Voltamos a afirmar que o sistema elétrico brasileiro quando responsávelmente planejado, enfrenta sêcas de até 4 anos seguidos. Não há desculpas! O planejamento de longo prazo foi desmontado e o que estamos passando nada mais é do que a consequência desse ato irresponsável.
Reservatórios no pior nível em 70 anos
O nível médio dos reservatórios de água que alimentam as hidrelétricas das regiões Sudeste e Centro-Oeste atingiu ontem 29,9%, o pior resultado dos últimos 70 anos, segundo o Operador Nacional de Sistemas Elétricos (ONS). Na segunda-feira, esse percentual era de 30,1%, 19 pontos percentuais abaixo do nível ideal para essa época.
E nem a chuva fina e contínua que insiste em atrapalhar a vida de cariocas e paulistanos é capaz de mudar esse quadro. Como na canção de Hermes Aquino do fim dos anos 70, a nuvem é passageira, atesta o chefe do Centro de Análise e Previsão do Tempo do Instituto de Meteorologia, Francisco de Assis Diniz.
”Nessa segunda quinzena do mês essa chuva desaparece. A estiagem vai se agravar como em todos os anos”, sentencia Francisco, prevendo novas chuvas fortes só para novembro. O fim da década de 70 é referência para outro dado desanimador: desde então o Sudeste e o Centro-Oeste do Brasil não vivem uma seca tão forte nos meses mais chuvosos do ano. A chuva, medida em milímetro (mm), decepcionou em janeiro e fevereiro nas áreas dos reservatórios de Minas Gerais, Rio e São Paulo. Ontem, por exemplo, a represa de Furnas, no Sul de Minas, estava com apenas 16,6% de sua capacidade.
No bimestre caíram 200 mm, ou 300 mm a menos do que cai num período normal. Em 12 meses caem geralmente 1.500 mm de chuva. Os 300 mm que faltaram nesse início de ano representam 20% desse total.
Francisco de Assis alivia a culpa de São Pedro nesse cenário: ”As massas de ar entraram, como habitualmente, pelo Sul. Mas ventos fortes a impediram de chegar ao Centro-Oeste e Sudeste.”.
Se as chuvas de janeiro e fevereiro decepcionaram, as de março foram normais (200 mm em Minas Gerais, por exemplo). Mas em abril, outra peça: choveu a metade do previsto. Na repetição do problema, de novo os ventos. ”Não houve um fenômeno climático, como o El Niño (aquecimento da temperatura do mar da América do Sul provocando redução de chuvas na região), que justificasse”, ensina Francisco.
UFF – O apagão é inevitável, afirma o diretor do Laboratório de Energia dos Ventos da Universidade Federal Fluminense (UFF), Geraldo Tavares, advertindo: ”Se não houver redução drástica no consumo o país não terá energia dentro de quatro meses.” Tavares disse que é preciso cortar porque o racionamento só mostra resultados ”em um ou dois anos consecutivos.” E insiste: ”Será preciso mobilizar todas as pessoas a não consumir e desligar todos os eletrodomésticos.” (JB 17/05)
Programa antecipado, medidas anunciadas
Resoluções valem a partir de hoje; entre elas, a redução de 35% da iluminação pública
DENISE CHRISPIM MARIN e GERUSA MARQUES
BRASÍLIA – O governo antecipou para hoje a aplicação de uma parte do programa de racionamento de energia elétrica, ao determinar os primeiros cortes de energia elétrica no País. A decisão inclui a redução de 35% do fornecimento de eletricidade para a iluminação pública e a suspensão completa do atendimento a estádios esportivos – inclusive partidas de futebol – no período noturno. As medidas valerão apenas para as Regiões Nordeste, Centro-Oeste e Sudeste.
Essa decisão já atingiu a Copa do Brasil, que havia programado para hoje, às 20h30, a partida entre Corinthians e Atlético Paranaense, já antecipada para as 15h. "A sociedade pode viver sem assistir a jogos de futebol à noite", afirmou Euclides Scalco, um dos coordenadores da Câmara de Gestão da Crise de Energia (CGCE) e presidente da Itaipu Binacional.
Essas medidas fazem parte de um conjunto de seis tópicos da primeira resolução da CGCE, o chamado "Ministério do Apagão". O texto, que teve de ser reescrito na tarde de ontem, deverá constar da edição de hoje do Diário Oficial da União (DOU). Mas constitui apenas uma parte da proposta de racionamento de energia que a CGCE deverá concluir e apresentar ao País amanhã.
O governo deverá impor o corte de 20% no consumo das três regiões do País.
Essa meta deverá ser atingida com os apagões, associados ou não à definição de cotas de redução da eletricidade para os diferentes tipos de consumidores. Segundo Scalco, os cortes que começam hoje poderão eliminar os apagões generalizados.
A Companhia Energética de Brasília (CEB) já constatou redução de 5% no consumo de energia no Distrito Federal em maio, segundo Scalco."Acreditamos que o corte de energia possa ser evitado. É melhor isso que apagões nas residências", declarou. "Essas medidas valem até que os níveis de água dos reservatórios das hidrelétricas estejam recuperados", completou.
A resolução número 1 proíbe, a partir de hoje, novas ligações elétricas pelas distribuidoras de energia, com exceção das que visem atender a residências e às áreas rurais, e o atendimento a novos pedidos de elevação de carga de consumo. Essas medidas deverão atingir diretamente a indústria, o comércio, a construção civil e a prestação de serviços, desde que empresas desses setores não tenham firmado contratos até hoje.
O texto prevê a suspensão do fornecimento provisório de energia para shows e espetáculos a partir das 18 horas em lugares abertos – como circos, parques de diversão e até festas juninas. A mesma decisão foi tomada para a iluminação noturna com finalidade ornamental e de propaganda, como a iluminação de fachadas de edifícios públicos, de monumentos, de chafarizes e de outdoors.
Votorantim – "É melhor fechar uma Votorantim ou um circo?", disparou Scalco, ao ser questionado sobre a razão dessa iniciativa. Em princípio, a CGCE abre a possibilidade de analisar dúvidas ou de solucionar casos não previstos na resolução. Um dos que já foram agendados diz respeito aos jogos diurnos em locais fechados, como o Ginásio do Ibirapuera.
A CGCE deverá deixar claro, amanhã, que a responsabilidade por esses cortes recairá sobre as distribuidoras de energia. Serão definidas punições para o descumprimento da resolução. De acordo com Wilson Ferreira Júnior, presidente da Companhia Paulista de Força e Luz (CPFL), os cortes impostos hoje são "aceitáveis". Em seus cálculos preliminares, a redução do fornecimento de eletricidade para a iluminação pública deverá levar a distribuidora a desligar uma em cada três lâmpadas das vias urbanas.
O texto divulgado ontem foi a primeira decisão tomada pelo ministro Pedro Parente, que acumula a presidência da CGCE com a chefia da Casa Civil. Esse poder de decidir antes da apreciação dos demais membros da Câmara foi conferido a Parente por medida provisória publicada ontem no DOU. Também foi a primeira decisão extensiva à maior parte dos consumidores do País. Hoje, o governo publica no DOU um decreto que regulamenta a redução do consumo de energia no setor público federal. A decisão impõe a diminuição de 15% em maio, em comparação com o mesmo mês de 2000. Em junho, essa queda terá de ser de 25%. De julho a março de 2002, a redução será de 35%. (Colaborou Isabel Braga) (Estadão 17/05)