
das famílias que atualmente já consomem acima da
cesta básica. Mesmo com uma certa diminuição
do consumo das classes mais abastadas, um aumento além
do já demonstrado também é possível
de acontecer.
Uma informação importante
é a estrutura de gastos das famílias por classe
de renda. O gráfico abaixo mostra essa dependência.IBGE
(Pesquisa de Orçamento Familiar, 1996)

O aspecto
interessante a ressaltar, e por sinal bastante esperado, é
que quando as famílias migram de uma classe de renda para
uma superior,diminuem percentualmente seu gasto com alimentação
e aumentam seu gasto com as variações de seus ativos
e passivos. Os gastos com habitação, onde está
incluída a despesa com a energia elétrica, mantêm-se
bastante proporcional à renda.
Portanto, é bem possível
que famílias que consomem mais do que a cesta básica
hoje, ao melhorarem seu padrão de vida aumentem um pouco
mais seu consumo residencial.
Uma maneira ainda mais simples
de avaliar essa potencial demanda reprimida é fazer um
cálculo simples com o consumo médi residencial brasileiro.
Antes do racionamento a média de consumo mensal por domicílio
era de 174 kWh. Por ano, 2088 kWh/ano/domicílio. Para o
total de domicílios, 87 TWh. Imaginar que o consumo médio
aumente 10%, atingindo quase a "cesta básica",
significa acrescentar 8.7 TWh no consumo total ou 9.7 TWh de geração
imaginado apenas 12% de perdas totais. Para gerar essa energia
necessitamos uma capacidade nova de 2000 MW.
5 – Cada 1%
de aumento no consumo médio residencial, que deveria se
dar preferencialmente pela elevação do baixo consumo
das camadas mais pobres, exigirá uma usina de 200 MW.
Conclusão
Muito embora as
necessidades sociais dos excluídos sejam gritantes e demonstrem
uma necessidade urgente em preparar o país para pagar essa
dívida, não há em nenhum plano do governo,
agora cada vez mais raros, uma mínima avaliaçào
das demandas reprimidas dessa camada social. A energia é
apenas uma das questões entre muitas, que precisam ser
examinadas.
Caso um novo governo
dê prioridade real ao aspecto social, não basta executar
as velhas projeções tendenciais sobre o mercado
de energia elétrica É preciso estabelecer metas
que prevejam esse aumento da oferta.
Quanto à
questão da capacidade de pagar dessa camada, o atual modelo
de mercado implantado no setor elétrico vai na contramão
dessa possibilidade, pois a energia está cada vez mais
cara. Seria no mínimo ingênuo imaginar que mecanismos
de mercado possam resolver essa questão. Precisamos urgentemente
imaginar um meio de que haja energia disponível para as
camadas mais pobres terem, ao menos, uma geladeira e possam armazenar
comida. Com o modelo
do governo Fernando Henrique, os pobres devem comer aquilo que
conseguem, antes que estrague.